Marcela Narrando
Eu confiro o endereço pela terceira vez antes de guardar o celular na bolsa.
Cantagalo.
É ali que as últimas pistas sobre o desaparecimento de Eduardo Martins parecem terminar.
Não gosto de trabalhar com suposições. Aprendi na faculdade que uma boa matéria precisa de fatos, documentos e fontes. Mas também aprendi que, às vezes, a primeira porta que se abre para uma investigação é justamente aquela que todo mundo aconselha você a não atravessar.
E, naquele momento, eu estou prestes a atravessar uma.
Gleice está ao meu lado, olhando pela janela do carro.
— Você ainda pode desistir.
— Você fala isso desde que saímos.
— Porque ainda dá tempo.
Olho para ela e sorrio.
— Você está com medo?
— Eu? Não.
Ergo uma sobrancelha.
— Está sim.
— Estou preocupada.
— É diferente?
— Muito.
Dou uma risada.
Ela me olha de lado.
— Você acha graça de tudo.
— Se eu não rir, eu fico nervosa.
— Você já está nervosa?
Olho novamente para o telefone.
— Um pouco.
Ela sorri.
— Pelo menos admite.
Eu respiro fundo.
Antes de sair de casa, fiz questão de tentar fazer tudo da maneira correta.
Não queria simplesmente aparecer no Cantagalo com uma câmera, um bloco de anotações e perguntas sobre um homem desaparecido. Eu sabia que isso poderia ser interpretado da pior maneira possível.
Por isso, ontem à tarde, liguei para a associação de moradores.
Expliquei quem eu era.
Disse que tinha acabado de me formar em Jornalismo e que estava realizando uma apuração independente sobre o desaparecimento de Eduardo Martins.
Expliquei que precisava conversar com moradores e verificar algumas informações relacionadas à última localização conhecida do celular dele.
Não entrei em detalhes sobre todas as suspeitas.
Também não disse que algumas pistas pareciam apontar diretamente para o território comandado por Carrasco.
A pessoa que me atendeu perguntou meu nome, o nome do veículo para o qual eu trabalhava e quanto tempo eu pretendia permanecer no local.
Quando expliquei que trabalhava de forma independente, houve um pequeno silêncio.
Depois, disseram que eu poderia subir, desde que respeitasse os moradores e não fotografasse ninguém sem autorização.
Eu aceitei.
Também deixei meu número de telefone.
Foi uma decisão profissional.
Pelo menos, foi o que pensei.
Meu erro foi acreditar que essa ligação ficaria apenas entre mim e a associação.
Não ficou.
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— Chegamos — Gleice diz.
Olho para frente.
A entrada da comunidade está movimentada.
Pessoas passando, motos, carros, comércio, moradores seguindo suas rotinas.
Nada daquilo se parece exatamente com a imagem que muitas vezes aparece na televisão.
É um lugar vivo.
Cheio de gente.
Cheio de histórias.
E talvez seja justamente isso que mais me incomoda.
Eu estou entrando ali atrás de uma história específica, mas sei que existem centenas de outras acontecendo ao meu redor.
Pego minha bolsa.
— Vamos?
Gleice segura meu braço antes que eu abra a porta.
— Marcela.
— O quê?
— Se alguma coisa parecer errada...
— Eu vou embora.
— Promete?
— Prometo.
Ela me solta.
Descemos.
O calor me atinge imediatamente.
Ajeito os óculos no rosto e observo tudo com atenção.
Não quero parecer perdida.
Muito menos assustada.
Gleice pega o celular e abre a mensagem que recebeu da associação.
— Disseram para procurar um rapaz chamado Nando.
— Ele vai nos acompanhar?
— Foi o que disseram.
Olho ao redor.
— Então vamos procurar.
Caminhamos alguns metros.
Eu tento memorizar os lugares por onde passamos.
Uma padaria.
Uma pequena loja.
Uma rua estreita que sobe.
