Narrado por Christian
Desde que ouvi Cláudia revelar a verdade, algo em mim mudou. Eu sempre soube que Anastácia era especial. Desde o primeiro dia, mesmo nos momentos em que ela se perdia em silêncios profundos e lembranças dolorosas, havia uma luz dentro dela. Mas agora... agora essa luz se acendeu como um incêndio. E eu jurei a mim mesmo: ninguém mais ia apagá-la.
Aquela noite foi uma das mais difíceis da minha vida. Anastácia dormiu pouco. Acordava em sobressaltos, murmurando o nome de Lucas. Eu a acolhi nos braços, sussurrei promessas que ainda não sei como vou cumprir. Mas cumpri-las é exatamente o que pretendo fazer.
Na manhã seguinte, antes mesmo do sol nascer, Anastácia já estava de pé, segurando aquela pasta com os documentos de Cláudia como se fosse um tesouro — e era.
Ela usava uma camiseta minha, o cabelo preso num coque malfeito, os olhos vermelhos de tanto chorar. E mesmo assim, era linda. Forte. Uma mãe que voltava à luta.
— Christian… — ela sussurrou, segurando minha mão. — Acha que tenho chance de recuperar ele?
— Acho que você não tem só uma chance. Você tem o direito. E eu vou fazer de tudo pra garantir isso.
Ela se jogou nos meus braços, e naquele momento entendi que o amor que sentia por Anastácia não era mais uma paixão. Era devoção.
Meu primeiro passo foi procurar um velho amigo da faculdade, Henrique Leal, agora advogado especializado em direito da família e causas complexas. Ele atendeu minha ligação na hora, e assim que expliquei superficialmente o que estava acontecendo, ele nos recebeu no mesmo dia.
— Isso é mais comum do que se imagina — disse ele, analisando a pasta. — Mas o fato de termos provas materiais e uma testemunha disposta a falar muda tudo. Ainda assim, é um caso sensível. A família Alencar tem influência. Vai ser uma briga longa.
Anastácia apertou minha mão, os olhos firmes.
— Eu já aguentei por 2 anos. Posso esperar mais. Só não posso desistir.
Henrique sorriu.
— E não vai.
Ele explicou os trâmites legais, os prazos, os riscos. Mas tudo isso parecia distante diante do que já tínhamos superado. Agora era guerra.
Enquanto Henrique cuidava do processo, eu comecei a investigar os Alencar por conta própria. Como médico, tenho acesso a certos meios e conexões. Pedi ajuda a uma jornalista investigativa, Renata, paciente minha de longa data, que devia alguns favores.
— Eles têm fachada limpa — disse ela em nosso segundo encontro. — Mas há registros de movimentações financeiras suspeitas nos últimos dois anos. O que é mais estranho: a empresa deles foi salva da falência pouco depois de adotarem o menino. Coincidência?
— Nada disso é coincidência — murmurei.
Renata fez mais: conseguiu fotos de Lucas. Meu coração parou.
Mostrei-as para Anastácia naquela noite.
— É ele… — ela sussurrou, levando a mão à boca, os olhos marejando. — Meu bebê…
A imagem era de um garotinho sorridente, olhos castanho-claros como os dela, cabelo ondulado, brincando num jardim. Era impossível não notar a semelhança. E impossível não sentir uma dor cortante por tudo que ela havia perdido.
— Ele vai te chamar de mãe, amor. Juro que vai.
Ela me olhou, as lágrimas descendo silenciosas.
— Você sempre diz isso com tanta certeza… como consegue?
— Porque eu acredito em você. E porque te amo.
Ela sorriu, trêmula, e encostou a testa na minha.
— Eu também te amo, Christian. Com tudo que sou.
Nos dias que se seguiram, Anastácia mergulhou na papelada com Henrique, revisando detalhes, assinando petições, reunindo documentos. Mas também voltou à ONG.
— Aqui eu sinto que sou útil — ela me disse, numa tarde em que a busquei. — Ajudar outras pessoas enquanto luto pelo meu filho me dá propósito.
E isso me fazia amá-la ainda mais.
Mas nem tudo foram dias calmos.
No fim daquela mesma semana, fui chamado para lidar com uma emergência no hospital psiquiátrico onde ainda atuava. Um paciente, Marcos T., havia surtado, destruído uma das enfermarias e agredido um enfermeiro. Quando cheguei, ele estava algemado, mas agitado, os olhos em chamas.
— Christian! Você! Você trabalha com eles! Você vai morrer que nem o outro! — ele gritava.
A frase me pegou desprevenido.
— Que outro? O que está dizendo, Marcos?
— Vocês todos são peças no jogo! Ela era pra ter ficado lá! Era pra ter morrido lá! Você estragou tudo! Agora eles vão te pegar!
O coração disparou. Não era um surto comum. Ele sabia. Sabia de alguma coisa.
Ordenei que o medicassem com segurança, mas anotei cada palavra. Era mais uma pista de que minha investigação estava incomodando pessoas perigosas.
Naquela noite, voltei para casa com a mente fervendo. Encontrei Anastácia sentada no sofá, de pijama, o cabelo solto, lendo um livro infantil em voz alta como se Lucas pudesse ouvi-la.
Ela me viu entrar e sorriu.
— Tô ensaiando pro dia que ele estiver aqui.
Fui até ela, ajoelhei aos seus pés, segurei suas mãos.
— Então me promete uma coisa — pedi.
— O quê?
— Que quando ele estiver aqui… você vai me deixar ser mais do que o médico que te salvou. Vai me deixar ser o homem que vai construir uma nova vida com vocês dois.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Você quer dizer…?
— Anastácia, quer casar comigo?
Ela riu e chorou ao mesmo tempo. Jogou o livro de lado e me abraçou forte.
— É claro que sim.
Ficamos ali, abraçados, por longos minutos. Eu sentia que, apesar de tudo, estávamos cada vez mais perto do recomeço. Ela não estava mais sozinha. E nem eu.
Mas sabia, no fundo, que as coisas ainda iam piorar antes de melhorar.
A família Alencar não ficaria calada. E o pai e a irmã de Anastácia... ainda tinham muito a esconder.
Mas agora ela tinha a verdade.
E tinha a mim.
E juntos… nós iríamos até o fim não importasse as ameaças que estivéssemos sofrendo.