Capítulo 12

1172 Palavras
Narrado por Christian Algumas manhãs chegam como sopros de alívio. Outras, como ondas densas que teimam em nos arrastar para o fundo. Aquele sábado, apesar do céu claro e do canto dos pássaros, pesava sobre meus ombros desde o instante em que abri os olhos. O hospital psiquiátrico estava mais agitado que o habitual. Tive que interromper meu café para atender um chamado de emergência. — Quarto 12. Agressividade extrema. — informou a técnica de enfermagem, com o rosto pálido. — Ele atacou outro paciente. Apressei o passo, o coração acelerado. Quarto 12. Sabia exatamente quem era. Rodrigo Mendes. Vinte e oito anos. Diagnóstico de transtorno esquizoafetivo. Já tinha histórico de surtos violentos, mas nas últimas semanas estava mais calmo. Aparentemente, algo havia quebrado esse frágil equilíbrio. Quando entrei, encontrei dois enfermeiros segurando Rodrigo contra a parede. Ele urrava, os olhos em fúria, cuspindo palavras desconexas. — Solta ela! Ela tá com meu filho! Ela roubou o meu filho! Não era real. Mas, para ele, era. Na mente de Rodrigo, a dor era concreta, viva, incontrolável. — Rodrigo, sou o Dr. Christian — falei com firmeza, mas sem elevar a voz. — Está tudo bem. Ninguém pegou seu filho. Você está seguro agora. Ele me olhou, como se não me visse. As mãos tremiam, os músculos do rosto contraídos. — Você não entende! Ele chorava! Ninguém ouviu! O grito dele atravessou o ar como uma lâmina. Por um momento, eu me vi congelado. Chorava. Aquela palavra me atingiu de forma visceral. Porque eu também ouvi o choro da minha falecida esposa e não podia fazer nada, nada para ajudar. Balancei a cabeça, afastando o fantasma que se insinuava. Não era sobre mim. Era sobre Rodrigo. Sobre o sofrimento dele. Me aproximei lentamente, com as palmas das mãos à mostra. — Eu acredito em você, Rodrigo. Sei que está doendo. Mas precisa confiar em mim agora. Vamos dar um passo de cada vez. Respira comigo. Vamos lá... inspira... expira... Ele resistiu, mas aos poucos os ombros foram baixando. A respiração desacelerou. Os enfermeiros o soltaram devagar, e ele se deixou cair de joelhos, soluçando feito uma criança perdida. Ajoelhei ao lado dele, em silêncio, oferecendo minha presença. Não há técnica mais poderosa do que simplesmente... estar ali. Quando o plantão terminou, cheguei em casa exausto. A imagem de Rodrigo, desesperado pelo filho que só existia na mente dele, ainda ecoava em mim. Encontrei Anastácia na varanda, cercada por folhas, pincéis e cadernos. O cabelo preso de forma bagunçada, e um sorriso doce que me acolheu como um cobertor quente. — Dia difícil? — ela perguntou, com o olhar atento. — Bastante — suspirei, sentando ao seu lado. — Tive que conter um surto violento. Um homem viu o filho morto nos braços de outra pessoa. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e depois falou com suavidade: — Eu via o Lucas no berço por semanas. Depois que ele... partiu. Acordava ouvindo o choro. Sentia o cheiro do shampoo dele. Meus braços doíam de vazio. Fechei os olhos por um instante, tomado por uma emoção silenciosa. Ela não falava o nome dele com frequência. Só isso já era um avanço enorme. — Fico tão orgulhoso de você, Anastácia — murmurei. — De tudo o que você enfrentou... e de tudo o que está construindo agora. Ela sorriu, desviando o olhar. — Amanda me chamou para liderar um novo projeto na ONG. Vamos dar oficinas para mulheres que passaram por perdas. Eu vou abrir a primeira roda de conversa com minha história. — Você vai contar tudo? — Sim. Acho que... preciso. Por mim. Por outras mães que pensam que não vão aguentar. Quero que elas saibam que é possível continuar. Toquei o rosto dela com carinho. — Você é uma das mulheres mais fortes que já conheci. — Isso é porque você me segurou quando eu não conseguia nem me levantar. Na semana seguinte, ela mergulhou no projeto. Acordava cedo, fazia reuniões com a equipe da ONG, lia relatos, escrevia cartas. Eu a observava com admiração crescente. Anastácia tinha voltado a ser ela mesma ou talvez uma versão nova, ainda mais inteira. Uma mulher que transformava cicatrizes em propósito. E ainda assim, havia momentos em que o passado surgia com força. Numa dessas noites, ela veio até mim, com um caderno nas mãos. — Escrevi sobre o Lucas. Posso te mostrar? Assenti, e ela sentou ao meu lado, lendo em voz alta. Sua voz tremia, mas os olhos estavam firmes. Falou sobre o nascimento. Sobre as madrugadas em claro. Sobre o primeiro sorriso. E sobre o dia em que a febre veio, e o desespero tomou conta. — Eu me culpei por tanto tempo... — ela sussurrou. — Mas hoje sei que fiz o melhor que podia. Ele foi amado. E eu não fui uma mãe perfeita, mas fui uma mãe inteira enquanto ele esteve aqui. As lágrimas caíam, silenciosas. — Você foi a melhor mãe que ele poderia ter — falei, apertando a mão dela. — E continua sendo. Porque o amor de uma mãe não morre nunca. No hospital, tive mais uma sessão com Rodrigo. Ele estava mais calmo. Pediu para desenhar. Quando me mostrou a folha, vi um menino sorrindo ao lado de um homem. Era o filho dele, segundo Rodrigo, e ele mesmo. — Ele te perdoou? — perguntei, apontando para o desenho. — Ainda não... mas estou tentando me perdoar. O dia da apresentação na ONG chegou. Anastácia vestia uma blusa azul clara e uma saia simples. Mas era impossível não notá-la. Ela brilhava. Sentado na primeira fila, eu a observei com um nó na garganta. E quando ela disse o nome “Lucas” pela primeira vez em voz alta, diante de todos, meu coração disparou. Ela contou a história inteira. A gravidez. O parto. O vínculo. O luto. O colapso. O hospital. E então... falou sobre o amor. Sobre a reconstrução. Sobre mim. — Christian me olhou quando eu só sabia olhar para baixo. Ele me tratou com respeito, com paciência... com humanidade. E, com o tempo, eu aprendi a me olhar também. Todos aplaudiram de pé. Algumas mulheres choravam. Outras se levantaram para abraçá-la. Vi esperança nos olhos de tantas pessoas... esperança nascida da dor. Voltamos para casa de mãos dadas. — Não tenho palavras pra dizer o quanto estou orgulhoso de você — falei, parando na frente da casa. — Eu sabia que você ia brilhar, mas... foi além de tudo que imaginei. Ela sorriu, com os olhos marejados. — Obrigada por não desistir de mim. — Eu nunca desistiria. Ela se aproximou, os braços em volta do meu pescoço. — Eu quero fazer mais, Christian. Quero estudar psicologia. Quero trabalhar com mulheres. Talvez com mães que perderam filhos. Quero fazer disso o meu propósito. — E você vai. Vai ser uma profissional incrível. Eu vou te apoiar em tudo. Ficamos abraçados por longos minutos. O céu já escurecia, mas por dentro, tudo estava aceso. Nos encontramos na dor. Mas escolhemos viver no amor.
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