Capítulo 11

1240 Palavras
Narrado por Anastácia Vestir uma roupa diferente das de sempre, colocar uma maquiagem leve, prender o cabelo com um coque que deixava a nuca à mostra tudo parecia tão simples... e tão grandioso ao mesmo tempo. Cada gesto daquela manhã tinha um gosto de conquista, como se eu estivesse devolvendo a mim mesma partes que haviam ficado soterradas sob a dor. Era o meu primeiro dia de trabalho. Não sabia se deveria chorar de alegria ou correr para o banheiro e vomitar de nervoso. Talvez os dois. Meu coração parecia bater no ritmo de uma bateria escolar e minhas mãos tremiam, mesmo segurando a caneca de chá que Christian havia me entregado com aquele sorriso paciente que tanto me acalmava. - Você vai arrasar, Ana - ele disse, beijando minha testa. - E se não arrasar, tudo bem. Só de estar indo já é um triunfo. - Você acha mesmo que eu consigo? - Eu tenho certeza. Mas mais importante que isso... é você acreditar nisso. Olhei para ele e me dei conta de que, mesmo depois de tudo o que vivemos, ainda havia momentos em que minha mente duvidava da força que conquistei. Mas quando Christian me olhava assim como se eu fosse feita de coragem , era difícil não acreditar também. A ONG ficava a poucos bairros dali, em um casarão antigo reformado. Funcionava como um centro cultural com oficinas de arte, reforço escolar e acolhimento para jovens em situação de vulnerabilidade. O ambiente era simples, mas cheio de vida. Murais coloridos, crianças correndo, vozes animadas nos corredores. Respirei fundo antes de entrar. Fui recebida por Amanda, uma das coordenadoras, com um abraço caloroso e um sorriso sincero. Ela me apresentou a alguns professores, funcionários e, por fim, ao responsável pela oficina de pintura: Pedro. - Anastácia? Que nome lindo! - ele disse, estendendo a mão. - Eu sou Pedro, e estou aqui para te ajudar no que for preciso. Seja bem-vinda à bagunça mais bonita do mundo. Pedro era alto, pele morena, barba curta e olhos claros. Tinha aquele tipo de energia que contagia sem esforço. O tipo de pessoa que faz os outros rirem até nos dias difíceis. Usava uma camiseta manchada de tinta e tinha o costume de gesticular muito quando falava, o que tornava tudo mais leve. - Obrigada - sorri, um pouco tímida. - Estou nervosa, mas animada. - Isso é ótimo! Ficar nervosa mostra que você se importa. Agora vem, quero te mostrar a sala das tintas. Prepare-se, porque tem mais cor ali do que em um arco-íris bêbado. Ri, um riso espontâneo que me surpreendeu. Há quanto tempo eu não me sentia tão... leve. As horas passaram voando. Ajudei duas meninas a desenharem rostos, participei de uma atividade com lápis de cor e ouvi um menino de sete anos me contar que queria pintar "o céu de verde, porque azul já tá muito chato". Pedro circulava entre as mesas com naturalidade, e logo percebi como ele se conectava com as crianças. Sem esforço, sem autoridade forçada. Ele apenas... fazia parte. - Você tem jeito com elas - comentei, durante a pausa para o café. - Eu fui uma delas um dia - respondeu, dando de ombros. - Cresci em abrigo. Arte salvou minha vida. Agora tento devolver um pouco do que recebi. Fiquei tocada com aquilo. Era como olhar para alguém que, de alguma forma, entendia o que era recomeçar. Não do mesmo jeito que eu... mas da mesma essência. Quando Christian me buscou no fim do expediente, eu estava com os cabelos meio desarrumados, a blusa com uma mancha amarela de tinta e os olhos brilhando. - Você está linda assim - ele disse, sorrindo. - Assim como? - Assim... viva. Me emocionei. E, ali mesmo, no estacionamento da ONG, o abracei com força. - Foi um bom dia - sussurrei. - Eu me senti... parte de algo. - Eu sabia que você ia se sair bem. - Conheci um colega legal. Pedro Ele é o responsável pela oficina. Muito gente boa. Christian assentiu, mas por um segundo, apenas um segundo, vi algo passar por seus olhos. Não era desconfiança. Era... cuidado? Ciúmes? - Legal - ele disse, tentando soar neutro. - Mas não se preocupe - brinquei, cutucando sua barriga. - Você continua sendo meu favorito. Ele riu, mas percebi que aquele nome ainda girava em sua mente. Nos dias seguintes, Christian continuou gentil, presente, mas havia uma pontinha de rigidez em seus gestos. Nada que me magoasse apenas algo novo. E, no fundo, era quase doce ver aquele homem tão sério tentando esconder o ciúmes. Eu me sentia bem. Trabalhar estava me devolvendo a autoestima. Saber que eu podia contribuir, que minha história podia inspirar, era libertador. Pedro e eu nos tornamos bons colegas. Trocávamos ideias de projetos, falávamos sobre técnicas de pintura e, às vezes, sobre música. Nunca houve segundas intenções. Ele sabia que eu estava em um relacionamento, e me respeitava profundamente. Mas Christian era humano. E, por mais que fosse seguro de si, não era imune a inseguranças. Principalmente depois de tudo que compartilhamos. Numa sexta-feira à noite, enquanto jantávamos em casa, decidi conversar com ele. - Está tudo bem? - perguntei, tocando sua mão. - Claro. Por quê? - Porque você está mais calado ultimamente. E eu queria saber se... tem a ver com o trabalho. Com o Pedro. Christian suspirou, apoiando os cotovelos na mesa. - Eu confio em você, Ana. Só... às vezes, ainda me assusto com a ideia de te perder. Passei tanto tempo te protegendo, te cuidando, que é estranho agora te ver indo, sendo dona de si outra vez. Não quero que isso te afaste de mim. É egoísta, eu sei. - Não é egoísmo, é amor. Mas Christian... você não me perdeu. Na verdade, me ganhou de um jeito que ninguém nunca conseguiu. E eu te amo. Não há Pedro, trabalho ou rotina que vá mudar isso. Ele me olhou com ternura, os olhos marejados. - Eu só tenho medo de não ser suficiente quando você não precisar mais de mim como antes. - Mas eu nunca amei você por necessidade. Eu te amo por escolha. Porque você me viu quando ninguém mais via. E agora, eu quero crescer com você. Lado a lado. Não sob sua proteção mas sob o seu amor. Ele se levantou, me puxou para um abraço e sussurrou: - Obrigado por me lembrar disso. Mais tarde, deitados no sofá, ele me puxou para mais perto e disse: - Eu tenho orgulho de você, Ana. E quero ser o primeiro a te aplaudir quando você for mais longe do que jamais imaginou. Sorri, encostando meu rosto em seu peito. - E eu quero te ver brilhando também, mesmo quando chegar em casa cansado e me contar das histórias mais absurdas do hospital. - Fechado? - Fechado. Parceiros? - Para sempre. Na manhã seguinte, ele me levou até a ONG novamente. Mas dessa vez, não apenas como meu namorado. Ele entrou comigo, conversou com Amanda, elogiou os projetos, e até prometeu que ajudaria voluntariamente com uma palestra sobre saúde mental para os jovens. Vi o respeito nos olhos de Pedro ao cumprimentá-lo. E, pela primeira vez, vi Christian soltar o peso dos ombros e perceber: o lugar que ele ocupa na minha vida... é único. Insubstituível. Eu floresci. Mas não sozinha. E agora que aprendi a voar... é com ele que quero dividir o céu.
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