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1247 Palavras
Mas horror sempre pode piorar! O salão, antes iluminado e confortável, agora parecia um porão escuro e sufocante. O luxo que as cercava no jantar havia se tornado um detalhe c***l diante da realidade que as esmagava. As garotas estavam reduzidas a nada. Tudo que tinham – bolsas, roupas extras, telefones, qualquer item pessoal – foi tirado delas. Permaneciam apenas com as roupas do corpo, como se fossem gado pronto para o abate. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo choro abafado de algumas delas. Nicole sentiu um aperto no peito ao perceber que, naquele momento, estavam realmente sozinhas. Não havia ninguém para ajudá-las. Não havia uma saída. E então veio a segunda onda de horror. Os homens que agora as cercavam pararam de falar português. Nem mesmo o inglês foi usado. As palavras que saíam de suas bocas tinham um som estranho, áspero e gutural, carregado de uma agressividade que Nicole não compreendia, mas sentia no fundo do peito. Cada palavra parecia uma sentença de morte. Ela tentou prestar atenção, captar algo que pudesse entender, mas nada fazia sentido. No entanto, a cadência, o tom e a estrutura da fala despertaram nela uma suspeita. Parecia árabe. Ela não conhecia a língua, mas já ouvira algo parecido em filmes e na televisão. E agora, saber que aqueles homens falavam um idioma que ela não entendia tornava tudo ainda pior. Era como se estivessem sendo levadas para uma realidade paralela, para um destino tão distante que sequer conseguiriam compreender. Foi quando Nicole olhou para Bárbara, sentada ao seu lado, que percebeu a verdade finalmente se fixando nos olhos da amiga. O pânico refletido ali era absoluto. Bárbara não precisava falar para que Nicole entendesse. Até ali, talvez houvesse alguma esperança, alguma ilusão de que aquilo tudo fosse apenas um engano. Mas agora, não. O pesadelo era real. Elas haviam caído no pior golpe possível. Não existia viagem dos sonhos, nem contratos para trabalhos, nem oportunidades para uma nova vida. O que existia era um destino c***l e inescapável. Nicole viu as outras meninas se encolhendo, se abraçando como crianças perdidas, chamando pelos pais entre soluços e vozes trêmulas. Algumas imploravam, rezavam, sussurravam o nome das mães, desejando apenas voltar para casa. O pânico era absoluto. Mas Nicole não se permitia ter esperança. Ela sabia. Sabia que elas não voltariam. Olhando para as paredes brancas do salão, sentindo a vibração do motor do navio sob seus pés, a única certeza que tinha era que estavam indo para um lugar de onde não haveria volta. Elas seriam vendidas. Ou pior, seriam exploradas até que não restasse mais nada delas. O pensamento a enjoava. Fechou os olhos e mordeu o lábio até sentir o gosto metálico do sangue. Ela não deixaria isso acontecer com ela. Ela não deixaria ninguém vendê-la. Seu corpo não era um objeto. Sua vida não era uma mercadoria. Nunca tinha se apaixonado. Nunca sequer havia beijado alguém. Sempre teve nojo da forma como sua tia tratava o próprio corpo como moeda de troca, trazendo um homem diferente para casa todas as noites. Nicole havia crescido sonhando com algo diferente. Sonhando com um amor verdadeiro, alguém que olhasse para ela e a quisesse por quem era, não por um capricho momentâneo. E agora… Agora ela não tinha escolha. A ideia de ser tocada contra sua vontade fazia um ódio silencioso subir por seu peito. Ela não permitiria. Na primeira oportunidade, se jogaria no mar. Preferia enfrentar as ondas, a escuridão profunda do oceano, morrer à deriva se fosse necessário, a ser tratada como uma mercadoria. Nicole respirou fundo, virou-se para Bárbara e sussurrou: "Na primeira oportunidade, eu me jogo no mar." Bárbara arregalou os olhos, como se Nicole tivesse acabado de dizer a coisa