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Marcela Barreto Narrando
Eu olho para a tela do computador pela quinta vez e continuo sem acreditar que aquela matéria realmente caiu nas minhas mãos.
O rosto de Eduardo Martins aparece no centro da página.
Trinta e dois anos.
Desaparecido há onze dias.
Nenhum corpo encontrado.
Nenhuma testemunha confiável.
Nenhuma explicação que consiga convencer a família.
O caso já tomou conta dos jornais, das redes sociais e dos programas policiais. Todo mundo tem uma teoria. Uns dizem que ele fugiu. Outros acreditam que foi sequestrado. Existem até pessoas afirmando que ele entrou no mundo do crime e acabou pagando o preço.
Eu não acredito em nenhuma dessas versões.
Não ainda.
Passo o dedo pelo touchpad e volto para a primeira matéria publicada sobre o desaparecimento.
— Você ainda está nisso?
Levanto os olhos.
Gleice está parada na porta da pequena sala que alugamos para trabalhar. Ela segura dois copos de café e me encara como se eu tivesse passado a noite inteira acordada.
Porque passei.
— Estou.
Ela entra e coloca um dos copos ao meu lado.
— Você está investigando esse caso há três dias.
— Quatro.
— Isso não melhora a situação.
Pego o café e dou um gole.
— Gleice, olha isso.
Giro o notebook na direção dela.
Ela se aproxima.
— De novo?
— Sim. Olha o horário.
Ela franze a testa.
— O quê?
Aponto para a tela.
— Eduardo saiu do trabalho às dezenove e quarenta e três. A câmera da rua registra ele entrando no carro. Até aí, tudo normal.
— E depois?
— Depois, o celular dele registra uma última localização.
— Onde?
Olho para ela.
— Cantagalo.
Gleice fica em silêncio.
É exatamente a reação que eu esperava.
— Marcela...
— Eu sei.
— Você está falando sério?
— Muito.
Ela puxa uma cadeira e senta ao meu lado.
— Você quer subir o Cantagalo por causa disso?
— Não quero subir por causa de uma localização.
— Então por quê?
Abro outra aba.
— Porque essa não foi a única coisa que encontrei.
Mostro algumas fotografias que consegui através de uma fonte.
— Uma testemunha disse que viu Eduardo entrando em um carro naquela noite. O carro não foi identificado. Mas olha a placa parcial.
Gleice observa.
— Não dá para ler.
— Não inteira. Mas os três últimos números aparecem.
Abro outra imagem.
— E um veículo com os mesmos números foi visto entrando no Cantagalo naquela noite.
Ela me encara.
— Você sabe que isso não significa que ele entrou lá.
— Eu sei.
— E também sabe que pode ser coincidência.
— Sei.
— E sabe que...
— Gleice.
Ela para.
— Eu sei de tudo isso.
Fecho o notebook por um instante.
— É justamente por isso que eu preciso ir.
Ela suspira.
— Nós somos recém-formadas.
— Eu sei.
— Não temos nome.
— Ainda.
— Não temos uma equipe de reportagem.
— Ainda.
— Não temos ninguém para cobrir nossa retaguarda.
— Também sei.
Ela cruza os braços.
— Você tem resposta para tudo?
Dou um sorriso pequeno.
— Não. Mas tenho vontade de trabalhar.
Ela revira os olhos.
— Você é impossível.
Eu rio.
É exatamente por isso que gosto dela.
Gleice é minha melhor amiga, minha parceira e, na maior parte do tempo, a pessoa responsável por tentar impedir que eu faça alguma besteira.
Mas ela sabe que eu não consigo deixar uma história pela metade.
Desde a faculdade é assim.
Enquanto todo mundo procurava pautas fáceis, eu queria entender o que existia por trás delas.
Agora que finalmente tenho meu diploma, não quero passar meses esperando alguém decidir que sou boa o suficiente para me dar uma oportunidade.
Quero criar minha própria oportunidade.
Abro novamente o computador.
— Eu vou até lá.
— Sozinha?
— Vou.
— Marcela...
— Não vou entrar no morro procurando confusão. Só preciso confirmar uma informação.
Gleice me encara durante alguns segundos.
— Você promete que, se perceber qualquer coisa estranha, vai embora?
— Prometo.
Ela aponta para mim.
— E mantém o celular ligado.
— Sim.
— E compartilha sua localização comigo.
Faço uma careta.
— Gleice...
— Marcela.
Respiro fundo.
— Está bem.
Ela sorri, satisfeita.
— Ótimo.
Volto para a tela.
No canto da página, a fotografia de Eduardo continua me encarando.
Um homem desaparecido.
Uma família esperando respostas.
Uma localização no Cantagalo.
E uma sequência de pistas que não parece coincidência.
Pego minha bolsa.
— Vamos.
Gleice arregala os olhos.
— Nós?
— Você não queria trabalhar comigo?
— Queria.
— Então vamos.
Ela pega a própria bolsa, ainda desconfiada.
— Só espero que essa matéria realmente valha a pena.
Olho para ela.
— Também espero.
Porque, naquele momento, eu ainda não faço ideia de que aquela investigação vai mudar completamente a minha vida.
Para mim, é apenas uma matéria.
Uma oportunidade.
Uma história que pode finalmente colocar meu nome em algum lugar.
Eu ainda não sei que estou caminhando direto para dentro do território de um homem que não costuma deixar testemunhas.