RACHEL
6 MESES ANTES
Depois de ser praticamente obrigada a guardar o carro do meu pai ainda o descarado teve a 'decência' de me arrancar da garagem por um puxão brusco no braço. Quando me empurrou dentro de casa e fechou a porta deixou claro a sua explícita raiva.
O que deu nele?
— A quanto tempo você faz essa merda? _Ergui minha sobrancelha, deixando visível meu desentendimento. — Tirar racha, sua desavisada. _Quis me ofender. Não entendo porque ele tá putasso.
— Desavisada é seu ... Nariz. _O dei as costas e balançava a cabeça em negação enquanto chegava no sofá, me jogando nele, cansada. — Estou entregue. De nada, bye.
— Nada disso. Você vai me ouvir até que entenda os riscos que tem essas suas atitudes impensáveis, você foi negligente. _Num pulo ele estava sentado ao meu lado.
Fiz careta e o fitei.
— Pelo que estou vendo, você não tem direito algum pra começar um discurso com lição de moral. Você correu comigo ... Meu Deus! _Levantei as mãos para o céu, impaciente.
— Eu sabia o que estava fazendo.
Foi a vez de o encarar, firmemente, indignada.
— Filho de uma égua. Machista e preconceituoso safado. _O xinguei e ele de repente caiu numa risada alta, olhando para o lado.
— Eu não sou machista e tampouco preconceituoso... _Virou-se para me olhar. Eu estava perdida em quão fascinante era seu sorriso unido a sua barba grande. — Safado? Um tanto sim. Mentira. Só um tanto mais da conta.
Engoli a seco, subindo no automático o olhar.
— Nojento. Você é um nojento. _Fiquei de pé e segui a cozinha. O cheiro instigante que emanava dele atrás não me fazia processar outra coisa que não fosse o meu primo numa cama, transando e suando.
— O que foi? Não te agrada reconhecer que sou um safado? _Escutei seu riso baixinho e cessei o andar, esfregando minha testa que suava frio. Será que é possível que ele não perceba que é petulância da sua parte?
Nervosa, me virei.
— Eu não quero saber da sua intimidade... Isso é tremendamente desagradável. _A bílis subia por minha garganta e eu logo tratava de engoli-la.
— Quem me acusou de ser safado foi você. _Rebateu, cruzando os braços fortes.
Respirando fundo, dei de ombros, virei para frente e cheguei à geladeira, abrindo-a e pegando uma garrafa d'água. Em seguida fui até os copos e peguei um, me servindo ali mesmo na pia.
— Quer um xeque ou em dinheiro vivo? _Sentindo o calor do seu corpo, o copo em minha mão foi tomado o que me fez comunicar com seu lindo e perfeito rosto tão próximo ao meu.
Olha-lo nas profundezas de suas írises me deixava inerte, meus olhos ardiam por não conseguir piscar. Desejava esfrega-los com as mãos. O som que vinha da nossa respiração, misturando-se parecia estar contando alguma malícia. Minha garganta seca e a bílis eu sentia subir novamente. Engulo-a com dificuldade, recusando-me deixar transparecer qualquer reação diante da sua presença. Não podia expressar nada. Ele não podia ter meu domínio. Ele não era nada além de um homem atraente...
Noivo... E o meu primo.
Meu Deus! Quando o pai dele veio a falecer sua mãe ficou tão enlouquecida que o abandonou na minha casa. Eu vi suas fotos quando pequeno. Ele era um menininho com seus 7 anos. 2 anos depois eu nasci tendo-o, mesmo não querendo, como o meu irmão mais velho. Tinha o meu irmão Maximiliano, mas era um caso à parte. Sua madrinha vivia constantemente a levar ele pra sua casa. Ele era mais novo que o Heitor, porém, era o motivo de por várias vezes tirar Heitor de perto de mim. Eu pecava como uma condenada quando fiz 9 anos e o enxergava como um homem viril e vim a sofrer tanto quando ele saiu de casa para estudar fora voltando quando eu já era uma mocinha formada, com meus 15 anos. Não era bom sentir o que eu sentia por ele. Eu me culpava. Eu chorava. Me doía e machucava bem dentro do meu peito. Era como se toda vez que nos encontrássemos perfurasse um monte de espinhos no meu coração e na minha carne, eu, toda vez ficava ensanguentada.
