CONHECENDO DANILO

1041 Palavras
CAPÍTULO 3 DANILO NARRANDO Meu nome é Danilo. Tenho trinta anos, um metro e noventa de altura, pele morena clara, o corpo fechado de tatuagem e uma fama que faz muita gente tremer só de ouvir meu nome. No Complexo do Alemão, eu não sou só mais um. Eu sou o dono do morro e pra chegar onde eu cheguei, eu precisei virar o pior tipo de homem possível. Nasci e cresci aqui dentro. No meio de tiro, sirene, fuga e gente tentando sobreviver mais um dia. Minha mãe morreu quando eu tinha sete anos por causa de uma bala perdida voltando do mercado. Lembro dela caída no chão até hoje. O sangue. Os gritos. E eu sem conseguir entender por que Deus levava sempre quem não merecia. Meu pai? Esse eu nunca conheci. A única coisa que sei sobre ele é que abandonou minha mãe grávida e sumiu no mundo antes mesmo de eu nascer. Então desde pequeno aprendi uma coisa: eu tava sozinho. Cresci sendo criado pela comunidade. Um vizinho dava comida, outro me dava roupa, e assim fui sobrevivendo. Com doze anos eu já fazia corre pro morro. Com quinze já andava armado. Com dezoito meu nome já metia medo. A vida aqui não dá opção pra ninguém. Ou você aprende a ser forte ou vira estatística e eu me recusei a morrer igual todo mundo achava que eu morreria. Comecei de baixo, fazendo entrega, levando carga, resolvendo problema dos outros. Enquanto muita gente se perdia em droga e bebida, eu observava. Aprendia. Esperava. O antigo dono do morro era um filho da putä c***l. Batia nos moradores, explorava trabalhador, mandava mexer com mulher da comunidade e achava que poder era sinônimo de humilhar os outros. Aquilo me dava nojo, porque uma coisa eu aprendi cedo: quem nasceu no morro já sofre demais pra ainda ter que abaixar cabeça pra covarde e foi aí que tudo mudou. Numa madrugada, depois dele mandar bater num garoto inocente e ameaçar uma menina da comunidade, eu decidi que tinha acabado. Matei ele com minhas próprias mãos. Sem piedade e sem arrependimento. No dia seguinte o morro inteiro já sabia quem tinha assumido o comando e desde então existe uma regra clara aqui dentro: Ninguém mexe com morador. Principalmente com as mulheres da comunidade. Quem desrespeita isso comigo no comando, simplesmente desaparece. Acendi um baseado caminhando pela varanda da cobertura enquanto observava o movimento lá embaixo. O baile daquela noite já tava sendo montado, as luzes acendendo aos poucos e o grave do som começando a ecoar pelo morro. Meu baile. Meu território. Minhas regras. E uma delas era simples: No baile, celular era proibido. Porque no mundo que eu vivo, uma gravação errada pode matar muita gente. Continuei encarando o movimento lá embaixo enquanto tragava devagar o baseado entre os dedos. O morro começava a ganhar vida. Os fios de luz piscando, o pessoal descendo pras ruas, moto subindo e descendo sem parar, caixa de som sendo testada, dava pra sentir de longe quando ia ter baile grande e naquela noite ia lotar assim como em todos os nossos bailes. Peguei o celular no bolso desbloqueando rápido antes de ligar pro JN. Meu sub. O cara que resolvia praticamente tudo comigo dentro do morro. — Fala, chefe — ele atendeu no segundo toque já com o som alto atrás. — Tá tudo certo pro baile? — Tudo no esquema. Continuei olhando a vista enquanto escutava ele falar. — Bebida já chegou, carga tá guardada, os vapores tão posicionados e os menor tão na contenção lá embaixo. Assenti devagar. — Movimento? — Vai ficar absurdo hoje. Já tem gente subindo. — E a revista? A voz dele ficou séria na mesma hora. — Ninguém entra com celular, não. Já avisei os cria. — Quero atenção redobrada nisso. — Pode deixar. Passei a mão pela barba pensando em tudo que podia dar errado. Baile movimentava dinheiro, droga, arma, gente de fora, qualquer vacilo virava problema rápido. — E polícia? — perguntei. — Até agora tranquilo. Os rádio tão monitorando tudo. — Certo. Escutei uma voz feminina no fundo da ligação e logo depois o JN rindo. — Tá ocupado? — perguntei debochado. — Sempre trabalhando pelo morro, chefe. Soltei uma risada. Mentiroso do caralhø. — Só não quero n**o fazendo merdä hoje. — Relaxa, Danilo. Tá tudo sob controle. Desliguei a ligação depois disso guardando o celular no bolso. Controle. Engraçado como essa palavra parecia impossível na minha vida. Porque no morro bastava uma escolha errada, uma pessoa errada ou um segundo errado e tudo mudava. Joguei o resto do baseado no cinzeiro e entrei pra dentro da cobertura passando a mão na nuca cansado. O relógio já marcava quase onze da noite. Hora de descer pro baile. Fui direto pro banheiro da suíte tirando a camiseta no caminho. O vapor quente começou a subir assim que liguei o chuveiro e entrei debaixo da água tentando relaxar um pouco a cabeça. Mas relaxar era difícil. Principalmente quando você carregava um morro inteiro nas costas. Fechei os olhos deixando a água bater no rosto enquanto minha mente já calculava tudo automaticamente. Segurança, polícia, rival, carga, dinheiro, minha cabeça nunca desligava, nem quando eu queria. Saí do banho alguns minutos depois enrolando a toalha na cintura e encarei meu reflexo no espelho. O corpo fechado de tatuagem. As cicatrizes espalhadas. O olhar frio. A vida no morro transforma qualquer homem. Passei a mão pela barba molhada antes de abrir o armário pegando uma roupa preta. Calça preta cargo, camiseta de marca, corrente grossa no pescoço, relógio caro e o kit pronto. Simples. Mas suficiente pra todo mundo entender quem mandava ali. Borrifei perfume sem exagero e coloquei a pistola na cintura automaticamente. Virou costume fazia anos. No meu mundo, sair desarmado era praticamente pedir pra morrer. Peguei a chave da moto em cima da bancada e o celular logo em seguida. As notificações piscavam sem parar, mas ignorei todas. Mulher mandando mensagem, gente pedindo dinheiro, convite, problema… Nada que realmente importasse. Desci as escadas da cobertura ouvindo o grave do baile ecoar ainda mais forte lá fora. O morro já tava acordado e quando eu aparecesse no baile, a noite começaria de verdade. Continua ......
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