— Hoje você também foi muito gentil. Esses três dias sendo gentil, me fazem sentir que ganhei na loteria. A verdade é que é bom conhecer esse Marco. Aliás, ultimamente você parece meu anjo que me salva de tudo. Primeiro o trem, depois a delegacia e por último o de hoje. Agora só falta começarmos a conversar um pouco mais e poderemos ser amigos. Então vamos passo a passo, suavemente. Vamos nos ajeitando aos pouquinhos. Disse de forma divertida.
Marco parou em frente à minha casa.
— Você tem um péssimo gosto musical. Sério que você quer ser minha amiga? Ele disse em tom sarcástico. — Eu preferiria ser amigo do Freddy Krueger do que seu. Uma mina que se acredita ser santa. Você é tão falsa quanto Paloma e o seu grupo. Você fez a "eu não sou m*á" e abandonou as falsas, mas sabe que nunca deixou de ser uma delas. Diga a verdade, você está com aquela gorda da Daniela que a única coisa que faz é babar por aqueles idi*otas que não sabem nem cantar, a comedora de livros lixo da Micaela e a esquerdista barata da Aldana só para que você possa ser a que mais se destaque no seu grupo de subnormais. Você se faz de inocente, mas gosta que os meninos falem dos seus pe*itos e da sua bu*nda, por isso anda histérica com todo mundo. Então, "Hope", pode ter certeza que eu não quero ser amigo de uma pu*ta como você.
Fiquei gelada com tudo o que ele me disse. Sabia que a qualquer momento ia começar a chorar. Então, contive as minhas lágrimas e me preparei para responder.
— Mas quem você pensa que é, seu pedaço de idi*ota?! Você não sabe nada sobre mim e proíbo você de falar m*al das minhas amigas. Não sei que po*rra te acontece com as mulheres, mas a mim você não vem falar assim. Eu estava muito brava e não ia ficar calada. — Você acha que somos lixo? E você se sente superior só por ter pên*is. Pois, olha só que não, pedaço de idi*ota. Porque o único me*rda é você que anda com os seus complexos. Você é um pu*to complexado. Se você quer se tornar mulher, por que não diz de uma vez por todas? Porque seguramente é isso que você quer, por isso nos odeia tanto. Realmente pensei que poderíamos ser amigos, mas agora percebo que não. Você não passa de um tipo triste que provavelmente só tem dinheiro. Com certeza nem seu pai te deve querer, por isso ele nunca foi a nenhuma reunião e está sempre "viajando". E para te compensar, ele te dá dinheiro. E sabe o quê? Não o culpo, quem ia querer ter um filho como você? Pu*to misógino. Saí do carro e bati a porta com força para fazer um barulho bem alto.
Marco arrancou e eu fiquei na calçada vendo-o se afastar. Abri a porta da minha casa e corri para o meu quarto com os olhos inundados de lágrimas. Joguei-me na minha cama e me preparei para chorar a plenos pulmões.
Devo ter estado chorando por uma hora. A verdade é que agora que estava mais calma me perguntava: por que as palavras dele me afetaram tanto? Acho que se devia à decepção que sentia, pois de uma forma ou de outra eu realmente queria ser amiga dele. Mas parece que, para o Marco, a minha amizade era uma mer*da. Agora que penso bem, era a primeira vez que eu chorava por um garoto. E o pior de tudo era que eu estava chorando por um gay. Entendem o quão louco isso soa? Mas isso nunca mais ia acontecer, eu nunca mais ia chorar por Marco. Aliás, com ele eu acabava de estrear a minha lista ne*gra. Nunca mais vou falar com aquele idi*ota.
Definitivamente, Murphy estava certo na sua outra lei: "Se algo parece estar indo bem, é óbvio que algo foi negligenciado". Eu ignorei que o Marco era um idi*ota.
— Não ia voltar a chorar por ele. Agora que me lembro dessa frase, rio. Realmente eu era muito ingênua naquela época. Bom, quem diria que a única coisa que eu faria daqui em diante seria chorar por ele.
Ah... querida Esperança, você não sabe quantas lágrimas te faltam.
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Estava escuro, mas sentia que os meus pés e mãos se moviam. Sabia que eu estava procurando algo naquela escuridão e, de repente, um sentimento de triunfo preencheu-me ao sentir que eu o havia encontrado. A luz voltou a iluminar os meus olhos e me deparei com o rosto de uma criança que me olha divertida.
