Os meus olhos começam a se abrir e vi como a luz iluminava o meu quarto. Sentei-me na minha cama, relembrando o sonho que acabei de ter. Bem, na verdade, não era nenhum sonho. Eram apenas lembranças de quando meu avô foi internado há doze anos. Naquela época eu tinha apenas cinco anos e costumava brincar com outra criança numa caixa de areia que havia no hospital. Não me lembro muito do rosto dela e também não me lembro do nome dela. Embora os meus sonhos sempre terminem quando ele gritava Polo. Então eu costumava chamá-lo assim. Eu tinha esses sonhos de vez em quando, mas ultimamente eles têm se tornado recorrentes.
Sempre me perguntei o que aconteceu com ele. A pessoa que estava naquela cama terá morrido? Eu tinha tentado me lembrar de quem era a pessoa pela qual a criança chorava, mas foi inútil. Também perguntei à minha mãe, mas devido à morte do meu avô, que era o pai dela, ela não se lembrava de nada além da sua dor. Então a minha busca tinha sido inútil. Embora isso nunca a tivesse impedido de pensar nele. Às vezes me pergunto: ele se lembrará de mim? Será que ele guardou o meu bichinho de pelúcia? Como ele será agora? Onde ele estará? Lembro que esperei que ele ligasse, mas isso nunca aconteceu. Suponho que foi a ilusão de uma menina ao ter " o seu primeiro amor".
Ariel não foi um bom primeiro namorado, por isso digo sempre a mim mesma que o meu primeiro namorado foi Polo. Eu tinha idealizado tanto aquela criança que às vezes pensava que a encontraria e ele seria o garoto perfeito, bonito, inteligente, esportivo e um cavalheiro.
Tudo ao contrário, de um certo id*iota que eu conhecia. Ah, meu Deus, de novo eu estava pensando nele. Não sabia o que estava acontecendo comigo ultimamente, antes nem percebia e agora sempre tinha isso em mente. Desde a nossa linda conversa já havia se passado uma semana. E como prometi, não lhe tinha mais dirigido a palavra. Mas, embora eu ne*gasse, os meus olhos sempre o procuravam. Eu o via até quando estava em casa. Ao entrar no f*******: ou no i********:, a primeira coisa que aparecia eram fotos dele. Não era que Marco tivesse alguma rede social, mas como eu era amiga de Luís no f*******: e o seguia no i********:, me deparava com fotos dele com Marco. Bom, para ser sincera, eram principalmente fotos do Marco. Luís tirava fotos dele o tempo todo e as postava, tinha fotos de quando ele estava jogando futebol, de quando estava com os amigos, de quando estava comendo, só faltava de quando ele estava tomando banho e toda a vida de Marco seria publicada na internet. E o pior de tudo isso eram os comentários que deixam para ele. "Lindo casal" "Que bom que seu namorado é bonito" "Viva o amor" "Boa, Luís". Não era que eu achasse ru*im eles serem namorados e tudo mais. Mas, era necessário publicar cada momento juntos? Ou melhor, era necessário que o Luís saísse com o Marco? Antes eu estava feliz porque o Luís conseguiu sair com o crush dele, mas agora... algo havia mudado. Suponho que deve ser porque o Luís me caía super bem, mas o Marco era outra história.
Levantei-me da minha cama para ir à sala tomar o meu café da manhã. Hoje era domingo, então eu tomaria café da manhã com meus irmãos. Hoje também tínhamos combinado com a avó de ir ao cemitério deixar flores para o avô.
Apesar da morte do marido, minha avó nunca se deixou consumir pela tristeza. Era uma senhora bastante ativa, gostava de viajar para todos os lados. No começo era terrível, minha mãe estava sempre nervosa procurando por ela até que a avó ligava para dizer onde ela estava desta vez. Lembro que ela desapareceu por duas semanas e a minha mãe já ia chamar a polícia até que ela ligou para ela, comunicando que estava em Cuba, aprendendo a dançar salsa. Minha mãe quase teve um ataque. Mas assim era minha avó, uma andarilha que ama a sua independência. Por isso, nunca quis viver conosco. Mas ela sempre estava nesses dias para comemorar o aniversário do seu amado marido. Então, depois do café da manhã, vamos encontrá-la para ir deixar flores para o vovô. A verdade é que eu devia ter deixado flores para ela na quarta-feira, mas a Ana não pôde ir por causa dos exames. Então tínhamos deixado para hoje.
Já na sala encontrei Ana, que estava esquentando água para o café. Ele virou-se e sorriu para mim.
— Bom dia. Cumprimentei
— Bom dia. Pegue as panquecas e coloque-as num prato. Disse-me enquanto tirava leite da geladeira para fazer um chocolate quente para o Manuel.
Dispus-me a fazê-lo e, enquanto fazia, quis ver se a minha irmã se lembrava de algo sobre Polo.
— Ana, você se lembra da criança com quem eu brincava quando o vovô estava internado? Perguntei como quem não quer nada.
— Sim eu me lembro. Você andava com ele para todo lado. As enfermeiras diziam que vocês eram namoradinhos. Respondeu divertida.
— Você se lembra do nome dele?
— A verdade é que não. A única coisa que me lembro é que eu vinha de uma família com dinheiro.
— Como você sabe disso?
— O parente por quem ele estava lá estava na sala VIP. Além disso, as suas babás sempre vinham vê-lo.
— E quem era esse parente?
— Não sei. Todos estávamos preocupados com o avô. Então não prestei tanta atenção na criança. Ela me olhou e me deu um sorriso. — O que acontece? Você quer se reencontrar com o seu velho amor? Não nos faria nada m*al se você se casasse com um milionário como ele. Disse divertida.
— É um comentário bastante machista. Respondi, olhando-a séria.
— Está te fazendo bastante m*al andar tanto tempo com a feminista. Disse rindo
A minha irmã não era fã do movimento feminista atual. Sempre costumava brigar com Aldana pelo extremismo que as militantes estavam tendo. Minha irmã era uma defensora fiel da vida e costumava discutir o tema do aborto com Aldana, que é proibido na Argentina, exceto em casos de estupro. Nessas discussões ninguém dava um passo atrás. Eu costumava ficar à margem de tudo isso. Não votaria a favor do aborto, mas também não votaria contra. A verdade era bastante neutra nisso.
Meu irmão interrompeu a nossa conversa quando chegou com o seu pijama de Dragon Ball na sala.
— O café da manhã já está pronto? Perguntou um pouco sonolento
— Bom dia, não? Respondeu minha irmã irritada
— Bom dia, o café da manhã já está pronto? Respondeu irritado.
— Sim, já está. Sente-se. Ordenou Ana.
Todos desfrutamos do nosso café da manhã e depois fomos tomar banho para sair em direção ao cemitério, onde nos encontraríamos com a vovó.