Notei que o simpático senhor tinha notado a minha presença, pois levantou o olhar e os nossos olhos se encontraram. Parecia também surpreso por eu ter chegado tarde. Depois, baixou o olhar para minha perna, fazendo com que os seus olhos se enchessem de preocupação. Eu também olhei para ela alarmada. E compreendi que era o estranho. A minha calça jeans estava manchada de sangue no joelho. A verdade é que eu não tinha percebido isso durante a viagem.
Fui para o outro extremo da fila de assentos de onde Marco estava. E quando me sentei, comecei a levantar a calça para poder ver a minha ferida. Ao chegar ao ponto, vi como o pequeno arranhão que eu achava que tinha era maior do que eu imaginava. Obviamente a dor era terrível. Comecei a procurar na minha mochila algum lenço para limpar o sangue. Estava tão imersa na minha busca que não notei que Marco estava na minha frente, até que ele falou.
— Será melhor você ir para a enfermaria, lá você poderá colocar um pouco de álcool. Disse ele com tom preocupado, fazendo com que eu levantasse o olhar para ele.
Marco Villalba, o gay misógino, estava preocupado comigo? A verdade é que este dia estava muito louco.
Concordei. Levantei-me a duras penas e comecei a mancar até a enfermaria que ficava no final do corredor. Inacreditavelmente, Marco estava me acompanhando na minha jornada. Embora ele não me oferecesse o ombro para me apoiar, talvez esta fosse a máxima gentileza que eu pudesse tirar do meu estranho companheiro.
Quando chegamos, vimos que a porta estava fechada.
Genial, agora vou ter que mancar de volta para a cadeira.
De repente, meu colega de trabalho ultimamente "amigável" foi em direção à porta, tirando o seu cartão que parecia black e, como nos filmes, abriu a porta com ele. Eu tinha tentado mil vezes fazer isso, quando era criança com os cartões do meu pai. Embora os resultados nunca tivessem sido os esperados e as consequências tivessem sido desastrosas. Marco me surpreendia cada dia mais, milionário e com habilidades de espião. Era o que se chama uma caixa de surpresas.
Ao entrar, acendeu a luz e foi direto para um armário.
— Sente-se na maca. Ordenou-me enquanto procurava algo.
O que você disser, seu simpático.
Segui a sua ordem e sentei-me. Quando voltou da despensa, trouxe consigo algodão, álcool e uma pinça. A verdade é que eu não tinha ideia para que servia a pinça, até que vi que depois de colocar álcool no algodão, ela pegava a pinça para segurar o algodão. Como a minha calça já estava levantada, ele se preparou para apertar o algodão no meu joelho. Obviamente solucei por causa do ardor e isso pareceu diverti-lo, até poderia jurar que vi um pequeno sorriso naqueles lábios. Definitivamente, a cena era de filme de ficção científica. Marco, meu companheiro de quatro anos que nunca tinha se dignado a falar comigo, agora estava cuidando da minha ferida. Tenho que admitir que o negócio da pinça me parecia estranho, ele poderia pegar o algodão com a mão. Capaz que ele não queria se sujar ou algo assim. Bom, como se eu tivesse alguma doença infecciosa. Quando ele terminou, colocou algumas gazes e esparadrapo na maca.
— Aqui está. Ponha isso. Disse ele. Embora ele mesmo pudesse fazer, já que estava tão gentil em me curar, mas suponho que com o que já havia feito era suficiente.
Peguei as gazes e a fita e coloquei no meu joelho sob o olhar do meu "enfermeiro". Quando terminei, desci da maca.
— Obrigada. Disse, colocando o melhor sorriso que tinha.
Marco me olhou sem expressão e, sem mais, saiu da enfermaria. Transformando o meu sorriso numa careta de incredulidade. Suspirei.
O que você esperava? Aquele garoto é estranho.
Saí da enfermaria e sentei-me onde tinha estado antes. Marco, fiel ao seu estilo, voltou à lei do silêncio comigo. E depois diziam que nós mulheres éramos complicadas. Quem entendia esse idi*ota?
O coordenador chegou e fez a chamada. E assim pudemos voltar para a nossa sala. Obviamente, Marco não me esperou e eu cheguei a duras penas a outra sala.
As aulas passaram normais, a prova não tinha sido difícil, pois era uma revisão dos temas já vistos no ano passado. Durante todo o dia fiquei na sala junto com minhas amigas, porque obviamente não conseguia me mover.
Ao terminar as aulas, tive que começar a me movimentar. Felizmente, eu ia voltar com a Aldana. Então eu teria um ombro para me apoiar até chegarmos ao ponto de ônibus. Quando já estávamos na esquina da escola, um carro parou, baixou os vidros e a cabeça de David saiu dele.
— Meninas, querem carona? Perguntou com um sorriso.
Aldana e eu ficamos atônitas ao vê-lo sair de lá. Mas ao olhar bem para o carro, pude identificar que era o do Marco, com a luz do dia ele parecia mais incrível.
— De onde você tirou esse carro? Perguntou Aldana surpresa.
David meteu a cabeça de volta no carro, revelando assim ao motorista que não era ninguém menos que Marco. Deixando assim Aldana pasmada.
— É do Marco. Vamos, venham, Hope deve estar com dor. Nós a levaremos para casa.
— Está tudo bem se entrarmos neste carro? Perguntou Aldana, olhando para Marco, que estava com o olhar fixo na frente.
— Marco disse que está tudo bem. Entrem rápido, não podemos ficar aqui por muito tempo. Respondeu David no seu lugar.
Aldana abriu a porta de trás e entramos no carro.
A viagem foi mais confortável do que da última vez, pois David, Aldana e eu conversávamos animadamente, enquanto Marco permanecia em silêncio enquanto dirigia. Igualmente, muitas perguntas me surgiram: David teria pedido a Marco para nos levar? David costumava ser distraído demais para perceber que eu estava ferida. E desde quando Marco vinha de carro para a escola? Não era que estivesse proibido, mas também não era algo bem visto. Aos 17 você pode ter carteira de motorista, mas na maioria das vezes não se costuma percorrer grandes distâncias. Além disso, estávamos numa escola pública, então essa coisa de ser Ricky Rico não combinava com a gente.
David e Aldana desceram na casa deles. Embora ela parecesse um pouco preocupada em me deixar com o Marco. A minha casa ficava a algumas quadras de distância, então não achei que haveria problemas. Além disso, se eu aparecesse morta, já saberiam quem era o culpado.
Voltamos a ficar sozinhos de novo. Então, preparei-me para voltar ao meu monólogo.