Narrado por Christian
Acordei com Anastácia enrolada em meus braços. Era um conforto silencioso, um lembrete de tudo o que construímos desde o dia em que a conheci - quebrada, apagada, chamada de louca por aqueles que deviam amá-la. Agora, ela renascia a cada amanhecer, e eu sentia o privilégio de testemunhar essa mulher florescendo.
Mas aquele dia nasceu com um peso estranho no ar. Uma inquietação que começou no peito e se espalhou até a ponta dos dedos. Era como se algo estivesse prestes a acontecer. Algo r**m.
- Precisa ir ao hospital hoje? - Anastácia perguntou, ainda de olhos fechados.
- Só algumas horas. Depois passo no escritório de Jonas. Ele disse que encontrou mais documentos da internação.
Ela assentiu e virou o rosto, beijando meu ombro.
- Se cuida, Christian.
Essas palavras ficariam ecoando em mim nas próximas horas.
Às dez da manhã, saí do hospital psiquiátrico após atender um novo paciente. Um homem agressivo, chamado Cláudio, que estava em surto psicótico. Ele tentara atacar uma enfermeira, e precisei intervir fisicamente, contê-lo com a ajuda da equipe de segurança.
- Ele quase me mordeu - disse Carlos, o enfermeiro, limpando um arranhão no antebraço.
- Vamos revisar a medicação. E reforçar a contenção até que ele esteja estabilizado - respondi, sentindo uma pontada de preocupação.
Estava ainda com a adrenalina alta quando entrei no carro e segui para o escritório de Jonas.
A rua estava vazia. Estacionei diante do prédio comercial onde o escritório funcionava e desci do carro. Não percebi o homem encapuzado do outro lado da rua. Só ouvi o disparo.
PAH.
A dor veio como um raio queimando meu ombro esquerdo. Cambaleei, caí de joelhos, a visão tremendo. Outro tiro silenciador rasgou o ar, acertando o chão ao meu lado.
Ouvi pneus cantando e, depois, o silêncio.
Sangue escorria pelo meu braço. Eu tremia. Tentei me levantar, tonto, e segurei a lateral do carro.
Um homem que saía da padaria correu até mim.
- Doutor! Meu Deus, alguém chamou uma ambulância! Ele tá sangrando muito!
Meu ouvido zumbia. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o céu azul se tornando um borrão vermelho.
Acordei no hospital, algumas horas depois, com o ombro enfaixado e o braço imobilizado.
- Você teve sorte - disse Mariana, a médica plantonista. - O tiro pegou de raspão, mas causou bastante sangramento. Felizmente, não atingiu nenhum órgão vital.
Tentei sentar, grogue.
- Anastácia?
- Já está a caminho. Jonas também. E... temos segurança na porta.
Engoli em seco.
Era isso. A verdade estava doendo em alguém. E esse alguém queria me silenciar.
Anastácia entrou correndo no quarto vinte minutos depois. Estava pálida, os olhos cheios de lágrimas.
- Christian!
Ela me abraçou com cuidado, os lábios trêmulos.
- Você... poderia ter morrido. Meu Deus, tudo isso é por minha causa...
- Ei, olha pra mim. - Toquei o rosto dela com a mão boa. - Isso não é culpa sua. É culpa dos monstros que fizeram isso com você. E que agora querem apagar a verdade.
Ela assentiu, os olhos marejados.
- Eu fiquei com tanto medo...
- Eu também. Mas estou vivo. E mais determinado do que nunca.
Jonas chegou logo depois, com expressão tensa.
- Você precisa sair da cidade por uns dias.
- Não vou deixar Anastácia aqui sozinha.
- Então vão os dois. Isso não foi um aviso, Christian. Foi uma tentativa real de execução.
Anastácia apertou minha mão.
- Para onde vamos?
Jonas nos olhou por um momento, depois respondeu:
- Tenho uma casa no interior, perto de São Lourenço. Isolada. Discreta. Vocês podem ficar lá enquanto eu avanço com a investigação.
