Helena:
— Ela é a Maria Helena, mãe, a moça que me deu a oportunidade de trabalho e está ajudando a senhora.
— Aquela que acha que você é um mercenário?
— Ela não acha isso-diz sútil.
— Obrigada por tudo que fez por mim, mas quero que me tirem daqui e me levem para um hospital público. Não quero ser comprada também.
— Mãe! — repreende ele.
— Gean, vou te esperar lá fora.
Saio da sala e vou para a recepção tomar um café, além de respirar e tentar relevar a raiva que essa senhora sentia por mim, mesmo sem me conhecer.
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Gean:
Assim que ela sai, sinto o clima pesado e olho para ela com um olhar desaprovador.
— Não me olhe assim — diz séria.
— Ela só quer te ajudar e a senhora a trata assim?
— Eu não quero ajuda dessa mulher. Não ver como ela nos esnoba, como mostra que tem e não temos. Devia sentir asco dela, por esfregar em nossa cara o que não podemos e largar tudo dela por aí.
— Ela não esfregou nada em nosso rosto, nos sentimos assim por vergonha da nossa situação e orgulho bobo. Maria Helena, só quer nos ajudar, então aceita, por favor.
— Não sou comprável e manipulável, Gean.
— Sabia que ficou dias desacordada?
— O médico disse.
— Acha que no hospital público a senhora iria sobreviver? — A mesma se cala — Não, eles iam fingir que tentaram te ajudar, iriam te deixar morrer.
— Melhor do que me submeter a essa safadeza que você chama de oportunidade de trabalho.
— Assim que a senhora melhorar, pode ir para casa, vou solicitar para a Helena permitir que um veículo a leve.
Me viro para ir embora.
— Vai abandonar sua mãe por causa dessa mulher?
— A senhora se abandonou, a senhora me afastou e continua fazendo isso. Não preciso que a ame, só que tente tratá-la bem, ela só quer nosso bem, se quisesse nosso m*l, ela não te traria e pagaria suas despesas. Só… pensa nisso.
Saio da sala, fecho a porta e respiro fundo. Por que era tão difícil parar de ser orgulhosa?
Percebo que minha pergunta vai ficar sem resposta, então procuro a Maria. Ando por minutos, até que a encontro tomando café.
— Tudo bem? — Questiono ao me aproximar.
— Sim.
— Me desculpa por ela… minha mãe é um pouco orgulhosa, quer sempre se virar sozinha e esperar que as coisas venham até nós, com calma e paciência, de preferência em forma de esmola — acaba soando irritado.
— Está tudo bem. Não sabemos os motivos dela ser assim, pode ser traumas, proteção, ou só falta de conhecer o seu “Eu” superior.
— O que é isso?
— O “Eu” superior? Ah, ele é tudo, está em todos, fez a todos, fez a tudo. Ele é aquela imagem perfeita de nós, enquanto somos o rabisco, ele é a obra perfeita.
— O que seria?
— Um ser transcendental, alguém superior a nós, porém, como nós em alguns aspectos.
Nessa projeção, chamamos de Deus, o Criador.
— Não acredito em um criador.
— Tudo é perfeito demais para ser feito do nada, tudo foi minuciosamente planejado, para dizermos que só passou a existir do nada.
— Não sabia que era religiosa.
— Não sou, só não sou ignorante para abolir do meu conhecimento a existência de algo maior.
— Vamos caminhar?
— Sim.
Saímos do hospital, fomos andando e conversando até a casa dos pais dela. Assim que chegamos, ela foi até a porta e bateu algumas vezes. Em poucos segundos, uma mulher alta e forte abriu a mesma.
— Bom dia, senhora, entra.
— Obrigada — Sorri.
— Bom dia — falo educado.
— Bom dia. Podem entrar, eles se encontram no jardim.
— Tá bom, obrigada.
Ela foi caminhando na frente e eu a seguindo, andamos por um longo corredor até chegarmos a uma porta que estava aberta, saímos por ela e chegamos a um jardim bem cuidado, com flores viçosas e gramado verdejante, além de bem aparado.
Tinham duas cadeiras de balanço apoiadas na parede, havia dois idosos, cada um em sua cadeira, pelo visto os donos não queriam balançar.
— Bom dia, pai, mãe. — A mesma se aproxima, beijando a testa de um por vez.
— Bom dia, filha.
— Bom dia, meu amor.
— Pega uma cadeira para sentar Maria.
— Não, mãe, obrigada. Vim só ver e saber como estavam, logo volto para casa.
— Não vai nos apresentar, rapaz?
— Mãe, pai, esse é o Gean, meu namorado.
— O quê?
Todos fazem cara de surpresa e ela fica constrangida.
Em minutos, a empregada traz uma cadeira para mim, que logo sou entrevistado. Agora sei a quem Maria Helena puxou esse jeito de resolver tudo, entrevistando e dando ordens.
— Onde nasceu? — questiona a mãe feliz.
— Na periferia.
— Tão rica e escolheu um lascado para namorar? — diz o pai.
— Pai! — a mesma repreende.
— Ele seria um ótimo marido, para não deixar a Maria com o nariz em pé.
— Ela merecia o melhor — diz baixo, mas ainda pude ouvir.
— Com toda certeza, ela merece o melhor e eu vou me tornar o melhor para ela.
Sorrio para ela e a mesma sorri.
Após muitos questionamentos, lanche caseiro, aprovação da mãe e desaprovação do pai, nós saímos da casa, caminhamos até o portão, mas antes de o alcançar, a mãe dela chama.
— Helena!
— Senhora?
A mesma se vira e olha para a mãe, que caminha até nós e a abraça forte.
— Estou orgulhosa de você.
Beija sua testa, a solta, se vira e vai para casa, entrando e fechando a porta atrás de si.
Helena m*l respirava, não movia nem um músculo e muito menos piscava.
— Tudo bem?
— Sim — diz paralisada.
— Vamos para casa?
— Sim…
Então caminhamos para casa, ela continuou calada, parecia anestesiada e, por mais que me preocupasse, acho que tinha a ver com a mãe dela. Talvez receber esse ato de carinho a deixou em êxtase.