O tempo passou e mesmo o evitando por cinco anos nada mudou. Na verdade, só cresceu, era um vício pensar nele e agora que sei que estou prestes a morrer é como se não desse nem pra disfarçar que o quero. Que eu o desejo enlouquecidamente. Estou sem forças mentalmente para o expulsar de onde ele habita e faz morada. Fraca demais fisicamente, acontece que já estou perdendo a batalha para me segurar, sobretudo é impressionante que o tendo tão perto me falta coragem para beija-lo.
Se eu não morrer de uma coisa, com a certeza do mundo toda morrerei de amor.
Me pergunto o porquê de ele nunca me olhar de cima abaixo como fez com a qual nos trouxe para apresentar como sua namorada. Ele me veria sempre como uma mulher indigna para perder alguns segundos do seu tempo admirando? Ou me tinha como uma irmã ainda que fossemos apenas primos?
— Eu quero simplesmente que tenha juízo e pare com os rachas. _Ele quebrou o silêncio com sua voz grossa e cortante, depositando o copo dentro da pia.
Percebendo que ele não se distanciaria e eu embebedada em seus olhos tive que ser lúcida. Retraí imediatamente um passo e saí da cozinha. Estou a ponto de fazer uma besteira.
Se eu persistisse seria o mesmo que "O "não" você já tem, vá em busca da humilhação. Eu seria humilhada. Descartada. Louca e pecadora.
Sentada no sofá o vi passar para o bar no canto e se servir de bebida.
— Está dirigindo. _Avisei.
Ele caminhava para sentar no escuro centro amadeirado. Pra quê tão perto? Afastava o jarro de rosas para o lado e o vi desprender uma, olha-la atenciosamente e direciona-la para mim.
Franzi o cenho, não conseguia segurar a emoção no sorriso que começou a brincar em meus lábios.
— Essa é a primeira vez depois de anos que ficamos no mesmo recinto por mais de cinco minutos. Quando regressei você não era mais a menininha que peguei no colo e foi rara as vezes que conversamos. Odiei que você esteja a me afastar da sua vida quando crescemos juntos como irmãos. Quero que saiba que você nunca deixou de ser importante para mim. _Ele parecia honestamente confidenciar o que nunca me contou, seu olhar era minucioso demais, quase torturante de tão fechadinhos que estavam em mim.
Com os olhos vazando lágrimas fui para recolher a rosa e ele pegou minha mão, beijando-a.
— Heitor...
— Meu Querubim precioso. Você e seus pais sempre serão a minha única e verdadeira família. _Era carinhosa e repleta de gratidão suas palavras. No entanto, não era as que eu queria ouvir. Puxei minha mão e foquei a atenção nela.
— Quer mesmo casar com alguém que conheceu a tão pouco tempo? _Questionei sem olha-lo.
— Sinto que ela é o melhor. Eu a mereço. _Bebericou sua bebida. Entretanto, não foi despercebida sua falta de convencimento. — E a sua opinião sobre essa decisão? _Seu olhar queimava sobre mim.
— Honestamente. Acho precipitada. Mas não imaginamos quanta merda poderíamos evitar se soubéssemos as verdadeiras intenções das pessoas desde o começo. Não é mesmo? _Dei de ombros. Mas doía na alma ter que dizer aquilo. — Quem sou eu para julgar suas escolhas. Quem sabe a mulher não seja realmente o melhor pra você. _Alisei cuidadosamente as pétalas da rosa, engolindo a saliva amarga.
— Acha que eu posso ser feliz?
Apressadamente, o encarei.
— E por que não?
— Você sabe que não consigo evitar pensar que não tenho família.
E eu? E nós?
Abandonei a rosa no sofá e impulsionei o corpo mais para frente e surpreendentemente ele pousava os antebraços nas pernas, com o copo ao meio na mão.
