IDEIA

1219 Palavras
CAPÍTULO 2 MAYA NARRANDO Depois que finalizei a live, joguei o celular na cama e me estiquei inteira na cadeira do meu closet soltando um suspiro cansado. Mais de três horas falando sem parar. Ser influenciadora parecia divertido até você perceber que literalmente vivia trabalhando o tempo todo. Levantei andando descalça pelo quarto enorme enquanto abria o i********: pra olhar os números da live. Cento e vinte mil pessoas assistindo. Meu empresário surtaria quando visse aquilo. Abri os directs e, como sempre, tinha mensagem demais. Convite pra evento, marca querendo publi, homem rico se oferecendo pra me dar presente, seguidor emocionado… Nada novo. Mas uma mensagem específica chamou minha atenção. “Tu não teria coragem de subir o morro pra um baile de verdade.” Franzi a testa lendo aquilo. Logo abaixo tinham várias outras. “Maya no baile ia viralizar.” “Duvido ela sair da zona rica.” “Patricinha demais pra isso.” “Ela não aguentaria meia hora.” Revirei os olhos. O povo da internet amava me desafiar como se me conhecesse. Joguei o celular em cima da bancada do banheiro e comecei a tirar a maquiagem devagar. Minha mente continuava presa naquela ideia ridícula do baile funk. Talvez porque fosse algo completamente fora da minha bolha. Minha vida inteira tinha sido controlada. Escola particular, segurança me levando pra todo lugar, festa de gente rica, amizade por interesse, tudo sempre muito calculado e eu odiava isso. Odiei ainda mais depois que meus pais morreram. Porque aí todo mundo começou a me tratar como se eu fosse feita de vidro. — Maya? — minha tia apareceu na porta do quarto. — Você vai jantar? — Tô sem fome. Ela cruzou os braços. — Você vive sem comer direito. — E você vive reclamando da minha vida. Lorena soltou um suspiro já acostumada comigo. — Sua mãe surtaria vendo você responder assim. Aquilo me atingiu na mesma hora. Desviei o olhar pro espelho fingindo continuar tirando a maquiagem. — Minha mãe também surtaria vendo metade das coisas que eu faço. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — O evento é amanhã, né? Assenti. — Vou mandar separarem um vestido. — Já separaram — falei automática. Ela arqueou a sobrancelha. — Claro que já. Acabei rindo fraco. Minha vida era tão previsível que chegava a ser irritante. Tudo sempre organizado, planejado e perfeito. Talvez por isso a ideia do baile ainda estivesse martelando na minha cabeça. Peguei o celular novamente entrando nos comentários da live. As mensagens sobre baile funk continuavam lá. Até que uma seguidora comentou: “Se um dia tu subir o Alemão, teu mundo muda.” Fiquei encarando aquilo por alguns segundos. O Alemão. Só de ouvir esse nome minha tia provavelmente teria um infarto e talvez fosse exatamente por isso que meu interesse aumentou ainda mais. Continuei encarando a tela do celular por alguns segundos até tomar uma decisão impulsiva. Como quase todas da minha vida. Procurei o contato da minha melhor amiga e apertei pra ligar. Nem chegou no terceiro toque. — Amiga, eu tava esperando tua ligação — a voz da Bianca saiu animada do outro lado. — Vi tua live inteira. Tu tava gostosa num nível absurdo naquele biquíni verde. Acabei rindo enquanto me jogava na cama. — Você é obcecada por mim. — E com razão. Mas fala logo, o que aconteceu? Porque tu só me liga essa hora quando quer fazer merda. Ela me conhecia bem demais. Mordi o canto da boca olhando pro teto. — Você teria coragem de ir num baile funk comigo? O silêncio do outro lado foi imediato. — Como é? — Num baile funk — repeti rindo. — Tipo… no morro. — Maya Albuquerque, tu bateu a cabeça? Ri mais ainda. — Tô falando sério. — E eu também! Mulher, tu nasceu no luxo, nunca nem pegou ônibus na vida e agora quer subir um morro? — Ai, dramática. — Não é drama, é sobrevivência. Revirei os olhos divertida enquanto brincava com uma mecha do cabelo. — Na live começaram a comentar disso e agora eu fiquei curiosa. — Curiosa pra morrer? — Bianca! Ela soltou uma gargalhada. — Tá, tá… mas por que exatamente um baile funk? Pensei por alguns segundos antes de responder. — Porque eu tô cansada da mesma coisa o tempo todo. Falei baixo dessa vez. — As mesmas festas. As mesmas pessoas falsas. Os mesmos homens chatos tentando impressionar com dinheiro que eu já tenho. Ela ficou quieta me ouvindo. — Eu só queria fazer alguma coisa diferente, sentir alguma coisa diferente. Bianca suspirou do outro lado. — Às vezes eu esqueço que por trás da patricinha surtada existe um leve vazio emocional. — Vai se ferrar. Ela riu. — Mas respondendo tua pergunta, eu teria coragem sim. Levantei rápido na cama. — Sério? — Desde que a gente não vá sozinha, obviamente. Meu coração acelerou de animação na mesma hora. — Meu Deus, a gente vai mesmo fazer isso. — Calma, maluca. Nem sabemos como entrar num baile desses. Sorri olhando pro teto. — Então se vira e descobre pra mim — falei animada sentando na cama. — Quero saber qual dia tem baile e como a gente faz pra entrar. Bianca começou a rir do outro lado da ligação. — Impressionante como tu joga os problemas tudo pra mim. — Porque você resolve. — Maya, isso não é lista VIP de boate da Zona Sul. — E daí? — E daí que é um baile no morro! Revirei os olhos divertida. — Justamente por isso deve ser mais emocionante. Escutei ela suspirar dramaticamente. — Você definitivamente tem problema. — E você me ama mesmo assim. — Infelizmente. Sorri satisfeita enquanto levantava indo até a varanda do quarto. A vista do mar tava absurda naquela noite, as luzes da cidade brilhando lá embaixo enquanto o vento batia no meu cabelo. E mesmo tendo crescido no meio daquele luxo todo, pela primeira vez aquilo parecia sem graça. — Tá, vou tentar descobrir — Bianca falou depois de alguns segundos. — Mas se der merdä eu vou jogar a culpa toda em você. — Justo. — E outra coisa… ninguém pode saber que a gente vai. — Principalmente minha tia. — Principalmente tua tia! Aquela mulher já me odeia normalmente, imagina se descobrir que eu te levei pro morro. Acabei rindo. A tia Lorena provavelmente chamaria a polícia, segurança particular e um padre ao mesmo tempo. — Relaxa, ela nem vai desconfiar. — Você claramente nunca viu um filme de terror. É sempre isso que falam antes da tragédia. Deitei novamente na cama segurando o celular no ouvido. — Ai, para de drama. Vai ser só um baile. — Só um baile — ela repetiu debochada. — A influenciadora milionária do Leblon infiltrada no Complexo do Alemão. Realmente parece uma ideia maravilhosa. Mordi o canto da boca sentindo a animação crescer ainda mais. — Imagina os vídeos. — Maya! Comecei a rir da reação dela. — Tô brincando… eu acho. — Tu é doida o suficiente pra não estar brincando. Talvez ela tivesse razão. Porque no fundo eu já tava imaginando tudo. A música alta, as luzes, a adrenalina de estar num lugar completamente diferente da minha realidade. Perigoso e proibido e exatamente por isso parecia irresistível. Continua.....
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