BAILE DE MORRO

1124 Palavras
CAPÍTULO 4 MAYA NARRANDO Finalmente chegou o dia. O dia da minha loucura. Eu ainda não conseguia acreditar que realmente tinha aceitado subir o Complexo do Alemão pra ir num baile funk escondida. E o pior é que eu tava animada. Muito animada. — A Bianca realmente conseguiu isso — murmurei sozinha encarando meu reflexo no espelho do banheiro. Minha melhor amiga tinha arrumado contato com uma menina lá do morro que conhecia gente da organização do baile. Segundo ela, a garota ia fazer a gente entrar sem problema. Pelo menos era o que eu esperava. Porque se minha tia descobrisse aquilo, provavelmente me trancava dentro de casa por um mês. Entrei no banho tentando controlar a ansiedade enquanto a água quente escorria pelo meu corpo. Meu coração tava acelerado num nível ridículo. Parecia que eu tava prestes a fazer alguma coisa proibida e talvez estivesse mesmo. Saí do banheiro enrolada na toalha alguns minutos depois, indo direto pro closet enorme da minha suíte. O vestido vermelho já tava separado em cima da cama. Curto. Apertado. Decotado na medida certa. Perfeito. Liguei o secador começando a secar o cabelo devagar enquanto observava a cidade pela janela. As luzes do Rio brilhavam lá fora, mas dessa vez eu não tava me arrumando pra um evento chique em hotel cinco estrelas. Não tinha fotógrafo. Não tinha tapete vermelho. Não tinha empresário enchendo meu saco. Era um baile funk no morro. E só de pensar nisso meu estômago se enchia de adrenalina. Depois de secar o cabelo, comecei a maquiagem com calma. Base impecável, delineado marcando os olhos verdes e um gloss brilhando nos lábios. Nada exagerado. Mas bonito o suficiente pra chamar atenção. Porque eu gostava de ser notada. Sempre gostei. Vesti o vestido vermelho lentamente sentindo o tecido colar no meu corpo. A f***a marcava minhas pernas e o decote valorizava meus s***s exatamente do jeito que eu queria. Me olhei no espelho por alguns segundos. Definitivamente eu não parecia alguém prestes a subir um morro escondida. Parecia alguém indo pra uma festa milionária. Meu celular vibrou em cima da bancada. BIANCA 💋 “Já tô chegando. E pelo amor de Deus, tenta não agir como patricinha quando chegar lá.” Acabei rindo sozinha. Ela realmente acreditava que isso era possível. Peguei minha bolsa pequena em cima da cama e respirei fundo antes de sair do quarto. Meu coração tava disparado. Parte pelo nervosismo. Parte pela animação absurda que eu tava sentindo. Desci as escadas da mansão ouvindo o salto bater no mármore enquanto tentava agir naturalmente. Minha tia tava sentada no sofá da sala assistindo alguma série aleatória quando levantou os olhos pra mim e imediatamente franziu a testa. — Maya Albuquerque… onde você pensa que vai usando esse vestido? Segurei a risada. — Dormir na casa da Bianca. Ela me encarou com a maior cara de “você acha que eu sou i****a?”. — Com essa roupa? — A gente vai sair antes, ué. Lorena soltou um suspiro cansado. — Eu prefiro nem perguntar pra onde. — Melhor mesmo. Peguei meu celular em cima da mesa enquanto ela levantava indo até mim. — Você vai passar o final de semana lá? Assenti. — Vou. Faz tempo que eu e a Bia não fazemos nada juntas. Ela ajeitou meu cabelo atrás da orelha num gesto automático que quase me fez lembrar da minha mãe. — Qualquer coisa me liga. Meu peito apertou fraquinho. — Tá bom. — E juízo. Quase ri alto. Se ela sonhasse metade do que eu tava indo fazer… — Boa noite, tia. — Boa noite, menina. Saí da mansão antes que minha consciência resolvesse aparecer. Entrei no elevador do prédio ajeitando o vestido no corpo enquanto meu reflexo no espelho parecia denunciar que eu tava aprontando alguma coisa. Quando as portas abriram no térreo, o porteiro abriu um sorriso simpático. — Boa noite, dona Maya. — Boa noite, seu Carlos. Ele olhou discretamente meu vestido vermelho provavelmente imaginando qual evento chique eu tava indo daquela vez. Mal sabia ele. Do lado de fora, Bianca já me esperava encostada no Uber. Assim que me viu, arregalou os olhos. — Caralhø, Maya… tu tá gostosa pra porrä. Comecei a rir. — Você também tá linda. Ela tava usando um vestido preto mais simples, mas ainda justo o suficiente pra chamar atenção. Entramos no carro rapidamente e ela soltou um suspiro. — Ainda bem que você ouviu minha ideia de ir de Uber. — Óbvio. A gente não ia subir favela de carro importado, né? Bianca começou a rir imediatamente. — Imagina tua BMW brilhando no meio do morro. — Minha tia descobriria em quinze minutos. O Uber começou a andar pelas ruas iluminadas do Rio enquanto meu coração acelerava cada vez mais. Porque dessa vez não tinha volta. Eu realmente tava indo pro baile do Complexo do Alemão. O caminho inteiro pareceu uma mistura de adrenalina com consciência pesada. Cada vez que o Uber avançava mais pela cidade, eu sentia que tava saindo completamente da minha realidade confortável e estranhamente… aquilo era bom. As luzes luxuosas da Zona Sul ficaram pra trás aos poucos, dando espaço pra ruas mais movimentadas, bares lotados e motos passando rápido pela gente. Bianca mexia no celular o tempo todo conversando com a menina que ia encontrar a gente. Enquanto isso eu observava tudo pela janela em silêncio. Até o carro diminuir a velocidade. O motorista olhou pelo retrovisor meio inseguro. — É aqui. Franzi a testa olhando pra frente. Mais acima dava pra ver a movimentação intensa, luzes piscando, moto subindo, gente andando pra todo lado e o som do baile ecoando de longe. Meu coração acelerou na mesma hora. — Você não sobe mais? — Bianca perguntou. O homem negou rapidamente. — Não, moça. Daqui pra cima eu não entro, não. O clima mudou um pouco dentro do carro. Nem ele parecia confortável ali. Bianca trocou um olhar rápido comigo antes de pegar a bolsa. — Tá… tudo bem. Paguei a corrida pelo celular enquanto tentava parecer tranquila. Mas quando saí do carro e a porta bateu atrás de mim foi diferente. O som alto. As motos. A movimentação. Os homens armados mais à frente. Tudo parecia muito mais real agora. O Uber saiu rápido dali praticamente no mesmo segundo. Engoli seco automaticamente. — Amiga… — falei baixo olhando em volta. Bianca segurou meu braço. — Relaxa. Não demonstra medo. Fácil pra ela falar. Ela puxou o celular desbloqueando rápido. — Vou ligar pra Renata vir buscar a gente. Assenti tentando agir naturalmente enquanto sentia vários olhares passando pela gente e talvez fosse impossível não olhar. Duas meninas claramente ricas, arrumadas demais e completamente fora daquele ambiente. Definitivamente a gente chamava atenção. Continua......
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