— Não gosto de te vê triste. _Toquei seu rosto com as costas dos dedos. — Não será que está buscando pretextos? _O olhei ansiosa. Seria uma alegria que fosse. — Se for. Pense que ninguém nessa vida é insubstituível caso lá na frente descubra que não foi a melhor escolha.
Por minha sanidade mental devia manter uma distância
considerável dele. Mas é maior a vontade de se aproveitar e toca-lo como nunca fiz.
— Quando se é abandonado, a pessoa se cresce achando que todos virarão as costas.
— Melhor parar com a bebida que já tá prejudicando sua autoestima. _Tomei o copo das suas mãos.
Com um dedo seu abaixo do meu queixo, tive meu rosto elevado.
— Já iniciou sua vida s****l?
Pisquei os olhos algumas vezes, perplexa e avoada. A saliva foi difícil engolir.
— Por que diabos está me perguntando algo tão deselegante? _Minha resposta foi outra pergunta atravessada. Sem estruturas voltei ao meu assento no sofá.
— O homem é fogo e a mulher pólvora aí vem o d***o e sopra. _Ele comentou e eu fiquei triplamente mais desconfortada com o assunto. — Está vermelha como uma maçã pronta para ser devorada.
Arregalei meus olhos, descrente.
— Você é muito desqualificado e invasivo. _Acusei em tom ríspido.
— Foi com aquele i****a? _De bate e pronto lá ele rebateu com uma nova pergunta.
— Limites. Heitor. Tem que ter limites. _Gesticulava como uma destrambelhada desesperada.
— Seus pais são bem conservadores. Como agiram quanto a isso? _Ele riu. Eu era uma piada pra ele.
— Eles nem ficou sabendo. _Omiti em meio ao nervosismo. Não seria uma mentira e nem uma verdade. Eles não ficaram sabendo porque não tem o que saber.
— Você é linda e se prestou a isso? _Por que agora ele está contrariado?
— O que que tem a ver beleza comigo me entregar a alguém? _Estou Incrédula.
— Não é um alguém. É um ninguém. Seus pais nem ficou sabendo. Que s*******m.
— s*******m é você entrar na minha vida agora e se achar muito para dizer e desdizer o que devo fazer. Vai se fuder. _Com raiva, fervorosa me coloquei de pé e ia sair para longe quando ele me segurou pelo pulso. Respirei fundo.
— Perdoe-me. Eu não tenho mesmo nenhum direito. _Foi um murmuro. —Fica aqui comigo.
Arrancando minha mão do seu toque bruscamente, sentei.
— Eu tenho você como uma ir...
O cortei.
— Está bem. Entendo sua preocupação.
— Não quero que se magoe. Você tem apenas 20 anos.
— Heitor. Eu não tenho mais tempo de se magoar. _Fui sincera. Pelo menos não podia perder meus dias com aquilo. Sinceramente.
— Está redondamente enganada. Mulher sempre saí mais machucada. _Pegou seu copo e bebeu de novo, então observou o copo por alguns segundos. — Isso é néctar dos deuses.
O segui num sorriso.
— Que i****a. _Continuo a sorrir. — E sobre mulher sofrer mais que o homem, acredito que seu comentário é bem ultrapassado. Essa coisa de que mulher é frágil, isso e aquilo é algo que nos tempos passados usaram para enaltecer homens que traiam suas esposas. Hoje em dia não tem mais 'isso'. Homens sofrem e é tão frágeis quanto nós.
Suas sobrancelhas arquearam em surpresa.
— Tanto que tem uns que estão dando tudo para virarem mulheres.
— Seu comentário é um tanto m*****o. Mas vou relevar.
Ele piscou para mim.
— Perdoe os desleixos que são minhas palavras. Por hora você deveria ser mais divertida para que possamos descontrair um pouco. Que gênio o seu, Deus é mais.
— Não gosto do seu modo de descontração. É curioso demais.
— Bobinha. _Alisou ligeiramente meu joelho por cima da calça, esquentando-me. — Vamos preparar algo na cozinha? _Deu a ideia.
