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2161 Palavras
Dulce Na manhã seguinte, eu demorei um pouco a levantar da cama. Sabia que teria que enfrentar Christopher e não estava preparada para aquilo. Passei horas deitada na cama, olhando para o teto sem mover um dedo, sem sentir a mínima vontade de sair daquele quarto e começar o dia.  Quando ouvi a porta do quarto ser aberta, apertei os lençóis e fechei os olhos, querendo evitar quem quer que fosse que acabara de entrar.  — Dulce? Está dormindo? — ao ouvir a voz de Katy, eu abri os olhos novamente e a encarei.  — Oi, querida, bom dia. — tentei sorrir.  — Bom dia! Você não vai tomar café da manhã? Só falta você. O Christopher disse para eu chamá-la. Depois do seu café, você vai me arrumar e nós vamos até o rio tirar fotos minhas, se lembra?  — Sim, eu lembro. Já irei descer.  — Ok. — ela correu até a porta, mas parou e virou-se na minha direção antes de sair. — Eu não te acordei, não é? Tia Alê disse que seria rude.  — Eu já estava acordada, não se preocupe. — com um sorriso no rosto, ela saiu cantarolando porta fora.  Arrastei minhas pernas até a beirada da cama e fiquei sentada por alguns minutos, respirando fundo algumas vezes, buscando coragem para encarar aquela manhã.  Peguei a minha toalha e fui direto para o banheiro. Tomei um banho frio e depois vesti um jeans claro, uma camiseta preta e sapatos de camurça marrom. Prendi meu cabelo num r**o de cavalo e coloquei um pouco de blush para disfarçar a palidez.  Desci as escadas e fui até a cozinha, onde Alexandra arrumava algumas coisas enquanto a pequena Katy estava sentada ao balcão e Christopher estava em pé perto da pia, tomando uma xícara de café.  — Bom dia, Dulce! — Alexandra sorriu para mim. — Eu já ia tirar a mesa, mas a Katy disse que você tomaria o café da manhã.  — Ah, você pode tirar se quiser. — seria muito bom não comer nada.  — Você vai comer sim. — Christopher disse seriamente, num tom quase paterno.  — O que é isso, meu filho? Não fale desse jeito. — Alexandra o repreendeu. — Entendo que possa não sentir fome pela manhã, mas acredite, é a refeição que te deixa de pé pelo resto do dia. Sente-se, coma uma torrada com geleia e tome um copo de suco. — eu sorri fraco e sentei no banco ao lado de Katy.  — Você já bebeu leite recém tirado da vaca? — Katy perguntou com seus olhos enormes brilhando.  — Não. — falei.  — Vamos fazer isso hoje! Papai não vai estar na fazenda, então o Christopher disse que tiraria o leite. Ele pode te ensinar!  — É mesmo? — eu sorri e desviei meus olhos na direção de Christopher, que apesar de continuar sério, parecia ter relaxado sua face. — Eu vou adorar. Eu terminei o meu café da manhã e ajudei Katy a se arrumar para as suas fotos. Fiz uma maquiagem bem leve, já que ela era criança. Escolhemos um vestido amarelo todo bordado e em sua cabeça, eu sugeri que ela colocasse uma coroa de flores. Estava uma verdadeira princesa.  Nós três saímos da fazenda e seguimos até o rio. Durante todo o caminho, Katy ia falando de tudo sobre todas as coisas, preenchendo o caminho que estaria silencioso caso ela não estivesse ali para falar. Eu desviava meu olhar na direção de Christopher vez ou outra, observando seu semblante fixo na estrada, sem nenhuma expressão que pudesse ser decifrada.  Quando chegamos às margens do rio, eu comecei a dar dicas de como ela deveria se portar para as fotos e então Christopher começou a tirá-las. A menina tinha muito jeito para aquilo e eu a elogiei dizendo que um dia se tornaria uma modelo excelente.  Algumas horas se passaram e ela perguntou se poderia nadar um pouco. Christopher permitiu, com a condição de que ela não se afastasse do raso. Nós dois sentamos no gramado, encostados contra o tronco de uma árvore, observando a pequena se divertir na água.  — Um dia ela pode ser uma grande modelo. — eu disse para quebrar o gelo.  — Contanto que esteja feliz e saudável, por mim tudo bem. — aquilo soou como uma indireta. — Eu estou feliz... — fiquei séria.  — Tem certeza?  — Por que eu não estaria?  — Porque você nunca está satisfeita. Eu sei que todo mundo procura crescer mais e mais dentro da própria profissão, mas você... você é capaz de qualquer coisa, custe o que custar. Não se impõe limites.  — Não pode falar o que não sabe.  — Desistiu do Thomas? — sua voz era áspera, ciúmes estava presente.  — Na verdade, sim. — fui sincera. Ele finalmente olhou para mim. Estava surpreso com o que eu disse. — Você tinha razão. É melhor que eu faça um teste e consiga isso porque mereço estar lá. Vou me sentir muito melhor se for assim.  — Dulce... eu... — aos poucos, um sorriso surgiu em seu rosto. — Isso me deixa muito feliz.  — Eu sei. — retribuí o sorriso. — E sobre a minha saúde, eu não quero mesmo ouvir nenhum sermão, mas vou concordar em ir até um psicólogo.  — Em um médico também. — completou e eu o olhei de canto. — Sem reclamar. — eu assenti positivamente. — Que bom que você está deixando de ser teimosa.  — É... eu... — meus olhos se encheram de lágrimas. — Eu não quero morrer. — eu disse com a voz embargada. — Ontem você disse que...  — Dul... — me puxou para perto de si e me abraçou. — Eu disse que você acabaria se matando porque estava muito bravo. Não quis te magoar.  — Não me magoou. Eu fiquei com medo. Nunca tinha parado pra pensar nisso porque sempre achei que eu estava no controle da situação, mas isso não é verdade. Eu não tenho controle de nada! — solucei, começando a me entregar ao choro.  — Vai ficar tudo bem agora. O primeiro passo você já deu. Admitiu que tem um problema.  — Sim... bulimia?  — É o mais provável. — nos afastamos poucos centímetros um do outro e ele segurou o meu rosto para observá-lo. — Eu te amo e nunca vou desistir de você.  — Obrigada. Eu também te amo.  Sem se importar se sua prima veria, ele me deu um beijo. Apenas um toque rápido de lábios, mas que foi o suficiente para me acalmar. Depois disso, nos abraçamos mais uma vez e eu encostei a cabeça em seu peito, ouvindo cada batida do seu coração. Pela tarde, fomos até os estábulos para ordenhar o leite. Christopher amarrou as patas traseiras da vaca e enquanto ela deliciava-se com a pilha de feno à sua frente, ele sentou num banquinho ao lado dela, colocou um balde debaixo de suas t***s e começou a puxa-las, fazendo aquele parecer um trabalho simples e fácil.  — A Dulce vai tentar! — Katy disse alegremente.  — Vem cá! — ele me chamou. Sentei num banquinho ao seu lado e fiz uma careta ao olhar para as t***s da vaquinha. — Não seja fresca. — me empurrou de leve com o ombro. — Me dá a sua mão.  Segurando a minha mão, ele me ajudou a puxar, retirando o leite cuidadosamente. Parecia mesmo uma tarefa fácil, mas assim que ele me deixou fazendo sozinha, o leite respingou contra o rosto dele.  — Me desculpa! — declarei acompanhando as risadas de Katy.  — Esse não é um banho ideal. — ele riu também.  — Aposto que é bem hidratante. — zombei.  — Ah, é? — sem aviso prévio, ele agarrou uma das t***s da vaca e apertou disparando leite em meu rosto.  — Christopher! — gritei, tentando limpar a minha face.  — Agora os dois tomaram banho de leite! — Katy continuou rindo.  — Tem pra você também, engraçadinha! — ele declarou antes de sujar a menina também.  Meu celular começou a tocar e eu pedi licença para atender, deixando os dois numa guerrinha particular com o leite. Continuei rindo enquanto os assistia e atendi a ligação ainda num tom alegre.  — Sim?  — Vejo que está se divertindo na fazenda. — assim que ouvi a voz de Thomas, meu sorriso morreu, dando lugar à uma expressão de tédio.  — O que você quer, Thomas?  — Você não me ligou mais, está se fazendo de difícil? Lembre-se que você tem muito mais a perder do que eu.  — Olha, eu não tenho tempo pra isso, estou ocupada demais cuidando da minha própria vida.  — Mas eu quero cuidar da sua vida. Mais precisamente, do seu futuro. Ou será que desistiu das Angels?  — Não, não desisti, apenas resolvi optar por meios menos degradantes.  — Deixe disso, não é degradante dormir comigo, você deveria se sentir lisonjeada por eu te querer. — seu tom era de convencimento e eu me senti enojada.  — Me poupa, mauricinho! Não preciso de você, até mais.  — Espere! Acha que será tão fácil assim? Que fará um teste e irá passar? — riu. — Já viu aquelas modelos? E já se olhou no espelho? Pode fazer quantos tentes quiser, Dulce. Nenhuma agência tão renomada quanto a Victoria Secrets contrataria uma mulher com as suas medidas.  — Minhas medidas? — olhei para o meu próprio corpo por alguns instantes, sentindo um desânimo me invadir.  — Para uma modelo você é um pouco... rechonchuda. — debochou. — Não me leve a m*l, eu gosto de mulheres com carne, mas na passarela fica feio, ninguém quer ver. Nunca vai conseguir ser uma Angel por mérito próprio e sabe disso. — à essa altura, eu não dizia nada, pois meu rosto estava coberto de lágrimas e eu não queria que a minha voz denunciasse que eu estava chorando. — Sabe que tem um jeito de conseguir o que quer, basta querer.  Quando eu continuei sem dizer nada, ele continuou:  — Ninguém acredita em você de verdade, nem mesmo o Christopher. Você só tem emprego porque tem uma personalidade forte, você assusta as pessoas. Se fosse pela sua aparência, jamais estamparia as capas de revista. Tem sorte de estarmos numa era em que ser gordinha está na moda, assim você é contratada sem esforço. Mas a Victoria Secrets? Lá você não entra com essas curvas exageradas. Quer que todos te venerem? Que parem de te olhar como uma garotinha gorda? É melhor ceder aos meus caprichos, Dulce.  — Eu... — virei-me para observar Christopher, que sorria alegre enquanto guiava Katy na ordenha. — Não. — Que droga, Dulce! É uma noite! Só isso, a droga de uma noite! Nunca mais falamos disso. Além do mais, se te serve de estímulo, eu já falei com a minha mãe sobre a minha amiga modelo que sonha em ser uma Angel. Ela me garantiu uma vaga. Não dei nenhum nome ou foto, apenas levarei essa minha amiga na semana que vem e ela será aceita. Se você não quiser, eu levo a Lauren Hills.  — O que?  — Isso mesmo, a sua rival no mundo da moda. Aquela que disse numa entrevista que os fotógrafos enchiam sua b***a de photoshop porque você tinha muitas celulites. Vai dar esse gostinho à ela? Deixar que ela tome o seu lugar na realização de um sonho que sempre foi seu?  Minha respiração estava acelerada. Thomas havia colocado todas as suas cartas na mesa. Me deu a oferta, sugeriu o acordo e mexeu com o meu psicológico, usou aquilo que ele sabia que mais doía em mim. Minha mente entrou em pânico e eu me vi tentada a agir no automático como fiz todos os dias da minha vida, sempre pensando no meu corpo e em como ele era visto por mim e pelos outros.  — Uma noite. — falei por fim. — Só uma noite e você nunca mais vai tocar em mim.  — Combinado. Faremos isso amanhã à noite depois que você voltar dessa sua viagem sem graça. Te levarei a um lugar especial, onde eu vou fazer o que eu quiser com você, ok?  — Ok.  — É um prazer negociar com você, Dulce. — e após dizer isso, ele desligou.  Olhei para a tela do celular com minhas mãos um pouco trêmulas. Lembrei de várias coisas do meu passado, com meus gatilhos despertados, fazendo minha mente vagar por uma escuridão que eu achei estar deixando para trás. Eu não queria fazer essas coisas, mas era mais forte do que eu. A maneira mais fácil de me manipular era falando da minha aparência e aquele desgraçado sabia disso.  Voltei minha atenção para Christopher e sua prima, que agora estavam mais silenciosos e concentrados, enchendo juntos aquele balde de leite, sem nenhuma preocupação os rodeando.  Iria ser só uma noite, Christopher. Só uma noite e eu jamais tornaria a te decepcionar de novo.
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