06 FORA DO MORRO

1439 Palavras
NICOLE NARRANDO E desci achando que ele ia almoçar sozinho. Mas não... ele não estava só acompanhado do pai, como de mais sete dos seus homens. De verdade, eu me senti encurralada. Não demonstrei, claro, nunca vou demonstrar fraqueza. Posso chorar. Surtar. Ou gritar. Mas nunca na frente deles. Nunca pra dar o gostinho do meu sofrimento ao Morte. O pai dele, mesmo sendo quem me comprou de fato, me passa uma coisa boa. Sei lá. Eu respondi ele no escritório porque ele mereceu. Mas eu gosto dele e sinto muito por ele estar com essa doença. Eu penso que a vida às vezes é injusta. Velho é um homem c***l e terrível. Mas todo o morro sabe o quanto ele ama o filho. E Morte ama o pai. Mas eles estão se perdendo pouco a pouco pela doença... agora um verme que vende a filha, bebe três litros de cachaça por dia e nem pressão alta tem. Eu não sabia desse dinheiro que o velho mandava. Mas sim, ele chegava em casa. Eu não sabia como a nossa casa foi ficando mais bonita a cada dia. Mais arrumada por dentro, pelo menos. Nem meu pai e nem minha mãe trabalhavam, então como? Mas agora a pergunta foi respondida. A comida? A casa passou a ter muita, assim como os móveis. Mas eu não podia comer tudo. Podia comer o básico, o mínimo, e eu não me importava. Já tinha o costume de não comer muito e não ter muito desde criança. Então, quando eles começaram a encher a despensa, eu não fiz questão de comer. Eu notei que o Morte se incomodou. Mas não disse nada diretamente, e eu menos ainda. Pouco antes de descermos... ele ameaçou matar os meus pais se eu não andasse na linha. O que ele não sabe é que eu pouco tô me fudendo pros dois. Se eu vim até aqui e aqui estou, é porque eu tenho amor à minha vida. E se eu não viesse, não seria só a minha mãe e meu pai a morrer. Eu iria junto. E eu sou jovem demais pra morrer. Posso não viver tudo o que eu sonhei quando mais nova. Mas ainda posso viver um pouco. Mesmo que aprisionada ao dono do morro. Morte me ameaçou com eles. Mas o que ele não sabe... é que com o passar dos anos a minha mãe se tornou tão desprezível quanto o meu pai. Quando o dinheiro, que eu nem sabia que existia, foi chegando, ela foi mudando. Foi subindo pra cabeça. Acho que eles só não pensaram que eles iam ficar sabendo disso. Andressa sempre me dizia que eles deviam estar mandando dinheiro pra mim. Que eu devia ir à boca ver se era isso, pra eu poder ter as minhas coisas. Comprar as minhas coisas. Um celular que eu nunca tive. Mas eu neguei. Disse que eu não queria nada e ainda continuo com o mesmo pensamento. Mas agora as coisas se encaixam de vez e que eles assumam as consequências deles. Porque eu mesma não posso fazer mais nada por eles. Tudo que eu podia, eu fiz... vou me casar em menos de vinte e quatro horas. NICK — obrigada pelo almoço. _ eu falo quando eu termino e eles continuam comendo. Eles comem muito. - Eu posso me retirar agora? _ pergunto. MORTE — não precisa agradecer a comida e não, ainda tem a sobremesa. _ eu o olho. Eu quase nunca como doces. NICK — tá ok. _ eu falo e fico ali na mesa. Olho ao redor da sala de jantar. Os crias conversam. Velho e Morte trocam olhares e eu? Eu só existo. MORTE — quem levou as roupas no quarto da Nicole? _ ele pergunta do nada. VAPOR — deixamos no corredor e dona Maria colocou pra dentro, chefe. _ ele fala e eu concordo. NICK — eu nem vi ninguém entrando. _ ele me olha. MORTE — tem que ser mais atenta. É a mulher do chefe agora. _ ele me olha. - Ninguém tem que ver o que é meu. _ eu o olho e entendo que ele viu mais do que devia, por eu estar dormindo de vestido. VELHO — eu vou ir