Episódio 9

1584 Palavras
Quando chegamos, nossa avó estava no limiar do enorme portão de grades. — Olá, meus filhos. Saudou enquanto nos abraçava a todos. Todos respondemos ao cumprimento e ao abraço. E nos dirigimos para dentro do lugar. Sinceramente, eu não era fã de ir, já que no lugar sentia um frio que penetrava nos ossos. A verdade é que estar no cemitério me fazia sentir triste. Paramos na lápide do nosso avô, na qual estava gravado "Antonio García 1945-2005" e mais abaixo podia-se ler " A vida é gentil, temos pouco tempo e só devemos desfrutá-la''. Meu avô era fanático por leitura e gostava muito das obras de Federico García Lorca. Por isso, antes de morrer, pediu que na sua lápide fosse colocada essa frase para que ninguém ficasse triste quando fossem visitá-lo. Nós o cumprimentamos e cada um foi contando algo novo sobre a sua vida. Quando terminamos, minha avó e minha irmã sentaram para continuar conversando com o avô. Eu peguei o Manuel, que já estava inquieto, e fui dar uma volta. Ao contrário da minha irmã, as lembranças que tenho do meu avô eram efêmeras e, obviamente, Manuel não tinha nenhuma, pois quando ele nasceu o meu avô já havia morrido. Mas todos os anos costumávamos fazer esta reunião com toda a família. Caminhamos por todo o cemitério e, como qualquer criança, Manuel ficou fascinado pelo terror e o que melhor do que estar num cemitério para ter uma "aventura". — Deveríamos fazer esta reunião à noite para ver os fantasmas. — Primeiro, o cemitério está fechado à noite e segundo, garanto que você não vai ver nenhum fantasma. Disse irritada. Meu irmão continuou com as suas ilusões de ver fantasmas durante todo o nosso passeio e eu continuei dando negativas aos seus sonhos. De repente, vi alguém que conhecia e que ultimamente estava muito presente nos meus pensamentos. Estava parado olhando uma lápide que era enorme ao lado de um cachorro. Peguei Manuel e me escondi num arbusto que estava ali. — O que está acontecendo? Você viu um fantasma? Perguntou meu irmão animado — Não. Uma coisa pi*or, o idi*ota do meu amigo da escola. Respondi, fazendo sinal para que ele abaixasse a voz. — Por que temos que nos esconder? Ele perguntou irritado — Tenho cem pesos no meu bolso, vou te dar se você ficar quieto. Manuel assentiu emocionado. Eu continuei olhando para o Marco, que estava de costas para mim, ele ficou muito tempo parado ali até que tocou na lápide e foi embora junto com o cachorro. Quando percebi que já estávamos longe, comecei a me aproximar do túmulo junto com o Manuel. Supunha que fosse o túmulo da sua mãe, já que ela era a única parente dele que sabia que estava morto. Mas tive uma surpresa ao ler a lápide, na qual estava gravado o nome de "Ezequiel Villalba 1988-2005". Continuei lendo e havia uma frase: "Me verás voar pela cidade da fúria, onde ninguém sabe de mim e eu sou parte de todos". Era uma frase da música "En la ciudad de la furia" do Soda Stereo. — Quem é Ezequiel Villalba? Perguntou Manuel lendo a lápide — Isso eu adoraria saber. Respondi Quem era Ezequiel Villalba? Devido ao sobrenome, era claro que ele era parente de Marco. Capaz era um primo ou... capaz um irmão. Embora soubéssemos que ele tinha um irmão. Parece que ele morreu muito jovem, só tinha 17 anos. O que será que aconteceu com ele? Esse foi o primeiro passo em direção à casa de tijolos de Marco. Talvez se a minha irmã não tivesse adiado a visita ao meu avô, talvez se não tivesse passeado com o Manuel ou talvez se apenas tivesse continuado caminhando ao ver o Marco. Não estaria sentindo tanta dor. ****** Já havia se passado uma semana desde que vi Marco no cemitério. E tinha que admitir que, se antes estava interessada, agora se poderia dizer que estava obcecada com o assunto. Passei toda esta última semana tentando ter um relacionamento melhor com David, só para conseguir informações sobre o Marco. Não que nos déssemos m*al, mas ele era apenas o namorado da minha amiga. Embora, infelizmente, o novo relacionamento com o namorado de Aldana não estivesse funcionando como eu queria. Então tive que tomar medidas drásticas e fui mais direta, já que parecia que David não ia dizer nada se eu não perguntasse diretamente. Só precisei ver a expressão dele ao perguntar se Marco tinha um irmão para saber se as minhas especulações eram verdadeiras. Sua expressão de espanto passou para tristeza e