O martírio inicial

960 Palavras
RACHEL 6 MESES ANTES... — Disfarça... _Rebeka murmurou baixíssimo ao pegar em meu cotovelo. Desentendida, elevei o olhar. Ela riu e acenava disfarçadamente para o lado. — Olha quem está na fila ao lado com uma garrafa de whisky e falando no celular. Mordendo os lábios e curiosíssima inclinei a cabeça meramente para trás, já que ela estava do meu lado e pude ver perfeitamente o canalha. As sensações que me tomam são malditas e traiçoeiras. Quantas e quantas vezes me condenei por sentir o que sentia ao vê-lo. Estou a expirar muito fundo e sequer percebo isso ao não ser por culpa da falta de ar que me toma. Ansiedade mata. Sabemos disso, mas e quando não é isso o que eu sinto? E se for algo mais profundo e que acaba com a vida a cada vez que ponho meus olhos nele. Algo que corrói e mata mais rápido? E eu necessito tanto viver. Ainda surpreendida nosso olhar se cruza e eu acabo engolindo a seco por ele sorrir para mim. Novamente respiro, sentindo meu peito subir e descer com certa dificuldade. Por que ficava tão nervosa com essa simples ação? Educadamente, sorrio de volta retribuindo o aceno e volto a postura, encarando meu pé e fazendo careta de desagrado por estar descalço. É uma maldição. Só pode! Justo no dia em que o vejo esse karma acontece. É muita falta de sorte. — Peste. _Xingo, descontente. — Tranquila, amiga. Ele não vai reparar em seu pé sujo de cocô de cachorro. _Ela riu com desdém e eu imediatamente a olhei. — Encardida, até agora estou sem entender o que foi aquilo que fez quando atravessou a rua. _Gargalhou. Desejando me enfiar num buraco mudo a vista. Era pisar na bosta ou morrer atropelada. — Seria mais proveitoso morrer atropelada do que de vergonha. _Admito a mim mesma, cruzando os braços e usando minha mão de leque para dissipar o cheiro horrível que vem aqui. — Ele é bonitão, em? _Me cutuca. A olho e ela está com a visão focada nele. — Sexy. Bem sexy. Sem ao menos querer o gostosão exala testosterona. Pigarreio, enciumada do que não é meu e tenho sua atenção, o olhar dela não está em meus olhos e sim mais abaixo, sem parar de me olhar ela solta o cesto do mercado no chão e toca minha testa. Confusa dou um passo atrás. — O que foi? Por que me olha como se eu fosse uma capivara doente? — Está acontecendo de novo, Rachel. _Em sua bolsa nos ombros ela retira um lenço. — Seu nariz. Limpe-o. _Estende e rapidamente pego. — Eu preciso ir pra casa. _Aviso e prontamente saio em disparate, batendo e empurrando algumas pessoas que estão no meio do caminho. Pressionando o lenço contra meu nariz sinto minha cabeça latejar e minha mão molhar com a abundância do líquido quente e viscoso. Olhando a frente avisto uma parede e não demora e estou a apoiar minha mão livre nela, erguendo bem a cabeça para céu. — Rachel? Essa não... Inferno! Não me viro e tampouco tenho forças para separar as pernas e sair correndo. Então ele, o insolente está a minha frente e como imaginei recolheu meu rosto para uma avaliação. Eu vislumbrava sua boca beijável e convidativa antes de subir a vista e ver o quanto que seu olhar bonito inundava em preocupação. Preocupação familiar, nada além. — Eu estou bem. _Sou cautelosa ao desvencilhar do seu toque e seguir meu caminho, escutava suas passadas precisas que era de impressionar atrás de mim e seu aroma se misturar erroneamente ao meu cheiro de sangue, nos corrompendo para iniciar o pecado. — Você precisa ir imediatamente no hospital. _Me puxou pelo braço e propositalmente o empurrei. A sacola da sua mão caía ao chão e o barulho de vidro quebrando me assustava. — Não chega perto de mim. _Estendo uma mão entre nós e o olhei, não com propriedade como queria por ele ser irresistível e sim seriamente. — E não me diga o que devo fazer. Me deixa em paz para eu poder fazer o mesmo contigo. O dando as costas me apressei até meu carro e logo estava a saí do estacionamento do mercado enquanto pegava minha bolsa no banco ao lado e despejava tudo em busca do meu celular. Encontrando, em desespero olho a estrada e em seguida minha lista telefônica, com um clique trêmulo estou encostando o celular no ouvido. — Rachel??? O que houve? _Minha médica atende no primeiro toque. Uma lágrima solitária e dolosa escorreu dos meus olhos e pingava em meu braço que movimentava o volante. — Iniciou os sangramentos. _Novas lágrimas surgem para embaçar minha visão. — Eu sinto... A corto. — Quanto tempo eu tenho? — Rachel não é assim. Cada caso é um caso porque muda de organismo pra organismo. — É a segunda vez que um riacho de sangue cheirando a ferrugem escapa do meu nariz. Como médica deveria está ciente que isso significa que a maldita doença está avançando. Quanto tempo eu tenho de vida, caramba? É difícil responder isso? — Sim. É difícil quando você me contou que agora resolveu a viver. — Pelo amor de Deus. _Bato no volante. — Me diga. Acaba com essa minha agonia, por favor. _Suplico. — Podemos tentar o tratamento... — Que p***a de tratamento. Essa porcaria vai me matar mais rápido. Vai pro inferno. Finalizando a ligação joguei o celular no banco e estacionei o carro. Ciente de que não podia me culpar pelo que não tem controle, neutralizei os pensamentos, deitei a cabeça no banco e fechei os olhos ao que sentia na boca um gosto terrível de sangue. Que o infeliz não contasse aos meus pais.
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