para o meu quarto. _ ele fala do nada. - Se precisar de algo, joia. Pede à Maria, ou só fique à vontade. _ concordo. NICK — se precisar de algo, pode me chamar. _ eu falo pra ele e Morte me olha surpreso. Já o velho dá um sorriso satisfeito. [...] Depois da sobremesa, eu pude subir para o meu quarto de novo. Comecei pegando as caixas que trouxeram pra cá e coloquei uma a uma em cima da cama. Quando abri elas, fiquei chocada. Tem coisas demais pra uma pessoa só. Em uma delas só tinha produtos de higiene. Maquiagem, perfumes. Comecei a tirar um a um e tem vinte perfumes... pra que eu preciso de vinte perfumes e um diferente do outro ainda. Sento na cama sem entender o que passa na cabeça desse homem. Amei os batons, os rímel. Sombras. Mas vinte perfumes? Abri a tampa de outras caixas e achei a que tinha roupas íntimas e de dormir. Quem é que escolheu tudo isso? Pego as calcinhas minúsculas. Mas tem as maiores e mais confortáveis. Tem camisolas de vários tipos e conjuntos baby-doll. Ele não disse que eu ia ter que sair do quarto. Nem que eu tinha que jantar, e eu não costumo jantar. Pego um conjunto e vou para o banheiro. Como ele me deu tudo isso de coisa pra eu ficar cheirosa, quer dizer que eu posso usar as coisas da suíte do banheiro. Pego as coisas de cabeça, de corpo e vou para o chuveiro e, pela primeira vez na vida, eu tomo um banho com tudo o que eu tenho direito e, quando eu saio, me sinto até mais leve. NICK — isso que é um banho de verdade. _ falo pra mim mesma e volto para o quarto. [...] Depois do banho, eu fechei as caixas de novo. Escureci o quarto e me deitei. Apaguei em segundos e, quando acordei, já estava de noite. Dez e meia da noite, pra ser mais exata. Olho ao redor do quarto e acho um frigobar quase que escondido. Abro ele e tem água, suco, iogurte e algumas frutas. Eu me surpreendo. Mas pego só a água e vou até a varanda do quarto. Olho pra vista do fundo da casa. Vejo os vapores no quintal com armas, andando de um lado para o outro. Eles não podem me ver de onde estou. Mas eu vejo eles e mais um pouco do terreno que eu não ousei ir ver. Olho para dentro do quarto e olho as caixas lá. Respiro fundo, agora sem sono, e vou até de novo e começo a tirar as coisas de dentro. MORTE — Maria disse que não desceu pra jantar. _ coloco a mão no peito com o susto. NICK — p**a merda. Não sabe bater? _ eu falo e, quando olho pra ele, está sem camisa. Um arranhado no peito e um vermelho no pescoço. - Não estou com fome. _ ele me olha e nota onde eu olhei. MORTE — isso não é o que pensa. _ eu dou de ombros. NICK — se for pra fuder com outras mulheres, faça fora do morro. Eu já fui vendida a você, o que já é muita humilhação. Agora ter que ser corna aí é demais. _ ele me olha. MORTE — sou homem, Nicole. _ eu concordo. NICK — eu sei. Não estou dizendo pra não ser._ ele me olha. MORTE — sou homem pra saber o meu lugar. Tu foi prometida a mim. Vai ser minha mulher e vai ser única. Posso não te amar. Mas a única que eu vou fuder vai ser tu. _ eu me surpreendo de novo. NICK — e como vai fazer isso se eu não quiser? _ ele sorri. MORTE — eu não vou te fuder sem a tua permissão. Mas eu vou te tocar e, quando eu fizer isso, tu vai render. _ eu sinto o formigamento entre as pernas de novo. - Tu já fica mole só com a minha voz. Quando eu te fizer gozar a primeira vez, vai virar uma p**a e sentar dia e noite. _ parece que ele sugou até o ar que eu respiro com essa frase. - Boa noite, patroa. _ ele fala, saindo do quarto e fechando a porta. Já eu sento na cama e volto a respirar. COMENTEM E VOTEM MUITO.
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