depois para raiva em menos de três segundos. E seu "Não" foi muito frio e seco, foi mais um "E a você o que importa?" tão distante de sua personalidade sorridente que até Aldana se assustou com a mudança repentina de humor do namorado. Mas em pouco tempo ele voltou ao seu humor de sempre. Obviamente, depois da resposta que David me deu, decidi não perguntar mais. Já tinha o suficiente com Marco na lista ne*gra, não queria também colocar David nela. Em conclusão, o tema era tabu. Mas o mais importante de tudo era que eu consegui obter informações e podia afirmar que Marco tinha tido um irmão chamado Ezequiel, que morreu aos 17 anos. Agora só resta saber do quê e o quebra-cabeça começaria a se montar. Obviamente eu sabia que era mórbido ficar investigando sobre os mortos dos meus colegas e ainda mais de um que nem sequer falava comigo, mas sentia que se soubesse um pouco mais poderia entender o Marco. Embora eu também me perguntasse: Por que dia*bos eu queria entender aquele idio*ta? O que eu ganho com isso? Mas, infelizmente, eu não podia responder nem uma nem outra pergunta. Só sabia que queria saber mais sobre ele, era a única coisa que tinha clara. Agora eu estava no quarto da Dani, deitada na cama dela, olhando para o teto, enquanto ela escrevia no computador, me contando sobre sua nova fanfic que ia publicar. Parece que sua obsessão por CNCO não tinha limites, esta já era sua terceira novela. — Dê sua opinião sobre esta ideia. Quero fazer uma história ambientada em um internato na Inglaterra, onde Erick chega como novo aluno e conhece Joel. Mas meu pobre Joel tem muitos traumas devido à sua infância triste, que Erick ajuda a superar. Ela me disse com tom de emoção. Tinha que aceitar que Daniela não era nada original com suas ideias. Embora bastasse colocar no título "Joel e Erick +18" para ter milhões de visualizações. — Você já esteve na Inglaterra alguma vez? — Não. Respondeu de má vontade. Daniela me conhece, eu não era daquelas que acreditam que a imaginação tem que voar sem escalas. — E por que você vai ambientá-lo em um lugar onde nunca esteve? — Porque os internatos estão sempre na Europa. Respondeu secamente — Aqui também tem internatos. — Alguma vez você já ouviu falar de algum? — Não, mas sei que existem. — Espero fazer isso na Inglaterra. E você não vai mudar minha ideia. Disse firmemente, esta não era a primeira vez que eu tentava tirá-la das nuvens. — Só digo que você deveria ambientá-lo em algum lugar que você conheça. Além disso. Acrescentei. — Inglaterra? O que eles fariam na Inglaterra? — Seus pais são ricos e os mandaram para aquele país. — Se nos basearmos na idiossincrasia latino-americana, os pais não costumam mandar seus filhos para internatos. — Esperanza, você poderia parar de me encher o saco? Disse em tom ameaçador. A verdade é que a conversa já estava divertida e eu estava colocando obstáculos para vê-la ficar brava. — Só digo que é preciso basear-se em coisas concretas. Você não pode sair escrevendo assim, de qualquer jeito. — Não posso? Veja como eu faço. Disse enquanto apertava com força os botões do teclado para que o som ficasse mais alto. — Além disso, isso de maiores de 18. Como se você soubesse muito sobre o assunto. E menos ainda entre relacionamentos de gays. — Não se preocupe, pesquisei sobre o assunto. Melhor dizendo, o Luís me contou um pouco. Ela respondeu — Luis te contou? Oh Deus, o Luís contou as coisas que ele faz com o Marco. Bem, Dani e Luís eram amigos porque sempre costumavam estar no mesmo fandom. Mas eu não sabia que eles eram tão ínti*mos a ponto de contar essas coisas um para o outro. Suponho que Marco seria o ativo porque era o mais dominante e dá para ver que Luís era o passivo. A verdade é que não consigo imaginar o Marco entregando o c*u. Bom, nunca se sabe, mas eu tinha certeza que o Marco não era desse tipo. Além disso, ... oh meu Deus, mas que dia*bos eu estava pensando? E o que me importava que o Marco fazia com o c*u dele? Já não bastava a minha obsessão pelo passado dele, agora tenho que me obcecar em saber se fizeram do c*u dele um vaso. Definitivamente, isso não me importava. Era algo muito ínti*mo entre eles e, além disso, eu não seria mais apenas mórbida, mas também uma pervertida. Não quero saber de nada. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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