Narrado por Christian
Nunca fui paranoico. A medicina ensina que os fatos importam mais que as suposições, e que devemos sempre buscar causas evidentes antes de mergulhar em hipóteses conspiratórias. Mas depois do que vi no aniversário de Anastácia, algo dentro de mim se acendeu.
Não era só frieza. Era mais profundo. Quase... raiva. Como se o fato de ela estar viva e bem os ofendesse.
A forma como a irmã dela olhou como se tivesse perdido algo. A forma como o pai dela falou como se estivesse frustrado com a recuperação. Aquilo não era apenas falta de empatia. Era... ressentimento. E eu conheço bem aquele sentimento. Já tratei pacientes assim, já vi famílias que desejavam inconsciência, internações permanentes, laudos convenientes.
Naquela noite, enquanto Anastácia dormia deitada no meu peito, serena depois do amor que fizemos, minha mente rodava.
E se o colapso dela tivesse sido forçado? E se... ela tivesse sido empurrada ao limite por quem deveria protegê-la?
Nos dias seguintes, observei Anastácia com atenção dobrada. Ela estava bem, isso era claro. A leveza com que falava sobre o futuro, os sorrisos espontâneos, a alegria em querer trabalhar... tudo indicava estabilidade emocional. Mas ainda havia um medo profundo quando o nome do pai era mencionado. Um reflexo enraizado.
— Você já pensou em rever sua antiga terapeuta? — perguntei com cautela, numa tarde em que tomávamos café juntos.
Ela suspirou.
— Não. Depois que fui para a clínica, nunca mais voltei. Na verdade, nem sei se queria voltar... Na época, minha família é quem controlava tudo. Eu era medicada sem saber o que tomava. Só lembro de dormir muito e sentir como se estivesse sempre... dopada.
Minhas mãos se fecharam devagar. Aquilo era mais sério do que eu imaginava.
— Você se lembra do que aconteceu nos dias antes de ser internada?
Ela hesitou.
— Só flashes. Eu chorava muito... passava dias trancada no quarto. A Larissa dizia que eu estava sendo fraca. Meu pai me chamava de ingrata. Eu não queria comer. Um dia acordei numa maca, amarrada, indo para a internação.
Meu estômago revirou.
— Você foi sedada?
— Sim. Eles chamaram uma ambulância particular. Disseram que era para o meu bem.
E então eu soube: eles a internaram à força.
No dia seguinte, usei minhas horas livres no hospital para procurar registros. Por sorte ou destino conhecia um enfermeiro que trabalhou por um tempo na clínica onde Anastácia foi internada logo após o falecimento do filho.
— É uma coincidência e tanto você perguntar por ela — ele disse, depois de escutar o nome completo. — Eu lembro da Anastácia. Bonita, mas parecia... apagada. Um zumbi.
— Você viu o laudo da internação? Quem assinou?
— Foi o Dr. André Baroni, psiquiatra particular da família dela. Mas na época, começaram a circular rumores esquisitos. Tipo, que ela não era louca coisa nenhuma. Tinha surtado de tristeza, sim, mas... estavam forçando remédios demais.
— Você acha que a família exagerou no tratamento?
— Eu não só acho, Christian. Eu vi. A garota era medicada com doses que eu jamais daria. E sabe o mais estranho? Ela era paciente voluntária no papel. Mas nunca assinou nada. Tudo foi autorizado pelo pai. Ele era o responsável legal... com um documento de interdição provisória.
Meu sangue gelou.
— Interdição? Ela estava incapacitada judicialmente?
— Provisoriamente, sim. Mas depois sumiram com os papéis. E logo ela foi transferida pra outro lugar. Muita coisa m*l explicada. Quando os olhos da mídia estavam em cima — por causa do luto, da comoção pela morte do bebê —, a família tratava ela como mártir. Mas depois... sumiram com ela.
Voltei para casa com o peito em chamas.
Anastácia não tinha enlouquecido sozinha. Ela tinha sido empurrada. Manipulada. Mediada até perder a consciência de quem era.
E o motivo... parecia ainda mais podre.
Naquela noite, a observei em silêncio enquanto penteava os cabelos em frente ao espelho. Estava tão linda, com aquela camisola branca de renda, os pés descalços, o olhar tranquilo. Parecia uma mulher que finalmente havia se encontrado.
Mas ela ainda não sabia da verdade.
Eu me ajoelhei atrás dela, passando os braços por sua cintura.
— Amor, você já pensou em entrar com um pedido de acesso aos seus próprios documentos médicos? Laudos, receitas, autorizações da clínica onde você ficou antes de vim pra essa que eu trabalho...?
Ela parou.
— Nunca. Na verdade, sempre tive medo de mexer nisso. Como se... o passado fosse me puxar de volta. Mas agora... com você, eu sinto coragem.
— Podemos ver isso juntos. Você tem o direito de saber o que fizeram com você, Ana. Não pra reviver a dor. Mas pra entender. Pra não deixar que te manipulem de novo.
Ela virou-se para mim, os olhos cheios d’água.
— Você está investigando, não é? — sussurrou. — Já descobriu alguma coisa?
Assenti, apertando sua mão.
— A internação não foi ética. Você foi sedada sem consentimento. Seu pai obteve uma interdição provisória, te colocou em clínicas com laudos forjados e doses altíssimas de medicamentos. Você foi silenciada, Ana.
Ela caiu de joelhos no chão.
— Eu sabia... — sussurrou, chorando. — Eu sentia que tinha algo errado. Mas pensei que fosse a minha mente me enganando...
— Não era sua mente. Era o abuso deles.
Ficamos abraçados no chão por longos minutos. E ali, mais do que nunca, eu soube que tinha uma missão maior do que amar aquela mulher. Eu precisava protegê-la da própria família.
Na semana seguinte, Anastácia reuniu coragem para visitar um advogado especializado em reverter interdições judiciais. Ele ficou chocado ao ver os documentos antigos e prometeu investigar o caminho legal para anular qualquer restrição que ainda restasse.
Enquanto isso, eu continuava meu trabalho no hospital psiquiátrico. Uma tarde, fui chamado com urgência para atender um paciente agressivo.
Otto, 27 anos. Diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Tinha surtado ao ser avisado que não poderia sair no fim de semana. Ao entrar no quarto, encontrei um dos enfermeiros sangrando no chão.
— Fica parado! — Otto gritou, com uma caneta na mão como se fosse uma faca.
Respirei fundo e dei um passo à frente.
— Otto, sou o Dr. Christian. Não estou aqui pra te machucar. Só quero conversar, tudo bem?
Ele me olhou, os olhos arregalados, suor descendo pelas têmporas.
— Eles estão mentindo. Todos vocês! Querem me apagar, igual apagaram minha irmã!
— Ninguém vai te apagar, Otto. Eu acredito em você.
A caneta caiu da mão dele.
— Você... acredita?
— Acredito. Mas você precisa confiar em mim agora. Me deixa cuidar de você.
Ele chorou, ajoelhando-se no chão.
Depois que a equipe de apoio chegou e cuidou do enfermeiro ferido, fui até meu consultório. As mãos ainda tremiam, mas o coração estava firme. Era isso que eu amava na psiquiatria: ver além dos surtos, além do medo, além da dor.
E era isso que eu fazia por Anastácia. E faria por qualquer outro.
Mas agora... eu precisava descobrir até onde a família dela havia ido. Porque algo me dizia que o que fizeram com ela foi mais que abuso psicológico.
Foi um crime.
E eu não descansaria até desenterrar toda a verdade.