Carrasco Narrando
Meu nome é João Pedro. Mas quase ninguém me chama assim.
No Cantagalo, meu nome é Carrasco.
Tenho vinte e sete anos e sou o dono deste lugar. Não precisei herdar posição, sobrenome importante ou esperar alguém me entregar poder. Construí o meu nome do jeito mais difícil e aprendi cedo que, neste mundo, respeito não se pede.
Conquista-se.
Ou se impõe.
Estou sentado na cadeira atrás da minha mesa, observando o movimento pela janela aberta. Daqui de cima consigo enxergar boa parte do morro. Conheço essas ruas, essas vielas, cada caminho que leva para dentro e cada saída que alguém poderia tentar usar para escapar.
Gosto de saber onde estou pisando.
Gosto ainda mais de saber quem está pisando no meu território.
Meu celular vibra sobre a mesa.
Ignoro.
Ele vibra novamente.
Pego.
— Fala.
— Carrasco.
Reconheço a voz de um dos homens que trabalha comigo.
— O que foi?
— Deu problema lá embaixo.
Endireito o corpo.
— Que tipo de problema?
— Ainda não sei. Da Vasco está indo ver.
— Então espera ele chegar.
Desligo.
Não gosto de informação pela metade.
Principalmente quando envolve meu território.
Coloco o celular sobre a mesa e volto a olhar pela janela.
O Cantagalo está movimentado.
Gente passando, comércio funcionando, crianças correndo pelas ruas, motos subindo e descendo. É uma rotina que parece comum para quem olha de fora.
Para mim, cada movimento importa.
Aprendi isso cedo.
Também aprendi que confiança é uma coisa cara.
E eu não distribuo a minha.
Poucas pessoas têm minha confiança de verdade.
Uma delas é Otávio.
Da Vasco.
Meu sub.
Meu braço direito.
Ele tem vinte e oito anos, um ano a mais que eu, mas às vezes parece ter vivido dez anos a mais. É mais paciente, pensa antes de agir e costuma enxergar problemas onde eu ainda não estou procurando.
Também é um vascaíno doente.
Do tipo que consegue transformar qualquer conversa em discussão sobre futebol.
Eu já perdi a conta de quantas vezes mandei ele calar a boca por causa do Vasco.
Ele nunca cala.
Ouço duas batidas na porta.
— Entra.
Da Vasco aparece.
Camisa escura, boné e aquela expressão séria que ele usa quando alguma coisa está incomodando.
— Precisamos conversar.
— Senta.
Ele fecha a porta atrás de si e vem até a mesa.
— Descobrimos mais uma coisa.
— Sobre o quê?
Ele coloca o celular sobre a mesa.
— O caso do Eduardo.
Olho para ele.
— O desaparecido?
— Esse mesmo.
Não digo nada.
Esse nome já circula há dias.
A imprensa fala.
A polícia fala.
A família fala.
E agora ele está chegando até mim de uma forma que não me agrada.
— O que tem ele?
Da Vasco apoia as duas mãos na mesa.
— Estão tentando jogar a culpa no Cantagalo.
Minha mandíbula trava.
— Eu sei.
— Não. Agora temos certeza.
Pego o celular dele.
Há algumas imagens.
Fotografias.
Horários.
Placas.
Informações que, isoladamente, não significam muita coisa.
Juntas, começam a formar uma história.
Uma história conveniente demais.
— Quem está fazendo isso?
— Ainda não sabemos.
Levanto os olhos.
— E você acha que é alguém de dentro.
— Não acho.
Ele faz uma pausa.
— Tenho quase certeza.
Coloco o celular sobre a mesa.
— Quase?
— Ainda falta uma peça.
— Qual?
— Descobrir quem está passando as informações.
Fico em silêncio.
Não gosto dessa situação.
Inimigo de fora eu conheço.
Traidor de dentro é diferente.
Quem está de fora precisa encontrar uma brecha.
Quem está dentro já sabe onde ela existe.
— Quantos chefes estão envolvidos nisso?
— Ainda não sabemos.
— Quero saber.
— Estou correndo atrás.
— Corra mais rápido.
Da Vasco solta uma risada curta.
— Você está paciente hoje.
— Não estou.
— Percebi.
Ele pega o celular novamente.
— Tem outra coisa.
— Fala.
— Uma jornalista começou a fazer perguntas sobre o desaparecimento.
Franzo a testa.
— Jornalista?
— Marcela Barreto.
O nome não significa nada para mim.
— Quem é?
— Recém-formada. Vinte e um anos. Está começando agora. Pelo que conseguimos levantar, está tentando ganhar espaço fazendo matéria investigativa.
— E o que ela quer?
— O mesmo que todo mundo.
— Resposta?
— Aparentemente.
Levanto-me.
Caminho até a janela.
— Ela esteve aqui?
— Ainda não.
Olho para baixo.
— Então não quero problema.
— Também não quero.
— Descobre quem está alimentando essa mulher com informação.
Da Vasco fica alguns segundos em silêncio.
— E se ela vier?
Viro o rosto na direção dele.
— Aí a gente conversa.
Ele assente.
É assim que funciona entre nós.
Eu não preciso explicar tudo.
Ele entende.
Da Vasco se levanta.
— Vou resolver.
— Otávio.
Ele para na porta.
— Sim?
— Descobre quem está por trás dessas provas.
Ele me encara.
— Vou descobrir.
A porta fecha.
Fico sozinho novamente.
Pego um cigarro, mas não acendo.
Apenas seguro entre os dedos enquanto penso.
Eduardo desaparece.
As evidências começam a apontar para o meu território.
Uma jornalista aparece fazendo perguntas.
E alguém dentro da própria estrutura está movimentando peças sem que eu saiba.
Não gosto disso.
Não gosto nem um pouco.
Meu celular vibra.
Dessa vez, atendo imediatamente.
— Fala.
— Carrasco, chegou uma informação.
— Manda.
— A jornalista está subindo.
Meu olhar endurece.
— Quem?
— Marcela Barreto.
Fico parado.
— Tem certeza?
— Tenho.
Desligo.
Olho novamente pela janela.
Lá embaixo, o movimento continua.
Mas agora minha atenção está em outra coisa.
Uma jornalista está entrando no meu território.
E eu quero saber exatamente por quê.