05

2267 Palavras
Dulce Eu e Christopher dormimos pelo resto da noite e boa parte da manhã de domingo também. Só acordei por causa do toque do meu celular, que eu tratei de atender imediatamente, saindo às pressas do quarto para não atrapalhar o sono dele.  — Alô? — eu disse assim que cheguei à sala.  — Bom dia, Dulce! Dormiu bem? — tirei meu celular da orelha e olhei o nome de Thomas na tela.  — Ah, oi, Tom! Sim, eu dormi perfeitamente bem, e você?  — Fiquei um pouco ansioso por hoje à noite. Eu fiz uma reserva no melhor restaurante da cidade. — se gabou.  — Ótimo! — minha voz foi animada, mas eu revirei os olhos de tédio. — Que horas você me pega?  — Pode ser a noite toda? — riu e mais uma vez eu revirei os olhos.  — Engraçadinho! — forcei uma risada. — Diz logo.  — Às 20:00 horas.  — Ok, até mais.  — Até. — desliguei e aproveitei que já estava acordada para preparar algo para comer.  Sim, eu havia dito ao Christopher que não me jogaria nos braços do Thomas e só tentaria uma amizade, mas aquilo funcionaria com o tipinho dele? Talvez a logo prazo, mas eu não tinha tanto tempo para jogar fora. Daria em cima dele de forma sutil, sem ninguém para me servir de plateia.  Eu já podia me imaginar andando por uma passarela vestindo uma lingerie caríssima da Victoria Secrets, com asas de anjo nas minhas costas. A partir disso, minha carreira poderia chegar até o espaço sem que eu tivesse que me esforçar.  Meu melhor amigo era incapaz de entender as minhas necessidades, porque seus sentimentos por mim o cegavam. Para manter uma relação estável com ele, eu tive que dizer o que ele queria ouvir.  Preparei alguns sanduíches para mim e Christopher e aguardei que ele acordasse para comermos juntos, o que não demorou muito. Ele olhava para mim com um semblante divertido, enquanto eu comia rápido aqueles três enormes sanduíches em meu prato.  — Eu não entendo você. — ele disse, abrindo um sorriso. — Tem dias que come muito pouco, outros dias se entope de comida.  — Hoje é domingo, o famoso "dia do lixo" para quem faz dieta. Posso comer besteiras.  — Pelo menos eu estou te vendo comer de verdade. Por um momento, cheguei a pensar que não estivesse se alimentando direito.  — Bobagem! — dei de ombros.  — Eu posso fazer uma pergunta? — desviou o olhar, mudando sua expressão para uma mais desconfortável.  — Pode.  — O que são todos aqueles remédios no armário do banheiro?  — Por que mexeu nas minhas coisas? — eu disse em tom de acusação. — Ei, calma! Você vive mexendo nas minhas e eu nunca reclamei.  — Exato, você nunca reclamou porque não se importa, mas talvez eu me importe!  — Eu estava procurando enxaguante bucal, ok? Foi lá que eu encontrei a maconha também, sua noiada! — tentou brincar, mas eu continuei séria. — Você está doente? Eu me preocupo.  — Não, eu não estou doente, são só vitaminas. — menti. — Fazem parte da minha rotina saudável.  — Tudo receitado por médicos?  — Sim. — outra mentira.  — Ok. — sorriu parecendo aliviado. — E por que ficou tão brava? — É que eu não gosto que tentem me controlar.  — Eu não quero controlar você, é só preocupação.  — Você é um amor! — apertei sua bochecha.  — Quer jantar comigo hoje à noite?  — Eu não posso, tenho compromisso.  — Ah! — me encarou como se esperasse uma explicação.  — Thomas. — falei apenas e recebi um olhar desconfiado. — Não, não é um encontro romântico. — revirei os olhos.  — Não se deixe levar.  — Acha que ele vai me seduzir? — ri com deboche. — Olha pra mim! — joguei meus cabelos para trás.  — Gostosa até demais. — falou maliciosamente.  — Isso! Não é qualquer um que chama a minha atenção. — o olhei de cima a baixo.  Ficamos nos encarando e a tensão s****l natural que existia entre nós começou a crescer. Nós nos aproximamos e deixamos que nossas bocas se tocassem apenas por alguns segundos, até o barulho de seu celular vibrando atrapalhar aquele momento.  — Desculpe, eu tenho que responder. — ele disse começando a digitar. — Merda... — resmungou esfregando a testa. — O que foi?  — O Alfonso querendo fazer uma reunião em pleno domingo sobre a temporada de primavera. — bufou. — Vai ser daqui a uma hora, então eu acho melhor eu ir me aprontar. — ele me deu um selinho e levantou. — Eu falo com você depois.  — Ok, até mais! — sorri.  Depois que ele saiu pela porta da frente, eu terminei de comer e como de costume, fui direto para o banheiro, tirar de mim toda a caloria que eu engoli.  Ajoelhei-me no chão, enfiei meus dedos o mais fundo que pude em minha garganta e senti o vômito subir pelo meu esôfago até a minha boca. Me induzi ao vômito até não sair mais nada de mim.  Peguei um lenço umedecido, encostei-me contra a parede e limpei os cantos da minha boca, fechando os olhos e respirando fundo algumas vezes até que o m*l estar se dissipasse junto com a queimação em meu estômago. Quando já estava melhor, levantei, escovei meus dentes e segui o meu dia tranquilamente.  Depois de um banho relaxante, eu tomei um dos meus remédios para emagrecer e antes de vestir minhas roupas, eu medi a minha cintura com uma fita métrica, como fazia toda semana. Comemorei ao ver que havia diminuído quatro centímetros de barriga.  Enquanto penteava o meu cabelo, eu senti uma leve tontura, o que já era normal, eu estava acostumada. Elas iam e vinham tantas vezes que eu já conseguia disfarçar muito bem em público. Aquilo passaria logo, eu só tinha que alcançar meu peso ideal e depois faria uma dieta comum.  Me exercitei ali mesmo no meu apartamento, por pelo menos uma hora e meia. No resto do dia, eu cuidei da minha pele e do meu cabelo. Esse era um domingo típico de cuidados comigo. Manter a beleza era essencial na minha área. Quando a hora do jantar se aproximou, eu separei um belo vestido vermelho bem decotado, minhas melhores joias e um salto alto preto. Essa noite eu estaria vestida para matar.  Fiz uma maquiagem pesada, com olhos marcantes e um batom vermelho que acentuou o belo desenho dos meus lábios. Deixei meus cabelos soltos depois de fazer algumas ondas nele e assim que borrifei um pouco de perfume, o porteiro ligou dizendo que Thomas me esperava.  Ele me cumprimentou com um beijo no rosto que ao meu ver, foi mais molhado do que precisava ser. Chegamos ao restaurante e eu aprovei a sua escolha. Depois de fazermos nossos pedidos, começamos a conversar.  — Olha só pra nós. — ele disse com um sorriso no rosto. — Somos as pessoas mais bonitas daqui. — dei uma breve olhada em volta.  — É, tem razão. — sorri de canto. — Você tem potencial. — dedilhei sua mão que estava sobre a mesa.  — Você também, Dulce. Mesmo se não fosse tão talentosa, sua beleza já seria o suficiente para a sua carreira decolar.  — Ah, que cavalheiro! — lancei meu melhor olhar sedutor. — Eu espero continuar crescendo profissionalmente.  — E você vai, pode acreditar.  — Você também. — eu estava mentindo demais aquele dia.  Thomas era modelo a pouco tempo e já estampava as principais campanhas. E por que? Por ser talentoso? Não. A única coisa que ele tinha era beleza. Ele era um padrão masculino por inteiro e talvez isso esconda o fato de não ser nenhum pouco fotogênico e sempre usar as mesmas expressões e poses em suas fotos. O único motivo de ser famoso era  sua amável mamãezinha que literalmente comprou a carreira dele.  Ele dá em cima de mim desde que nos conhecemos e eu nunca dei bola de verdade, mas às vezes correspondia apenas em tom de brincadeira. Agora eu usaria o desejo que Thomas sente por mim de uma forma muito mais produtiva.  O jantar foi regado de conversas fúteis que giraram em torno dele e do trabalho dele. Fingi interesse o tempo todo e ri de forma descontraída ao ouvir cada uma de suas cantadas ruins. Ele achava que estava arrasando, mas apenas me causava náuseas.  — Você comeu tão pouco, não quer mesmo a sobremesa? — perguntou.  — Eu estou fazendo uma dieta, então só como o necessário. Estou satisfeita. — ele sorriu e chamou o garçom para pedir a conta.  Quando voltamos para o meu prédio, tudo estava mais silencioso, ele me lançava olhares sedentos o tempo todo, analisando cada parte do meu corpo de cima a baixo. Eu estava rezando para chegar logo em casa. Assim que ele estacionou em frente ao meu prédio, eu me esquivei para perto de seu ouvido.  — Isso foi muito agradável, espero repetir. — eu disse quase num sussurro e pude ver ele estremecer.  — Ou a gente poderia dar continuidade à esta noite lá no seu apartamento. — sorriu maliciosamente e eu soltei uma risada leve.  — Dulce Maria não é uma mulher fácil, Tom. Terá que me dar muito mais do que me mostrou hoje. — dei um beijo demorado em sua bochecha. — Nos vemos numa próxima vez e por favor, seja original. — dei uma piscadela.  E como imaginei, ele me encarou até que eu entrasse, sumindo do seu campo de visão. Sei que disse que não tinha tempo a perder, mas me jogar para ele logo de cara seria como entregar o pagamento antes de receber o produto. Mais do que desejar o meu corpo, Thomas deveria me venerar para assim me dar o que eu precisava. Meu terreno estava apenas sendo preparado.  Mas ainda era domingo e eu jamais passaria um dia sequer do meu final de semana sozinha. Eu precisava de sexo e eu teria. Antes mesmo de entrar em casa, eu peguei a chave que tinha do apartamento de Christopher e fui entrando, mas para o meu desgosto, ele não estava sozinho.  — Ah, oi, Dulce! — Christopher sorriu.  Ele e aquela assistente feia estavam trabalhando em alguma coisa, sentados no chão da sala enquanto uma papelada bagunçada estava posta sobre a mesinha de centro. Eu franzi a testa e encarei Carla, que manteve uma expressão carrancuda assim que entrei.  — Atrapalho? — perguntei.  — Não, nós só estamos adiantando alguns projetos dessa semana. Você não acredita na quantidade de trabalho que o Alfonso jogou em nós na reunião. — Christopher reclamou. — Você pode ficar se quiser.  — Seria mais fácil fazer isso sem distrações. — Carla disse. Ela não me queria ali.  — Dulce não vai ser um incômodo. — ele garantiu.  — Na verdade, não dá pra fazer o que eu pretendia com ela estando aqui. — provoquei. — Se é que me entendem... — sorri de lado, o encarando.  — Nossa... — ela murmurou, desviando o olhar e eu pude ver um rubor surgir nas bochechas de Christopher.  — A gente pode falar no corredor? — ele pediu e eu assenti. Saímos de seu apartamento e depois de fechar a porta, ele me olhou com repreensão. — Que p***a é essa?  — Como assim? — me fiz de desentendida.  — Não pode insinuar na frente das pessoas que você quer t*****r comigo. — falou como se fosse óbvio. — Isso é tão inapropriado!  — Eu não sou politicamente correta. — dei de ombros, despreocupada.  — Pois aprenda a ser. — ficou sério.  — Tá... — bufei. — Ela não gosta de mim e é caidinha por você, eu só queria deixar ela bravinha.  — De onde tirou que a Carla gosta de mim? — riu.  — Você é burro? É só prestar atenção em como ela te olha. Aposto que ela tem um altar com fotos suas em casa. — ele parou como se estivesse imaginando e então sacudiu o corpo como se tivesse um arrepio forte.  — Independente do que você ache, aquele é um ambiente de trabalho agora e você precisa se controlar. — eu ia falar alguma coisa, mas ele me cortou antes que eu pudesse começar. — Eu sei que você faz o que quer e não liga para o que os outros pensam, mas às vezes, pra se conviver em sociedade, a gente precisa se impor limites. Você pode perder muita coisa agindo por impulso.  — Terminou o seu sermão, papai? — ironizei e ele arqueou as sobrancelhas. — O que foi? Gostou de ser chamado de "papai"? — me aproximei, lançando um olhar selvagem.  — Você chama o seu pai de "papai"? — Não. — sorri.  — Então, sim, eu gostei. — apoiou as mãos em minha cintura e deixou que nossos lábios se encontrassem por alguns segundos, parando ao notar que o clima esquentava. — Tenho que trabalhar.  — Que merda... — reclamei.  — Te vejo amanhã. — beijou minha testa.  — Fala pra Carla que eu mandei ela ir se f***r.  — Não, eu não vou falar. — me mandou um beijinho no ar e enfim entrou em sua casa.  Quando me vi sozinha no meu apartamento, larguei meus sapatos em qualquer canto e fui direto para a cozinha. Peguei uma caixa de pizza que ainda tinha quatro fatias dentro e depois de esquentar, eu comi todas elas. E terminei a minha noite como comecei o dia: me livrando do excesso de calorias que ingeri.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR