Narrado por Anastácia
Nunca imaginei que ouvir o som de passinhos pequenos no corredor da casa poderia doer e ao mesmo tempo curar algo dentro de mim. Lucas estava ali, respirando o mesmo ar que eu, caminhando com seus pés delicados e olhos grandes de curiosidade. Mas, mesmo tão perto, eu sentia que ainda havia quilômetros de distância entre nós.
Foram precisos dois dias após o reencontro para que a Justiça liberasse a aproximação gradual. Christian moveu mundos para que esse processo acontecesse da forma mais suave possível. Acompanhamentos com psicólogos, parecer de assistentes sociais, visitas supervisionadas. E, então, finalmente, Lucas pôde passar o fim de semana conosco.
Nosso lar.
- Pode entrar, meu amor - eu disse com um sorriso contido, abrindo a porta com delicadeza.
Lucas segurava a mochila com firmeza, os ombros encolhidos, os olhos girando como se esperasse encontrar um monstro escondido atrás de cada móvel.
- Tem brinquedos aqui? - ele perguntou baixinho, sem me olhar nos olhos.
- Tem sim... muitos. E um quarto só seu. Se quiser, posso te mostrar.
Ele assentiu, mas não pegou minha mão quando estendi. Respeitei. Tinha aprendido com a dor o quanto certos toques podem assustar.
Christian se aproximou e ofereceu um sorriso acolhedor.
- A gente comprou aquele quebra-cabeça de dinossauro que você falou na última consulta com a doutora Priscila. Lembra?
Lucas abriu um meio sorriso e soltou, como quem confessa um segredo:
- Eu gosto mais de foguetes do que de dinossauros... mas gosto dos dois.
Rimos juntos. E aquele momento, por menor que fosse, abriu uma fresta de luz na muralha que havia entre nós.
O primeiro dia foi feito de silêncios, olhares curiosos e pequenas descobertas. Lucas andava pela casa como quem pisa em um terreno desconhecido. Tocava os móveis, perguntava nomes de coisas, olhava com desconfiança para a comida - e se eu dissesse que era uma receita minha, ele evitava. Como se ainda não conseguisse me associar a alguém confiável.
Não o culpo. Fui uma estranha que apareceu no meio do caos. E o pior: uma estranha que chorou ao vê-lo.
A noite chegou. Ele já estava de pijama, mas não queria dormir.
- E se eu acordar num lugar diferente? - ele perguntou, sentando na cama.
- Isso não vai acontecer, meu bem - respondi, sentando ao lado dele. - Você vai acordar aqui. Comigo. Com Christian. Vamos tomar café da manhã juntos, do jeitinho que você quiser.
Ele balançou os pezinhos no ar e desviou o olhar.
- A senhora é tipo... minha nova mãe?
Meu coração se partiu em tantos pedaços que precisei de segundos para responder.
- Posso ser só sua amiga... sua tia... ou alguém que você confia com o tempo. Mas quero que saiba que eu te amo, tá? Muito, muito mesmo. Desde antes de você aprender a falar.
Ele me olhou com uma expressão pensativa.
- A senhora parece triste.
- É só saudade. Saudade do tempo que perdemos. Mas estou feliz agora. Porque você está aqui.
Ele assentiu devagar, deitou-se e virou de costas.
- Boa noite... tia.
Saí do quarto com os olhos molhados e fui direto para os braços de Christian, que me esperava no corredor.
- Ele vai se abrir. Está plantando sementes - ele sussurrou, me abraçando forte. - E criança sente o que é verdadeiro. Você está dando amor, mesmo sem receber totalmente. Isso vai florescer.
- Eu só queria poder devolver o tempo que roubaram de nós. Ensinar as primeiras palavras, dar banho, ver o primeiro passo...
- E agora você vai ter os próximos muitos anos pra viver tudo isso com ele. De outro jeito. Mas ainda assim, profundamente verdadeiro.
Sorri em meio às lágrimas. Porque era exatamente isso.
O domingo amanheceu com cheirinho de pão na chapa e leite quente. Fiz questão de preparar o café, enquanto Christian lia um dos livros preferidos de Lucas na sala.
Aos poucos, o menino foi se soltando. Fez perguntas sobre a casa, sobre meu trabalho na ONG, sobre o jaleco do Christian pendurado no hall de entrada nem parecia uma criança de dois anos.
- Você é médico? - ele perguntou curioso, puxando o jaleco.
- Sou sim. Cuido de pessoas que precisam se sentir melhores por dentro.
- Tipo a tia?
Christian sorriu.
- A tia é a pessoa mais corajosa que eu conheço. Ela passou por momentos difíceis e mesmo assim ficou ainda mais forte. Que nem um super-herói que quase desiste, mas depois vence no final.
Lucas ficou pensativo. Depois riu.
- Então vocês dois são tipo super-heróis?
- Exatamente - respondi, entrando na brincadeira. - E você também. Já é um herói só por ser quem é.
Ele pareceu gostar da ideia. E, mais tarde, quando saiu para brincar no quintal, disse:
- Vou desenhar nós três com capas. Eu, a tia e o tio Christian.
Aquele foi o primeiro momento em que ele nos chamou de "nós". Três letras que valeram mais que qualquer declaração.
À tarde, resolvemos levá-lo a um parque com brinquedos e espaço para correr. Christian e eu nos revezamos nos escorregadores, no gira-gira, nos balanços. Lucas se divertiu, riu alto, pediu pipoca com manteiga.
Enquanto ele corria com outras crianças, Christian se aproximou de mim e me abraçou por trás.
- Você viu o sorriso dele?
- Vi. É o som mais bonito que já ouvi.
- Você está se saindo melhor do que qualquer outra pessoa no mundo faria. É instinto, amor e coragem, tudo misturado.
- Obrigada por me lembrar que eu sou capaz, mesmo quando ainda me sinto quebrada às vezes.
- Você não está mais quebrada, Anastácia. Está reconstruída. E mais linda do que nunca.
Beijei sua mão que repousava na minha cintura. Meu coração já não carregava mais o mesmo peso. Estava leve, cheio de esperança, de planos.
Lucas voltou e nos chamou para brincar de pega-pega. Corremos juntos. Rimos. Pela primeira vez, sem medo de que a felicidade fosse arrancada de nós de novo.
À noite, depois do banho, Lucas me pediu para deitar com ele até pegar no sono.
- Só por um tempinho, tia... - disse, com os olhinhos sonolentos.
Me deitei com cuidado e acariciei seu cabelo.
- Estou aqui. Não vou sair.
Ele suspirou fundo e disse, baixinho:
- Sabe, eu sonhei uma vez com uma mulher que me chamava de "meu amorzinho". Acho que era você a mamãe não me chamava assim.
Meu peito apertou.
- Era eu, sim. Sempre vou te chamar assim.
- A mulher vem me buscar amanhã?
- infelizmente sim.
— eu não quero ir.
— Será por pouco tempo eu prometo.
Ele sorriu.
E antes de dormir, estendeu a mãozinha e segurou a minha.
Ali, naquele toque simples, senti que tudo finalmente fazia sentido.
Não era mais só sobre recuperação. Era sobre recomeço.
E o nosso tinha acabado de começar.