Narrado por Christian
O cheiro de café invadia a casa enquanto a luz da manhã entrava pelas janelas da cozinha. Anastácia estava de avental, o rosto mais iluminado do que nunca. Era curioso como ela parecia mais viva agora, como se a presença de Lucas tivesse devolvido cores que antes estavam apagadas.
— Ele ainda está dormindo? — perguntei, tomando um gole do café quente.
— Está. Dormiu a noite toda, Christian. Pela primeira vez, sem pesadelos — ela sorriu, colocando dois pratos sobre a mesa.
— Isso é um bom sinal. Ele está começando a se sentir seguro. Em casa.
— E eu estou começando a acreditar que isso tudo é real — ela respondeu, se sentando em frente a mim. — Ainda tenho medo de acordar num hospital psiquiátrico e descobrir que tudo foi um delírio da minha cabeça.
Estendi a mão sobre a mesa e segurei a dela com firmeza.
— Isso é real, Anastácia. Cada parte. Lucas está aqui. Você está aqui. E nada vai tirar isso de nós.
Ela assentiu com os olhos marejados, mas o sorriso persistente. Era uma mulher marcada, mas jamais derrotada.
Após o café, e deixar Lucas com a assistente social seguimos para o fórum da cidade. Era o dia da audiência com o juiz para dar andamento ao processo de guarda definitiva de Lucas. Já havíamos conseguido a custódia provisória, mas sabíamos que os Alencar, mesmo presos, ainda tinham recursos jurídicos para tentar recorrer. O advogado que os defendia era caro e influente.
A entrada no tribunal foi marcada por olhares. A mídia havia noticiado a farsa da família Alencar e o envolvimento criminoso do pai e da irmã de Anastácia. Era impossível não atrair atenção.
Anastácia entrou de cabeça erguida. Eu estava ao lado dela, como sempre. Lucas ficou sob os cuidados de uma psicóloga da vara da infância, num espaço acolhedor para crianças enquanto esperávamos a decisão da justiça.
Dentro da sala, o juiz um homem de meia idade, com óculos na ponta do nariz e expressão cansada analisava a papelada enquanto os advogados trocavam palavras em voz baixa.
— Senhor Christian, doutor em psiquiatria, e a senhora Anastácia Almeida, estão cientes de que este processo ainda pode levar semanas para ser finalizado? — ele perguntou, direto.
— Estamos, meritíssimo — respondi.
— A senhora Anastácia… deseja assumir, oficialmente, a maternidade do menor Lucas Alencar, ciente de que terá plenos deveres e direitos sobre a criança?
Ela engoliu em seco, olhou para mim rapidamente e respondeu com a voz firme:
— Sim, desejo. Com toda a alma.
— A senhora se considera emocionalmente e financeiramente estável para isso?
— Sim. Tenho acompanhamento psiquiátrico, faço terapia regularmente, trabalho voluntariamente numa ONG e tenho estrutura e renda suficiente, inclusive de herança, para garantir tudo que meu filho precisar.
O juiz ergueu uma sobrancelha.
— Herança?
— Sim, excelência. Descobri recentemente que sou bilionária. Meu pai e minha irmã esconderam isso de mim por anos. Inclusive, foi parte da motivação deles para me internarem contra minha vontade e forjarem a morte do meu filho. Já existem provas registradas no processo.
O juiz assentiu lentamente, como se absorvesse a complexidade daquela história mais uma vez.
— Está bem. Faremos mais duas entrevistas com psicólogos e assistentes sociais, mas, se tudo continuar positivo, a guarda definitiva será apenas uma formalidade.
Saímos da sala com um misto de alívio e ansiedade. O processo avançava, mas o fantasma da burocracia ainda nos seguia.
De volta para casa, Lucas estava mais falante. Queria mostrar um desenho que tinha feito durante o tempo com a psicóloga. Era um retrato da casa, com três bonecos: um alto de jaleco, uma mulher de vestido amarelo e um menino com capa vermelha.
