Narrado por Anastácia
O cheiro do café quente se misturava ao vento frio que entrava pela janela entreaberta da casa no campo. Eu observava as árvores balançando suavemente, tentando encontrar algum sentido em meio à tempestade de emoções que me habitava. Fazia três dias desde o atentado contra Christian, e só agora meu coração começava a bater em um ritmo mais calmo.
Ele estava vivo. Ainda aqui. Ainda meu.
Eu o amava com tudo o que restou de mim depois que me arrancaram Lucas, depois que me fizeram acreditar que eu estava louca, depois que me jogaram em um lugar onde ninguém escutava, ninguém via, ninguém sentia.
Mas Christian viu. Sentiu. Acreditou. Ele me devolveu à vida. E agora quase tiraram a dele por isso.
Ouvi passos e virei o rosto. Era ele. Christian, com uma xícara em uma das mãos e o ombro enfaixado na tipoia. Estava pálido, mas firme. Seus olhos continuavam acesos, determinados.
— Trouxe café — disse ele, com aquele sorriso torto que me fazia derreter por dentro.
— Você devia estar deitado.
— Eu estou bem. O médico disse que posso caminhar um pouco. E prefiro tomar café com você do que sozinho na cama.
Ele sentou ao meu lado na varanda. Ficamos em silêncio por um tempo, observando o céu de inverno.
— Tem pensado no que aconteceu? — perguntei.
— Todo dia. Eles me queriam morto, An. Isso significa que estamos perto da verdade. Ninguém tenta matar alguém por acaso.
Assenti. Um nó se formou na garganta.
— Eu tenho medo. Medo de que, quanto mais nos aproximarmos, mais violento isso fique.
— Pode ficar tranquila. Ninguém vai te tocar. E eu não vou parar.
Respirei fundo.
— Christian… você acha mesmo que Lucas pode estar vivo?
Ele pousou a xícara na mesinha de madeira e segurou minha mão.
— Jonas encontrou um registro. Um bebê chamado Luca Mendonça, nascido exatamente na mesma data de Lucas, registrado no sul do país, com documentos muito suspeitos. Estamos investigando se há ligação com o seu cunhado e os envolvidos naquela rede de adoções ilegais.
Meus olhos marejaram.
— Meu Deus…
— Sei que é doloroso ter esperanças, An. Mas e se for ele? E se Lucas estiver vivo?
As lágrimas caíram sem que eu pudesse conter.
— Eu nunca parei de sentir ele em algum lugar. É estranho, mas… sempre soube que ele não morreu.
— A sua intuição foi ignorada, desacreditada, apagada à força. Mas agora ela vai guiar a gente. Não vamos parar até encontrar a verdade.
— Eu amo você, Christian.
— E eu amo você. Mais do que imaginei amar alguém na vida.
Ele me puxou para perto e me abraçou com cuidado. Seus braços eram o meu porto seguro. O lugar onde, pela primeira vez em anos, eu me sentia protegida. VIVA.
Naquela tarde, enquanto Christian descansava, recebi uma ligação de Jonas.
— Anastácia?
— Sim.
— Preciso que você escute com calma. Fui até o cartório onde o registro de Luca Mendonça foi feito. Há várias irregularidades nos documentos. A certidão foi preenchida por um homem chamado Arnaldo… o mesmo nome de um dos médicos que trabalhava no hospital onde você foi internada.
Senti meu sangue gelar.
— O que isso significa?
— Que alguém de dentro do hospital pode ter falsificado os documentos para registrar Lucas com outra identidade. Talvez como parte de um esquema de adoção ilegal. Estou cruzando os nomes dos envolvidos com pessoas ligadas ao seu cunhado e à sua irmã.
— A minha irmã… — murmurei. — Ela me odiava por eu ter sido mãe antes dela. Sempre dizia que eu não tinha estrutura emocional para criar uma criança. E ela adorava o marido… fazia tudo o que ele queria…
— Acha que ela poderia ter participado?
