Capítulo 20

1089 Palavras
Narrado por Anastácia Eu nunca pensei que voltaria àquela casa. As paredes brancas, os jardins meticulosamente cuidados, os móveis antigos que pareciam saídos de um catálogo de família perfeita. Mas por trás de cada moldura dourada e cada tapete persa, havia o sangue da minha alma. A traição pulsava ali dentro como uma ferida aberta. E naquele dia, era eu quem trazia a navalha da verdade. Christian insistiu para me acompanhar, mas eu pedi que esperasse do lado de fora. Precisava entrar sozinha. Encará-los. Olhar nos olhos das duas pessoas que mais me machucaram na vida. Eles não mereciam a presença dele. Não mereciam testemunhar o amor que construímos enquanto eles tramavam minha ruína. Bati na porta com força, com as mãos trêmulas, mas o coração firme. A empregada abriu como se eu fosse um fantasma. — Dona Anastácia...? Meu Deus... A senhora... — Chama meu pai e minha irmã. Agora. Ela hesitou por um segundo, os olhos arregalados, e correu para dentro. Ouvi vozes apressadas, passos pesados. Então eles apareceram. Meu pai. Impecável como sempre. Terno escuro, cabelos grisalhos penteados para trás, a expressão fria como mármore. E minha irmã, usando um vestido bege e um sorriso falso que nunca combinou com ela. Por um momento, nos encaramos em silêncio. Um segundo apenas. Mas foi o suficiente para todo o meu corpo ferver. — Olha só... — Letícia disse, debochando. — A irmã perdida voltou da loucura. — Não — respondi, com voz firme. — A irmã traída voltou para expor os monstros. O sorriso dela sumiu. Meu pai continuou em silêncio, mas os olhos dele... os olhos não negavam. Estavam atentos. Avaliando. Como se eu fosse um negócio prestes a desmoronar. — Então é verdade, não é? — perguntei. — Vocês colocaram meu filho nas mãos de outra família. Forjaram minha internação. Me deixaram presa por anos. Roubaram tudo que era meu. — Cuidado com o que diz, Anastácia — meu pai disse por fim, a voz baixa e ameaçadora. — Cuidado? CUIDADO?! — gritei. — Eu fiquei trancada por MESES num hospital, ouvindo que meu filho estava morto! Ouvindo que eu era louca! Enquanto vocês torravam meu dinheiro, viviam às minhas custas e deixavam o meu bebê nas mãos de estranhos! — Você era instável — Letícia rebateu, erguendo o queixo. — Você precisava de ajuda. E o papai... só cuidou dos seus bens. Fez o que era necessário. — Isso não é cuidado. É crime. É crueldade! Vocês tiraram o que eu tinha de mais precioso! Eu dormia com o cheiro dele ainda nas minhas roupas! E vocês... vocês fingiram que ele morreu! Minha voz falhou. Eu me forcei a continuar. — Vocês mentiram pra mim. Me doparam. Me trancaram. E o pior... fizeram isso por dinheiro. Não por amor. Não por preocupação. Por poder. Vocês me mataram em vida. Letícia riu com escárnio. — Ah, por favor. Dramática como sempre. — Não, Letícia. Quem vocês enterraram foi a mulher submissa. A filha obediente. Essa sim morreu. Agora só resta a mãe. A mãe do Lucas. E ela vai até o fim. Meu pai finalmente deu um passo à frente. — Você não tem provas. — Eu tenho tudo. Tenho o testamento. Tenho documentos. Tenho a Cláudia como testemunha. Tenho os registros bancários. E tenho uma coisa que vocês nunca mais vão conseguir esconder: a verdade. Os olhos dele se estreitaram. Pela primeira vez, vi medo ali. Medo verdadeiro. — Não importa o que diga, Anastácia — ele respondeu. — Você pode ter saído do hospital, mas ainda é instável. Basta um deslize seu, e qualquer juiz vai entender que você não tem condições de criar um filho. Acha que só amor basta? Você ainda é emocionalmente frágil. Tem crises. Ataques. — Você realmente acha que eu vou cair de novo nessa armadilha? — retruquei, com nojo. — Agora eu tenho Christian meu noivo. Tenho um advogado. Tenho uma vida nova. E não vou parar até ver vocês pagando por tudo. — Cuidado com o que deseja. — A ameaça dele era clara. — Já desejei demais em silêncio. Agora, quero justiça. E o meu filho de volta. Letícia bufou. — Você acha que essa criança ainda lembra de você? Ele nem sabe quem você é. Chama outra mulher de mãe. Você vai acabar traumatizando o menino. Por que não faz um favor pra ele e desiste? Aquelas palavras me rasgaram por dentro. — Porque ele não foi dado. Ele foi roubado. E um dia... quando ele for maior... ele vai saber que eu lutei por ele até o fim. Eu me virei para sair. Mas antes de alcançar a porta, olhei por cima do ombro. — Aproveitem os últimos dias de falsa tranquilidade. Porque o que vem agora... é justiça. E ela vai ser implacável. Saí da casa com as pernas bambas, mas a alma em chamas. Christian me esperava no carro, como prometido. Quando me viu, correu até mim. — Você tá bem? — Tô viva. Ele me abraçou com força. Eu desabei. — Eu fiz o que precisava fazer, Christian. E sabe de uma coisa? Eu não tenho mais medo. Ele segurou meu rosto com ternura. — Você foi corajosa. Foi brilhante. E eu tô tão orgulhoso de você... — Eles são piores do que eu imaginava — sussurrei. — Eles realmente queriam que eu morresse naquele hospital. Tudo por causa do dinheiro. Eles nunca me amaram. Nunca. — Mas eu amo — ele disse. — Eu amo você. E vou estar com você em cada passo dessa guerra. Eu o abracei mais forte. — Eu só quero meu filho de volta, Christian. Quero sentir os bracinhos dele ao meu redor. Quero ouvir ele me chamando de mãe. — E vai ouvir. Eu prometo. Naquela noite, deitamos lado a lado, mas o silêncio pesava. Eu ainda sentia as palavras da minha irmã queimando nos ouvidos. “Ele nem sabe quem você é.” Christian me puxou para mais perto, e seus olhos encontraram os meus na escuridão. — Você não é a mulher que perdeu tudo, Anastácia. Você é a mulher que sobreviveu a tudo. — E se ele tiver medo de mim? E se não gostar de mim? — Você é a mãe dele. O amor entre vocês vai se reconhecer. Confia nisso. Chorei em silêncio. Mas pela primeira vez, eram lágrimas de esperança. De uma mulher que havia caído no inferno, mas estava de volta. Com cicatrizes, sim. Mas inteira. E disposta a lutar. Por mim. Por Lucas. Por tudo.
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