— Sou eu de super-herói. Salvei vocês dois do castelo do m*l — explicou, empolgado.
Anastácia riu, emocionada.
— E como você nos salvou?
— Com amor! O amor é o poder mais forte. Foi isso que a tia me ensinou, né?
Ela se ajoelhou e o abraçou, tentando conter o choro. Mas Lucas ainda a chamava de “tia”, e eu sabia que, no fundo, ela sonhava com o dia em que ele diria “mamãe”.
Naquela noite, preparei um jantar especial. Risoto de queijo brie com filé ao molho de ervas. Lucas comeu com entusiasmo, mesmo fazendo careta pro queijo.
— Tá com gosto de meia! — ele disse, fazendo-nos rir.
Depois do jantar, enquanto Anastácia lavava a louça e ele desenhava na mesa da sala, me sentei ao lado dele.
— Você gosta da sua nova casa, campeão?
— Gosto sim. Aqui é legal. Tem cheiro bom. E a comida da… — ele parou, olhou em direção à cozinha e sussurrou — …da minha titia … é gostosa.
— A sua titia vai adorar ouvir isso.
Ele balançou a cabeça.
Dois dias depois, estávamos no parque da cidade. Um evento da ONG onde Anastácia trabalhava havia reunido dezenas de crianças, e Lucas corria entre elas, vestindo uma camiseta amarela com a logo da instituição.
Em determinado momento, caiu e ralou o joelho. Quando o sangue escorreu, o instinto falou mais alto.
— Mamãe! — ele gritou, com os olhos arregalados.
Anastácia correu até ele. Ajoelhou-se, limpou o machucado com o lenço úmido que carregava na bolsa e o abraçou.
— Mamãe está aqui, meu amor. A mamãe está aqui.
Eu me aproximei com o coração disparado. Vi quando ela piscou forte, tentando conter as lágrimas, e Lucas a segurava como se tivesse reencontrado o lar.
Naquele instante, algo se curou dentro dela.
O menino que havia sido roubado, escondido, negado, agora estava ali, nos braços dela, chamando-a de mãe.
E ninguém jamais poderia tirar isso de nós.
Naquela noite, depois que Lucas dormiu, nos sentamos no sofá, abraçados. Anastácia repousava a cabeça no meu peito, a mão entrelaçada na minha.
— Você ouviu o que ele me chamou, né? — ela sussurrou.
— Ouvi. E foi a coisa mais bonita que já ouvi na vida.
Ela virou o rosto, olhou nos meus olhos.
— Foi real. Não foi por impulso. Ele sentiu.
— Sim. Porque agora ele sabe. Ele sente. Você é a mãe dele, Anastácia. De alma, de sangue, de amor.
Ela sorriu.
— Eu quero registrar tudo isso. Cada momento. Até os dias difíceis. Porque essa história precisa ser contada. Para outras mães que perderam, que foram desacreditadas, que foram silenciadas.
— Você quer escrever?
— Quero. Talvez um livro. Um diário. Não sei ainda. Mas quero deixar registrado que o amor foi mais forte.
A beijei com ternura, sentindo o perfume dela misturado com o cheiro de amaciante da roupa. O lar tinha, enfim, tomado forma.
E naquela noite, antes de dormirmos, Lucas apareceu na porta do nosso quarto.
— Mamãe, posso dormir com vocês hoje?
Anastácia se levantou, foi até ele, e o levou para a cama.
Nos deitamos os três. Ele no meio, agarrado ao ursinho que era dele quando ele erra pequenininho.
E, antes de adormecer, disse com a voz arrastada:
— Eu gosto daqui. Quero ficar com vocês pra sempre.
Anastácia o abraçou.
— E é exatamente aqui que você vai ficar. Pra sempre.
Semanas depois recebemos o veredito tão esperado, a guarda de Lucas Alencar é difinitiva de Anastácia Almeida, a mãe biológica. Processo encerado.