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933 Palavras
Carrasco Narrando Meu nome é João Pedro. Mas quase ninguém me chama assim. No Cantagalo, meu nome é Carrasco. Tenho vinte e sete anos e sou o dono deste lugar. Não precisei herdar posição, sobrenome importante ou esperar alguém me entregar poder. Construí o meu nome do jeito mais difícil e aprendi cedo que, neste mundo, respeito não se pede. Conquista-se. Ou se impõe. Estou sentado na cadeira atrás da minha mesa, observando o movimento pela janela aberta. Daqui de cima consigo enxergar boa parte do morro. Conheço essas ruas, essas vielas, cada caminho que leva para dentro e cada saída que alguém poderia tentar usar para escapar. Gosto de saber onde estou pisando. Gosto ainda mais de saber quem está pisando no meu território. Meu celular vibra sobre a mesa. Ignoro. Ele vibra novamente. Pego. — Fala. — Carrasco. Reconheço a voz de um dos homens que trabalha comigo. — O que foi? — Deu problema lá embaixo. Endireito o corpo. — Que tipo de problema? — Ainda não sei. Da Vasco está indo ver. — Então espera ele chegar. Desligo. Não gosto de informação pela metade. Principalmente quando envolve meu território. Coloco o celular sobre a mesa e volto a olhar pela janela. O Cantagalo está movimentado. Gente passando, comércio funcionando, crianças correndo pelas ruas, motos subindo e descendo. É uma rotina que parece comum para quem olha de fora. Para mim, cada movimento importa. Aprendi isso cedo. Também aprendi que confiança é uma coisa cara. E eu não distribuo a minha. Poucas pessoas têm minha confiança de verdade. Uma delas é Otávio. Da Vasco. Meu sub. Meu braço direito. Ele tem vinte e oito anos, um ano a mais que eu, mas às vezes parece ter vivido dez anos a mais. É mais paciente, pensa antes de agir e costuma enxergar problemas onde eu ainda não estou procurando. Também é um vascaíno doente. Do tipo que consegue transformar qualquer conversa em discussão sobre futebol. Eu já perdi a conta de quantas vezes mandei ele calar a boca por causa do Vasco. Ele nunca cala. Ouço duas batidas na porta. — Entra. Da Vasco aparece. Camisa escura, boné e aquela expressão séria que ele usa quando alguma coisa está incomodando. — Precisamos conversar. — Senta. Ele fecha a porta atrás de si e vem até a mesa. — Descobrimos mais uma coisa. — Sobre o quê? Ele coloca o celular sobre a mesa. — O caso do Eduardo. Olho para ele. — O desaparecido? — Esse mesmo. Não digo nada. Esse nome já circula há dias. A imprensa fala. A polícia fala. A família fala. E agora ele está chegando até mim de uma forma que não me agrada. — O que tem ele? Da Vasco apoia as duas mãos na mesa. — Estão tentando jogar a culpa no Cantagalo. Minha mandíbula trava. — Eu sei. — Não. Agora temos certeza. Pego o celular dele. Há algumas imagens. Fotografias. Horários. Placas. Informações que, isoladamente, não significam muita coisa. Juntas, começam a formar uma história. Uma história conveniente demais. — Quem está fazendo isso? — Ainda não sabemos. Levanto os olhos. — E você acha que é alguém de dentro. — Não acho. Ele faz uma pausa. — Tenho quase certeza. Coloco o celular sobre a mesa. — Quase? — Ainda falta uma peça. — Qual? — Descobrir quem está passando as informações. Fico em silêncio. Não gosto dessa situação. Inimigo de fora eu conheço. Traidor de dentro é diferente. Quem está de fora precisa encontrar uma brecha. Quem está dentro já sabe onde ela existe. — Quantos chefes estão envolvidos nisso? — Ainda não sabemos. — Quero saber. — Estou correndo atrás. — Corra mais rápido. Da Vasco solta uma risada curta. — Você está paciente hoje. — Não estou. — Percebi. Ele pega o celular novamente. — Tem outra coisa. — Fala. — Uma jornalista começou a fazer perguntas sobre o desaparecimento. Franzo a testa. — Jornalista? — Marcela Barreto. O nome não significa nada para mim. — Quem é? — Recém-formada. Vinte e um anos. Está começando agora. Pelo que conseguimos levantar, está tentando ganhar espaço fazendo matéria investigativa. — E o que ela quer? — O mesmo que todo mundo. — Resposta? — Aparentemente. Levanto-me. Caminho até a janela. — Ela esteve aqui? — Ainda não. Olho para baixo. — Então não quero problema. — Também não quero. — Descobre quem está alimentando essa mulher com informação. Da Vasco fica alguns segundos em silêncio. — E se ela vier? Viro o rosto na direção dele. — Aí a gente conversa. Ele assente. É assim que funciona entre nós. Eu não preciso explicar tudo. Ele entende. Da Vasco se levanta. — Vou resolver. — Otávio. Ele para na porta. — Sim? — Descobre quem está por trás dessas provas. Ele me encara. — Vou descobrir. A porta fecha. Fico sozinho novamente. Pego um cigarro, mas não acendo. Apenas seguro entre os dedos enquanto penso. Eduardo desaparece. As evidências começam a apontar para o meu território. Uma jornalista aparece fazendo perguntas. E alguém dentro da própria estrutura está movimentando peças sem que eu saiba. Não gosto disso. Não gosto nem um pouco. Meu celular vibra. Dessa vez, atendo imediatamente. — Fala. — Carrasco, chegou uma informação. — Manda. — A jornalista está subindo. Meu olhar endurece. — Quem? — Marcela Barreto. Fico parado. — Tem certeza? — Tenho. Desligo. Olho novamente pela janela. Lá embaixo, o movimento continua. Mas agora minha atenção está em outra coisa. Uma jornalista está entrando no meu território. E eu quero saber exatamente por quê.
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