Pré-visualização gratuita 1- MAYA
CAPÍTULO 1
MAYA NARRANDO
Meu nome é Maya Albuquerque.
Tenho vinte e dois anos, sou loira, dos olhos verdes claros e, segundo a internet inteira, dona de um dos rostos mais bonitos do Rio.
Patricinha? Mimada? Rica?
Já escutei de tudo e sinceramente? Não ligo.
Nasci cercada de dinheiro. Meu pai era empresário no ramo imobiliário e minha mãe dona de uma marca famosa de joias. Eu cresci em cobertura de frente pro mar, viagens internacionais e cartão sem limite. Enquanto muita gente sonhava em ter uma vida confortável, eu já tinha nascido dentro dela.
Moro no Leblon, numa mansão absurda que parece mais hotel de luxo. Piscina gigante, academia, sauna, jardim… essas coisas normais da minha rotina.
Estudei nos melhores colégios particulares do Rio, aprendi inglês antes mesmo de aprender a dirigir e nunca precisei me preocupar com boleto chegando no fim do mês.
Faculdade? Nunca fiz.
Não porque eu não tivesse capacidade… simplesmente porque nunca precisei. Com dezenove anos comecei a postar vídeos na internet. Primeiro maquiagem, depois rotina, viagens, publi, festas… quando percebi, já tinha milhões de seguidores acompanhando cada passo meu.
Hoje eu vivo disso.
As pessoas literalmente pagam pra eu mostrar minha vida.
Louco, né?
Tem dias que eu acordo e penso que minha rotina inteira virou um reality show. Câmera ligada no café da manhã, selfie no espelho, publi de marca cara, evento à noite… e no final do mês entra mais dinheiro do que muita gente ganha em anos.
Mas nem tudo é tão perfeito quanto parece no i********:. Dois anos atrás meus pais morreram num acidente de carro voltando de Angra. Eu lembro exatamente do momento que recebi a ligação. O mundo simplesmente parou.
Depois disso ficou tudo vazio.
A casa ficou silenciosa demais. As viagens perderam a graça. As festas começaram a parecer todas iguais.
Eu herdei tudo deles. Empresas, imóveis, dinheiro… absolutamente tudo. Minha tia Lorena passou a morar comigo na mansão porque, segundo ela, “uma menina sozinha não pode viver desse jeito” e talvez ela tenha razão.
Só que ninguém entende uma coisa sobre mim: eu odeio me sentir presa.
Quanto mais tentam me controlar, mais vontade eu tenho de fazer loucura e talvez esse seja exatamente o meu problema.
— Gente, olha isso aqui… sério, essa coleção tá absurda! — falei animada enquanto posicionava o celular melhor no tripé.
A luz do quarto tava perfeita, batendo direto na varanda enorme da minha suíte. O mar do Leblon aparecia lá no fundo deixando tudo ainda mais bonito na live. Eu amava quando a iluminação natural ajudava. Olhei rapidinho os comentários subindo sem parar na tela.
“MAYA VOCÊ É PERFEITA”
“QUE CORPO É ESSE?”
“PASSA O TREINO”
“Meu Deus essa mulher não existe.”
Acabei rindo sozinha.
— Vocês exageram demais — falei mordendo o canto da boca.
Eu tava usando um dos biquínis da nova coleção da marca que tinha fechado contrato comigo. O conjunto era verde água, cheio de brilhinhos discretos que valorizavam ainda mais meu bronzeado e sinceramente?
Tava lindo demais no meu corpo.
Virei um pouco de lado mostrando a modelagem.
— Olha como veste perfeito atrás… sem mentira nenhuma, esse foi um dos biquínis mais confortáveis que eu já usei — falei passando a mão pela cintura.
Os comentários dispararam ainda mais rápido.
“Dançarina?”
“Mulher tu é uma deusa.”
“Queria ter essa cintura.”
“Essa marca acertou MUITO em te contratar.”
Meu ego? Lá em cima.
Mas eu também sabia que tinha trabalhado pra isso. Dieta, academia, procedimento estético, skincare, cabelo impecável… ser influenciadora parecia fácil pra quem assistia, mas ninguém via a pressão absurda de precisar estar perfeita o tempo todo.
Peguei outro biquíni em cima da cama.
— Esse aqui é meu preferido da coleção — falei mostrando pra câmera — porque ele é mais ousado.
Coloquei o cabelo loiro todo pra um lado e dei uma voltinha devagar, ouvindo as notificações dispararem sem parar.
Mais de cinquenta mil pessoas assistindo.
Cinquenta mil.
Às vezes isso ainda assustava.
— Maya! — escutei a voz da minha tia vindo do corredor.
Revirei os olhos automaticamente.
— Tô em live! — gritei de volta.
— Você recebeu um convite aqui!
— Depois eu vejo!
Ela apareceu na porta mesmo assim, segurando um envelope preto. Típico dela não respeitar privacidade nenhuma.
— Isso parece importante — ela falou me olhando dos pés à cabeça — e esse biquíni tá minúsculo.
Segurei a risada.
— O objetivo do biquíni é justamente mostrar o corpo, tia.
Ela resmungou alguma coisa enquanto entrava mais no quarto.
— Gente, ignora minha tia sendo surtada — falei rindo pra câmera.
O chat simplesmente enlouqueceu.
“TUA TIA KKKKKK”
“MAYA ME NOTA”
“Ela parece brava.”
“Mostra o convite!”
Tia Lorena me entregou o envelope e saiu balançando a cabeça, provavelmente reclamando da minha vida inteira mentalmente.
Abri curiosa ainda em live.
Era convite pra uma festa de lançamento de uma marca famosa de maquiagem, daquelas cheias de influenciadores, fotógrafo, champanhe caro e gente fingindo amizade pra aparecer em story.
— Ai, eu amei! — falei mostrando o convite pra câmera. — Gente, olha isso… a festa vai ser amanhã num hotel em Copacabana.
Os comentários começaram a subir ainda mais rápido.
“TU VAI ENTREGAR LOOK”
“Leva a gente junto.”
“Maya em evento é tudo.”
“Queria essa vida.”
Acabei rindo enquanto jogava o envelope em cima da cama.
— Vocês acham que minha vida é só glamour, né? — falei pegando uma água do criado-mudo. — Mas vocês não têm noção do tanto de evento chato que eu vou obrigada.
“MENTIROSA KKKKK”
“Eu queria sofrer assim.”
“Maya você pisaria num baile funk?”
Franzi a testa lendo o comentário.
— Num baile funk? — perguntei rindo.
Na mesma hora o chat simplesmente explodiu.
“SIMMMMM”
“Tu ia amar.”
“Quero ver a patricinha no baile.”
“Leva vlog.”
“Vai pro morro.”
Mordi o canto da boca pensativa.
Pra falar a verdade… eu nunca tinha ido.
Minha vida inteira foi cercada por festas luxuosas, camarote, viagens internacionais e eventos cheios de gente rica querendo parecer importante. Mas baile funk? Nunca nem passou perto da minha realidade e talvez fosse exatamente por isso que a ideia parecia tão interessante.
— Não sei se eu combinaria muito com baile funk — falei rindo enquanto lia os comentários.
“COMBINA SIM.”
“Tu vai virar cria.”
“Tem que subir o morro.”
“Maya no baile ia parar tudo.”
Balancei a cabeça divertida.
— Quem sabe um dia eu vá então — falei dando de ombros. — Deve ser uma experiência completamente diferente da minha realidade.
E no fundo, a curiosidade realmente bateu.
Porque eu sempre tive esse problema ridículo de me interessar justamente pelo que parecia proibido.
Continua.....