— Já me pegou. Disse com um sorriso
— É que eu sou a melhor nesse jogo. Respondi orgulhosa.
Ouvimos a voz de alguém chamando-o. Notei como o medo percorria seu corpo.
— Parece que algo aconteceu. Disse com temor na voz. — Nos vemos depois. Despediu-se enquanto corria para a pessoa que o chamou, que estava no limiar do edifício em frente ao parquinho de areia.
Agora eu estava sozinha na caixa de areia. Não gostava de ficar sozinha, porque a tristeza me inunda ao lembrar o motivo pelo qual eu estava ali. Olhei para o grande edifício onde meu amigo acabou de entrar, e de onde entravam e saíam pessoas vestidas de branco. Tinha medo que me ligassem porque com certeza me diriam algo que eu não quero ouvir. Por isso, sentei-me na areia e apertei bem forte o meu urso de pelúcia.
De repente, o cenário mudou. Voltei a estar novamente na caixa de areia com a criança com quem eu brincava antes, mas desta vez eu estava abraçando-a.
Não chore mais. Te asseguro que não vai morrer. Disse-lhe, dando força a quem usava o meu ombro como lenço.
— Dizem que ele não vai acordar. Respondi com a voz entrecortada.
— Não se pode perder a fé, sempre é preciso ter esperança. Minha mãe sempre diz isso. Assegurei com um sorriso. — Você vai ver que ele vai se levantar.
A criança olhou para mim com os seus olhos vermelhos e um sorriso surgiu nos seus lábios pequenos. Isso me dava um pouco de paz, não gostava de vê-lo chorar.
Um novo cenário apresentou-se. Já não estava mais na caixa de areia, agora me encontro num quarto um pouco escuro, onde havia uma cama na qual uma pessoa dormia. Embora estivesse conectado a muitos aparelhos. Não conseguia ver a pessoa porque a cama dela era bem alta e eu era muito pequena. A única coisa que eu conseguia ver era como a criança que sempre me acompanhava pegava a sua mão com as suas pequenas mãozinhas e a apertava com força enquanto a suas lágrimas escorriam por seu rostinho. Um grito dilacerante era ouvido da sua voz infantil.
— Não me deixe, não vá. Pediu a criança inconsolável. — Vou me comportar bem, não vou mais quebrar as suas coisas. Mas não vá embora. Ele continuou a suplicar enquanto as suas lágrimas se impregnavam no dorso da mão da pessoa que estava na cama.
Sentia uma grande pressão no peito, eu também queria chorar. Sabia que não conhecia a pessoa que estava na cama, mas sinto um grande afeto por aquela criança que chorava segurando a sua mão. Coloquei o meu ursinho de pelúcia no rosto para que as minhas lágrimas secassem.
O cenário havia mudado novamente. Eu sabia que o motivo pelo qual eu estava naquele lugar havia terminado. Uma grande dor me invade. A pessoa por quem eu estava ali não estava mais.
— Meu vovô se foi. Comuniquei com tristeza ao meu amigo. — Não vou mais vir.
O menininho me olhava desiludido. Começou a olhar para o chão, fazendo com que a franja cobrisse os olhos.
— Não vou mais ter ninguém com quem brincar. Disse em tom triste.
Eu sabia que a pessoa por quem ele estava, ainda não tinha ido. Por isso, ele tem que continuar ficando. Ainda havia esperança
Minha mãe deu o nosso número para seus pais. Então, com certeza vamos nos encontrar para brincar. Assegurei a ele com um sorriso. — Mas por enquanto, para que você não se sinta sozinho. Toma o Toby. Abraça ele quando estiveres triste e quando nos virmos de novo você me devolve. Estendi as mãos com a minha pelúcia nelas em direção a ele.
Ele pegou e abraçou. Ele parecia um pouco feliz e eu, apesar da minha tristeza pela minha perda, também me sentia assim, já que o veria novamente. A criança aproximou-se mais de mim até ficar tão perto que pude sentir a sua respiração e, num movimento rápido, pousou os seus lábios nos meus. Fiquei petrificada com tal ato. O beijo que só durou três segundos acabou. E eu ainda não sabia o que dizer, vi o rosto da criança, que agora estava todo vermelho.
— Por favor, quando nos virmos de novo, seja minha namorada. Disse em tom muito baixo.
Ele não esperou nenhuma resposta minha e saiu correndo em direção ao prédio. Saí do meu atordoamento e gritei algo, mas não sabia o que era. A única coisa que eu sabia era que ele se virou e com um sorriso me disse POLO.