— Não sei. Mas… eu me lembro de um dia. Estava dopada, grogue… e vi ela no quarto do hospital, chorando. Ela segurava algo… uma pulseira. Era a pulseira de Lucas. Eu lembro disso.
— Isso é importante, Anastácia. Você pode escrever tudo que lembrar? Até os mínimos detalhes?
— Sim, claro. Faço isso agora.
— Mais uma coisa. Recebi uma pista de que uma mulher chamada Cláudia, ex-enfermeira do hospital, pode saber o que aconteceu com alguns dos bebês. Ela desapareceu há três anos, mas talvez possamos localizá-la. Estou trabalhando nisso.
— Obrigada, Jonas. De verdade. Você está nos dando esperança.
— Cuidem-se. E fiquem atentos. Ainda há gente perigosa tentando encobrir isso tudo.
Escrevi cada detalhe da lembrança que tive. O cheiro do quarto, a cor do lençol, o jeito como minha irmã tremia. Anexei ao e-mail e enviei para Jonas. Quando terminei, fechei os olhos e respirei fundo.
Christian entrou no cômodo com expressão atenta.
— Está tudo bem?
— Jonas encontrou mais uma ligação. E eu… eu lembrei de algo importante. Da minha irmã com a pulseira do Lucas no hospital.
— Isso pode ser a peça que faltava.
Ele se aproximou e me abraçou pelas costas.
— Você está sendo mais corajosa do que qualquer um que conheço.
— Não tenho escolha. Eu quero o meu filho de volta.
— E nós vamos encontrá-lo.
À noite, preparei o jantar. Algo simples, mas feito com carinho. Christian insistiu para que eu descansasse, mas cozinhar me acalmava. Quando colocamos os pratos na mesa, ele pegou uma caixinha pequena do bolso.
— Isso é pra você.
— O quê…?
— Um anel. Nada de casamento ainda, calma. Mas é o nosso símbolo. De tudo o que vivemos, do amor que construímos em meio ao caos.
Olhei para o anel: delicado, com uma pedrinha azul.
— Azul, como os olhos de Lucas — murmurei.
— Exatamente.
— É lindo.
— É seu. Como o meu coração.
Sorri e o abracei. Beijei seu rosto, sua boca, e ali soube que, mesmo entre feridas e cicatrizes, eu finalmente tinha encontrado o que tantos chamam de lar.
Naquela madrugada, acordei com um sentimento estranho. Fui até a varanda. O céu estava estrelado, e o silêncio ao redor era profundo. Fechei os olhos e imaginei o rosto de Lucas. Não o rosto do bebê que me arrancaram, mas o de uma criança de quase três anos. Será que ele já corria? Falava? Será que chamava outra mulher de mãe?
A porta rangeu atrás de mim.
— Não conseguiu dormir? — Christian perguntou.
— Estou com o coração inquieto.
— Acha que é pressentimento?
Assenti.
— Sim. Algo está prestes a acontecer.
Ele se aproximou e entrelaçou os dedos nos meus.
— Vamos estar prontos. Seja lá o que for.
Na manhã seguinte, recebi um novo e-mail de Jonas. O assunto: Cláudia encontrada.
“A ex-enfermeira Cláudia foi localizada em Minas Gerais, vivendo com outro nome. Ela aceitou conversar, mas exige que seja com você, Anastácia. Disse que quer te contar algo que guardou por muito tempo, mas que só dirá olhando nos seus olhos.”
O coração quase saiu pela boca. Corri até Christian e mostrei o e-mail.
Ele leu, sério.
— Isso pode ser tudo. A verdade. A confirmação de que Lucas está vivo.
— Eu estou tremendo.
— Vamos até ela.
— Jonas sugeriu um lugar seguro. Ele vai nos acompanhar.
Christian assentiu, os olhos firmes.
— Então vamos. Hoje mesmo. Eu sinto que estamos perto.
— Eu também.
E enquanto nos preparávamos para partir, percebi algo que me arrepiou inteira: pela primeira vez em anos, eu não estava correndo da dor. Eu estava correndo para a verdade.