Narrado por Christian
Há dias em que o tempo parece correr como um vendaval, arrancando do chão tudo o que acreditávamos estar firmemente plantado. Desde que Anastácia encontrou a carta, a verdade deixou de ser apenas uma hipótese inquietante e se tornou um grito - insistente, ensurdecedor, inegável.
Ela não era louca. Nunca foi.
E talvez... o filho dela também não estivesse morto.
Essa possibilidade me tirava o sono. Como médico, meu instinto sempre foi proteger, curar, aliviar. Mas agora, eu não sabia como fazer nada disso. Estávamos diante de um abismo onde a verdade podia curar ou destruir completamente a mulher por quem me apaixonei.
Hoje era sábado, e Anastácia havia ido para a ONG bem cedo. Desde que começamos a investigar a história por trás da morte de Lucas, ela alternava entre momentos de esperança dolorosa e um silêncio inquieto. Eu a entendia. Mas também sentia que o tempo estava se esgotando.
Às dez da manhã, cheguei ao pequeno escritório do advogado Jonas Medeiros. Ele já me esperava com uma expressão sombria.
- Temos algo - ele disse sem rodeios. - E é maior do que esperávamos.
Fechei a porta atrás de mim, o estômago se contraindo.
- O que você descobriu?
- Lembra da certidão de óbito que você me entregou? Cruzamos o número de registro com o sistema hospitalar, e há divergência nos arquivos. O número pertence a outro recém-nascido, falecido um mês antes de Lucas.
- Eles falsificaram o documento?
- Não só isso. Um dos nomes envolvidos no processo de internação de Anastácia a psiquiatra responsável está sob investigação por irregularidades em outros casos semelhantes.
- Casos semelhantes?
- Mulheres com histórico de depressão pós-parto sendo internadas com laudos falsificados e os filhos dados como mortos... mas sem registros de sepultamento, sem autorização judicial, sem laudos do IML.
Engoli em seco. A sala girou por um instante.
- Está me dizendo que Lucas pode ter sido... retirado dela?
- É possível. E há mais. Recebi uma mensagem anônima ontem à noite. Um homem que diz ter trabalhado como auxiliar no hospital psiquiátrico onde Anastácia foi internada. Ele pediu para encontrá-lo pessoalmente. Diz que tem algo que pode mudar tudo.
- Quando?
- Hoje. Às quatro da tarde, num estacionamento abandonado perto da antiga linha de trem.
- Você vai?
- Não. Ele exigiu que fosse você. Disse que confia em médicos, não em advogados.
As horas entre a reunião e o encontro se arrastaram. Voltei para casa, mas não consegui encarar Anastácia com um sorriso falso. Disse apenas que precisava resolver algo no hospital e sairia por algumas horas. Ela assentiu, mas vi em seus olhos que sabia que era mais do que isso.
Dirigi até o local marcado com o coração aos pulos. O estacionamento estava abandonado, os muros cobertos de grafites desbotados, o chão rachado e sujo. Estacionei o carro, saí e olhei em volta.
De um canto sombrio, um homem apareceu. Estava encapuzado, com o rosto parcialmente coberto por uma barba grisalha e malcuidada. Seus olhos carregavam anos de medo.
- Doutor Christian?
- Sim. Você que trabalhou no hospital psiquiátrico São Lourenço?
- De 2013 a 2020. Vi muita coisa errada lá dentro. Mas o caso da menina... da Anastácia... foi o pior de todos.
Meu sangue gelou.
- O que fizeram com ela?
- Ela chegou no meio da madrugada. Sedada. Chorava o nome do bebê, gritava que ele estava vivo. Mas os médicos a ignoraram. Recebeu medicação para contenção. Não deixaram que ninguém entrasse em contato com ela. E...
- E o bebê?
O homem hesitou.
- Eu vi quando ele foi levado. Não pela ambulância. Mas por um carro preto, placas cobertas. Dois homens - um deles era o cunhado dela, acho. Disseram que o bebê precisava de exames fora da cidade, mas depois disso, nunca mais voltou.
Senti o coração martelar dentro do peito.
- Você está dizendo que o bebê não morreu?
- Eu não posso afirmar. Mas... ele estava vivo quando saiu. E a certidão de óbito apareceu dias depois, com a data errada.
- Por que está me contando isso agora?
- Porque não consigo mais dormir. Tenho pesadelos. E porque vi você com ela - naquela reportagem sobre a ONG. Sei que ela está bem agora. Forte. Se alguém pode enfrentar essa verdade... é ela.
Ele me entregou um pen drive.
- Aqui tem cópias de registros, imagens das câmeras internas, e um áudio de uma conversa entre o diretor do hospital e o pai dela.
- O pai dela estava envolvido?
- Diretamente.
Meu corpo tremeu.
Agradeci ao homem. Ele desapareceu tão rápido quanto apareceu.
Voltei para o carro com as mãos suando.
Horas depois, sentado no meu consultório particular, conectei o pen drive no computador.
O vídeo mostrava claramente: um bebê nos braços de uma enfermeira, entregue a um homem de terno escuro. O mesmo homem que nos encontrou, o pai dela.
O áudio era ainda pior:
"Se ela continuar insistindo que o menino está vivo, intensifiquem a medicação. Eu quero minha filha fora do mundo real. É melhor que todos pensem que ela enlouqueceu."
Minha garganta fechou.
Era isso. Eles armaram tudo.
Anastácia foi silenciada por conveniência, internada por controle, seu filho arrancado de seus braços por interesses que eu ainda não compreendia totalmente.
Mas eu entenderia.
Eu encontraria Lucas.
Voltei para casa já depois das oito da noite. Encontrei Anastácia sentada no sofá, lendo um dos cadernos da ONG. Seu rosto se iluminou quando me viu, mas ela logo percebeu que havia algo em mim algo diferente.
- Aconteceu alguma coisa?
Me ajoelhei diante dela.
- Preciso te contar tudo.
E então, contei. Desde a mensagem do homem, o encontro, o pen drive, o vídeo, o áudio... tudo.
Ela não chorou. Não gritou. Não tremeu. Apenas ficou em silêncio, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
- Meu pai...
- Ele fez isso com você. Mas agora, temos provas. E vamos usá-las.
- Você acha que ele está... - sua voz falhou - vivo?
- Eu acredito que sim.
Ela me abraçou com força.
- Vamos encontrá-lo, Christian. E vou fazer com que todos saibam quem eu realmente sou.
- Eu estou com você. Até o fim.