Capítulo 18

1047 Palavras
Narrado por Anastácia Por mais que eu tivesse sonhado com esse momento o momento em que a verdade viria à tona nada me preparou para a dor que foi encará-la de frente. Estávamos sentados no pequeno apartamento de Cláudia, a enfermeira que havia trabalhado no hospital psiquiátrico onde fiquei internada. Christian estava ao meu lado, firme como sempre. Seus olhos não deixavam os meus, como se ele soubesse que eu poderia desabar a qualquer segundo. E eu podia mesmo. Cláudia serviu um chá, mas nenhuma de nós duas sequer tocou na xícara. — Eu não aguento mais... por favor, diga logo. Diga tudo — pedi, sentindo minhas mãos suarem frio. Cláudia respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ela estava visivelmente nervosa. — Seu filho… Lucas… ele está vivo. Ele nunca morreu. Foi entregue a outra família assim que nasceu. Meu mundo parou. As paredes ao meu redor pareceram se distorcer, e o ar ficou rarefeito. Senti Christian apertar minha mão, e foi só isso que me impediu de perder o controle naquele momento. — Não… — sussurrei. — Não… não pode ser. Eu vi o caixão. Eu fui no enterro. Eu… — Eles forjaram tudo. O caixão estava vazio — disse Cláudia. — Eu sei disso porque fui eu quem ajudou a preparar a “cerimônia”. Estava ameaçada, tinha medo de perder tudo. Mas agora eu não consigo mais carregar esse peso. E preciso te contar tudo. Meu coração martelava tão forte no peito que parecia que ia sair. Meus olhos ardiam, e a garganta se fechava com uma força invisível, sufocante. — Quem fez isso comigo? — perguntei, a voz embargada. — Seu pai… e sua irmã. O nome deles me atravessou como uma lâmina. — Eles alegaram que você estava emocionalmente instável após o parto, e que tinha surtado. Disseram que você queria fugir com o bebê, e que oferecia riscos à criança. Com o histórico que inventaram, conseguiram uma ordem judicial para te internar. Enquanto isso, entregaram Lucas a outra família. A família Alencar. Gente muito influente, com conexões poderosas e… interesses em uma adoção discreta. A família Alencar. Eu já tinha ouvido esse nome. Estavam sempre nas colunas sociais, em comerciais… Um casal sorridente que dizia ter “um filho adotado por amor”. Nunca imaginei… Senti náuseas. A traição pesava no estômago. — Por quê? — perguntei com a voz trêmula. — Por que meu pai faria isso? Por que a minha irmã deixaria acontecer? Cláudia me olhou nos olhos, e ali vi um pesar genuíno. — Por dinheiro, Anastácia. Por poder. — Mas nós nunca fomos ricos! Sempre fomos classe média… meu pai tinha a empresa, sim, mas… — Era o que te diziam. Mas não era verdade. Ela parou por um instante. Christian se aproximou mais de mim, sentindo a tensão em meu corpo. — A fortuna no seu nome, Anastácia… não era pequena. Na verdade, você é bilionária. Eu ri. Não de verdade. Um riso sem som, um colapso. — O quê? — Sua mãe era herdeira de um império: terras, imóveis, ações em grandes empresas. Quando ela morreu, tudo foi deixado pra você, com um único desejo: que seu pai não tivesse acesso aos bens enquanto você fosse viva e capaz. Ele precisava da sua assinatura para movimentar qualquer coisa. Senti o mundo girar. — Mas ele... ele nunca me disse nada. Nem minha irmã. Eles sempre viveram como se estivéssemos bem, mas não ricos. — Eles falsificaram documentos. Usaram seu nome. Internaram você, te medicaram por anos, manipularam relatórios médicos… E com isso, puderam gastar tudo, vender partes da herança, ocultar lucros. A internação foi parte essencial do plano. Você era um obstáculo, Anastácia. Levei a mão à boca, tentando conter o grito que ameaçava sair. — Meu Deus… — murmurei, o peito em chamas. — Eles… eles queriam que eu ficasse presa para sempre. Ou que eu morresse lá dentro. Cláudia assentiu, com lágrimas nos olhos. — Sim. Christian ficou em silêncio por um tempo, como se processasse tudo ao mesmo tempo que eu. — E Lucas… você tem certeza que ele está com os Alencar? — perguntou ele. — Absoluta. Vi a documentação. O nome da mãe biológica está adulterado, mas é possível rastrear. E tem algo mais… — O quê? — perguntei, com medo da próxima bomba. — A adoção ainda não foi completamente regularizada. Eles têm a guarda provisória. Isso significa que, com provas do que aconteceu, você pode recuperar seu filho. Minhas mãos tremiam. Lucas estava vivo. Meu filho. Meu bebê… estava vivo. Uma imagem surgiu em minha mente — o rosto que eu sonhava todas as noites, os olhos grandes e doces. Ele estaria com quase 2 anos agora. Como seria sua voz? Ele gostava de música? Dormia com algum bichinho? Será que sabiam que ele amava colo? Que eu cantei pra ele ainda na barriga? Minhas lágrimas escorreram sem que eu conseguisse conter. — Eu preciso vê-lo. Eu… preciso abraçá-lo. Agora. Christian me envolveu num abraço apertado, e senti sua força me proteger mesmo que eu estivesse em pedaços. — Você vai, meu amor. Vamos lutar por ele. Vamos tirar ele das mãos dessas pessoas. E você vai recuperar tudo que é seu. Olhei para Cláudia, que me entregou uma pasta repleta de documentos, fotos e comprovantes. — Aqui tem tudo. Provas da fortuna, das falsificações, da entrega de Lucas. Eu gravei conversas, coletei assinaturas, tudo o que consegui. Sei que é perigoso… mas não posso mais viver com isso na consciência. Peguei a pasta com mãos trêmulas. — Obrigada. Você não tem ideia do que isso significa pra mim. Ela chorou, e eu também. Porque mesmo que eu tivesse descoberto a verdade… a ferida ainda era profunda. Christian me levou para casa naquela noite. O silêncio no carro era pesado, mas necessário. Eu olhava pela janela, vendo o mundo passar… e sentindo como se estivesse renascendo. Pela primeira vez em anos, eu sabia quem eu era. E sabia o que precisava fazer. Eu não era mais a mulher frágil que chorava no canto de um hospital, medicada até esquecer o próprio nome. Eu era Anastácia. Mãe de Lucas. Herdeira de uma fortuna. Uma mulher traída… mas pronta para lutar. E eu iria até o fim.
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