— O último a chegar na cozinha esquece a bebida. _Rapidamente fiquei de pé e saí às pressas. Chegando à cozinha fui até o armário e abri, agachando-me e procurando por algo. Ouvindo seus passos seguidos de um estralo de dedos o olhei de relance. — Está ficando um velho ranzinza.
— E você uma implicante chata. _Notei ele subir pelo joelho um pouco o jeans que usava e abaixar para me fazer companhia, rindo abertamente todo convidativo e leve. Então, estreitou o olhar dentro do armário.
O cheiro que vinha do seu pescoço e pairava bem no meu nariz era bom demais. Bom demais para estar acontecendo.
— Bom o seu perfume. _Elogiei. Ele mordeu o lábio inferior. Deus... Ele mordeu o lábio. Inacreditável.
— Não diga a ninguém. _Tocou na parte detrás das minhas costas. Eu juntei minhas sobrancelhas esperando-o continuar, observando-o atentamente já que ele tinha a atenção a frente e curiosamente me apaixonava consideravelmente por sua barba. Gostei tanto que ele tenha ficado cabeludo. É um chame maravilhoso. —Eu voltei por você. _Contou, me desconcertando inteirinha.
Santa covardia.
— Por mim? _Minha voz era baixa. Ele meneava a cabeça, positivo.
— Sim. Você não atendia minhas ligações, não respondia minhas mensagens. Prontamente me culpei. Achei que tivesse feito alguma coisa errada.
Neguei. Ele não viu pois no mesmo instante pegava algo no armário. Fechei brevemente os olhos.
— Você simplesmente partiu...
Obtive seus olhos brilhosos.
— Eu tentei me despedir e você bateu à porta. No fundo senti que estava tirando o lugar de vocês como filhos. Você não merecia que eu ficasse.
— Não merecia. _Balancei a cabeça, em concordância. Não era justo. Não pelas as coisas que ele pensa e sim por eu sentir o que sentia por ele. — Mas eu precisava de você... Você era o único que fazia os meus pais entenderem que eu precisava ter amigos e sair à noite sem que fosse para casa da nossa família. Nem meu próprio irmão me entendia. _Uma lágrima escorreu e antes que eu secasse seu polegar fazia de forma delicada.
— Por você ser a única filha mulher deles ...
O interrompi fechando os olhos com forças.
— Não. Por favor! Não justifique as ações de pais extremamente protetores. Você não tem ideia de como aquilo mexia com minha cabeça. Eu estava presa numa bolha de aço. Nunca foi assim com o Max e tampouco com você.
— Desculpe-me. _Cochichou, como um segredo. — Sua mãe me contou que tem a desrespeitado.
Veementemente, neguei.
— Não. Eu só estou trilhando meu caminho sozinha. Sinto mesmo que eles pensem assim, mas é a minha vida.
Ele soltou um audível risinho.
— É uma borboleta que acaba de sair do casulo e anseia perdidamente por liberdade. _Acariciou meu nariz e eu o empurrei, mudando drasticamente o humor.
— Bem galanteador sua comparação. _Da lagrima ao sorriso tomei a embalagem que ele segurava. Desacreditada. — Com esse corpo você come lasanha? _Analisei seus braços sobre a camisa verde escura e de manga longa que ele usava e era notável o seu desempenho na academia.
— Essas congeladas? Nem pensar. _Tomou a embalagem da minha mão e ficou de pé. — Preparada em casa e ao meu gosto? Sim. Com todo prazer. _Estendeu uma mão e me ajudou a ficar de pé.
— Então tá. _Rumei até a geladeira. — O que precisa, Senhor fitness de mentirinha? _ Zombei.
— Você hoje está condenada a ser minha ajudante. _Jogou o guardanapo em mim e eu revirei os olhos.
No fundo do peito, a sensação por estarmos ali conversando sem nos preocupar com nada, eu me emocionando e rindo uma vez ou outra com seu jeito bem humorado e bobo... Infernos, era indescritível.