Naquela mesma noite, com autorização médica, deixamos o hospital em silêncio, sob proteção de um segurança particular contratado por Jonas. Anastácia estava mais calada do que o normal durante a viagem, os olhos fixos na estrada escura.
- Está tudo bem? - perguntei.
- Eu pensei que fosse perder você. E não suportaria isso. Depois de tudo... depois de finalmente me sentir viva, amada, humana...
- Eu não vou a lugar nenhum, Ana. Nem agora. Nem nunca.
Ela se virou para mim, os olhos brilhando.
- Eles estão desesperados, Christian. E isso significa que estamos perto da verdade.
- Significa que estamos no caminho certo.
Ela se aproximou e pousou a cabeça no meu ombro bom, abraçando minha cintura.
- Eu te amo.
Meu coração saltou no peito. Ela nunca tinha dito isso em voz alta.
- Eu te amo, Anastácia. E vou lutar com você até o fim.
A casa de Jonas era uma construção rústica, com janelas amplas e cercada por mata. Ali, longe do barulho e da ameaça, era como se pudéssemos respirar.
Passamos os dois primeiros dias em silêncio, aproveitando a tranquilidade forçada. Eu lia os documentos que Jonas nos enviava. Anastácia recomeçou a desenhar, algo que fazia desde a infância e havia abandonado no hospital psiquiátrico. Seus traços revelavam dor, mas também força. Ela estava se transformando diante dos meus olhos.
No terceiro dia, recebi um telefonema de Jonas.
- Descobrimos algo sobre o cunhado dela. A adoção ilegal de crianças. Ele usava contatos no hospital para conseguir recém-nascidos e vendê-los com documentos falsos para casais ricos fora do país.
- E Lucas?
- Um nome bateu: "Luca Mendonça". Nascido na mesma data de Lucas, registrado em um cartório do sul do país. Estou indo atrás disso agora.
Fiquei em silêncio por um instante. Era como se a esperança tivesse ganhado pernas.
- Quando souber mais, me avise.
- E você... fique vivo.
Naquela noite, sentamos na varanda, observando o céu. Anastácia segurava uma xícara de chá, e o vento suave mexia seus cabelos.
- Sabe, quando me internaram, eu ouvia as vozes me chamando de louca todos os dias. No começo, tentei gritar. Depois, aprendi a calar. E por último... comecei a acreditar. Achei que talvez... eu merecesse estar ali.
- Você nunca mereceu. Eles roubaram sua liberdade, sua maternidade, sua identidade.
- E agora eles querem te tirar de mim também.
Segurei a mão dela.
- Eles falharam. Estou aqui. E com você, sou mais forte do que qualquer bala.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, mas cheio de amor.
- Quero cuidar de outras mulheres que passaram pelo que eu passei. Quero viver.
- E vai. Porque você é a mulher mais corajosa que já conheci.
Ela se aproximou e me beijou com calma, com ternura. Não era o beijo de quem apenas deseja. Era o beijo de quem sobreviveu. De quem quer recomeçar.
Mais tarde, quando fomos para o quarto, ela se deitou ao meu lado e tocou meu peito, com suavidade.
- Promete que vai lutar até o fim?
- Já estou lutando.
- Promete que vai me ajudar a encontrar o nosso filho?
- Juro pela minha vida.
Ela encostou a testa na minha.
- Então me beija de novo. Mas agora... como se fosse a primeira vez.
E naquele instante, enquanto a noite nos envolvia com seu manto de silêncio, nossos corpos se encontraram como dois rios que há muito procuravam o caminho de volta. Ela tirou a blusa com calma, revelando a pele marcada, mas linda. Seus olhos não tremiam mais.
- Me ama, Christian. Me faz sentir viva.
- Sempre.
Fiz amor com ela devagar, com desejo contido e respeito. Foi mais do que sexo. Foi redenção.
Quando adormeceu em meus braços, soube que não importava o que nos esperava. Eu já tinha vencido a parte mais difícil: reconquistar a alma de uma mulher que o mundo tentou destruir.
Agora... era hora de buscar o que ainda faltava: Lucas.