mais insana do mundo. "E vai fazer o quê? Nadar até o Brasil?" Nicole olhou para o chão, sua mente girando como um furacão. "Sabe o que vai acontecer se ficarmos aqui", murmurou, sua voz fria e certeira. "Vão nos vender. Vez após vez. Vamos preferir a morte." Bárbara não respondeu. Suas lágrimas caíram pesadas, e em um segundo, ela estava chorando como uma criança. Nicole desviou o olhar, sentindo o coração pesado. Mas sua decisão estava tomada. Foi então que a porta se abriu. Uma mulher entrou. Ela tinha os cabelos grisalhos presos em um coque apertado. Sua postura era rígida, seu rosto sério e sem emoções. Não parecia uma vítima, nem uma prisioneira. Pelo contrário, parecia alguém no controle. Ao lado dela, um dos homens que comandavam os sequestradores se virou para as garotas e disse, desta vez em português: "Ela quer saber se tem virgens entre vocês." O silêncio foi absoluto. Ninguém respondeu. Elas estavam congeladas, como presas diante de um predador. Nicole sentiu a espinha arrepiar. O que aconteceria se dissessem a verdade? O homem sorriu, mas não era um sorriso verdadeiro. Era um sorriso de desprezo. "Pegue uma delas. A senhora vai verificar." Nicole sentiu o estômago revirar. O que quer que estivesse prestes a acontecer, ela sabia… O inferno só estava começando. O salão estava mergulhado em um silêncio denso, pesado, como o ar antes de uma tempestade. As garotas se encolhiam umas contra as outras, os olhos arregalados, corpos tremendo. A mulher de cabelos grisalhos não demonstrava nenhuma emoção, apenas uma frieza cortante, enquanto examinava cada uma delas como se fossem mercadorias. Nicole sentiu um arrepio subir por sua espinha quando o homem repetiu, agora com impaciência na voz: "Pegue uma delas. A senhora vai verificar." As palavras pareciam uma sentença de morte. Antes que alguém pudesse reagir, um dos sequestradores agarrou uma das meninas pelo braço. Ela gritou e se debateu, mas era frágil demais para resistir. Seu choro desesperado ecoava pelo salão quando foi arrastada para o centro, diante da mulher. "Por favor, não!" A voz dela era pura agonia, as lágrimas escorrendo em rios por seu rosto. A mulher grisalha sequer piscou. Com mãos firmes, segurou a garota pelo queixo, forçando-a a levantar o rosto. Depois, sem hesitação, arrancou sua roupa de baixo. Um grito de horror escapou da boca da menina. As outras garotas se encolheram ainda mais, algumas cobrindo os olhos, outras murmurando orações entre soluços. Nicole sentiu o estômago revirar. O sangue fervia em suas veias, um misto de ódio e impotência queimando dentro dela. A mulher olhou para a menina com frieza e, após um momento que pareceu durar uma eternidade, assentiu. O homem ao lado dela sorriu. "Uma virgem", ele murmurou em sua língua áspera. E então outra foi puxada para frente. Os gritos voltaram. Uma a uma, foram submetidas à mesma humilhação. Não importava o quanto chorassem, o quanto implorassem. A mulher grisalha não se comovia. O procedimento se repetia, c***l e mecânico. Nicole sentia a raiva crescendo dentro dela como um incêndio incontrolável. Sua respiração estava pesada, os punhos cerrados com tanta força que as unhas cravavam na pele. Então, restava apenas ela. Nicole não se moveu. Ela estava no mesmo lugar, firme, os olhos fixos nos algozes à sua frente. Mas ao contrário das outras, não tremia. Não chorava. Ela os encarava com fúria. Era uma rebeldia digna de uma guerreira. Os sequestradores notaram a diferença. O homem que traduzia sorriu de forma irônica, como se estivesse diante de um desafio interessante. "Venha." Nicole não se mexeu. "Eu disse, venha." Os outros seguraram a respiração. Nicole apenas os encarava. Se pensavam que ela se quebraria facilmente, estavam enganados. Ela jamais se renderia sem lutar.
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