Algumas crianças brincando.
Um homem sentado em frente a um comércio.
Tudo parece normal.
Mas meu corpo continua em alerta.
Não porque alguém esteja nos ameaçando.
É apenas a sensação de estar entrando em um lugar onde eu não conheço as regras.
— Ali — Gleice aponta.
Um rapaz se aproxima.
— Marcela?
— Sou eu.
— Nando.
Ele aperta minha mão.
— A associação falou que vocês viriam.
Sorrio.
— Obrigada por nos receber.
— Vocês vão fazer a matéria sobre o rapaz desaparecido?
— Sim.
Ele olha rapidamente para Gleice.
Depois para mim.
— O Eduardo?
— Isso.
Nando fica alguns segundos em silêncio.
— Muita gente está falando disso.
— Eu sei.
— Mas não é bom sair perguntando para qualquer pessoa.
Anoto mentalmente a frase.
— Por quê?
Ele dá de ombros.
— Tem coisa que o povo não gosta de comentar.
— Eu respeito isso.
Ele me encara.
— Então talvez vocês consigam trabalhar tranquilas.
Talvez.
Não gosto da palavra.
Mas não insisto.
Seguimos.
Nando nos leva por algumas ruas enquanto explico o que preciso descobrir.
Pergunto sobre Eduardo.
Se alguém o conhecia.
Se ele já tinha sido visto naquela região.
Se alguém se lembra de um carro parecido com o descrito pela polícia.
Ele responde pouco.
Mas não parece estar escondendo algo.
Parece apenas não querer se envolver.
Depois de alguns minutos, agradeço e digo que podemos continuar sozinhas.
Nando hesita.
— Tem certeza?
— Sim.
— Se precisarem, podem procurar a associação.
— Obrigada.
Ele vai embora.
Gleice espera alguns segundos antes de falar.
— Ele sabe de alguma coisa.
— Também acho.
— Você percebeu?
— A maneira como ele evitou algumas perguntas.
Ela concorda.
Continuamos andando.
Eu tiro algumas fotografias apenas de locais vazios, sem registrar rostos.
Meu objetivo não é transformar moradores em personagens da matéria.
Quero encontrar Eduardo.
Ou pelo menos descobrir o que aconteceu com ele.
Chegamos a uma rua mais afastada.
Confiro novamente as informações no celular.
— É aqui.
— Tem certeza?
— A última localização registrada estava próxima dessa região.
Olho ao redor.
— O celular dele ficou registrado aqui por quase nove minutos.
Gleice se aproxima.
— Nove minutos não é muita coisa.
— Para alguém que desapareceu logo depois, é.
Continuo andando.
Encontramos um pequeno beco.
Entro alguns metros.
Há uma parede com marcas antigas, algumas portas e uma escadaria que leva para outra parte da comunidade.
Nada parece fora do normal.
Até que vejo algo no chão.
Um pequeno pedaço de plástico preto.
Abaixo-me.
Pego com cuidado.
— O que é? — Gleice pergunta.
Olho.
— Não sei.
Guardo em um saco plástico que trouxe para a investigação.
Ela sorri.
— Você veio preparada.
— Jornalista precisa estar preparada.
— Você parece uma detetive.
— Não exagera.
Ela ri.
Continuamos.
O celular vibra no meu bolso.
É uma mensagem de uma fonte.
Abro.
“Procure pela oficina abandonada perto da parte alta. O carro pode ter passado por lá.”
Meu coração acelera.
Mostro a mensagem para Gleice.
— Você conhece essa oficina?
Ela balança a cabeça.
— Não.
— Então vamos descobrir.
Subimos mais alguns metros.
O movimento começa a diminuir.
As vozes ficam mais distantes.
Gleice olha para trás.
— Acho que estamos indo longe demais.
— Só mais um pouco.
— Você sempre diz isso.
Sorrio.
— E quase sempre funciona.
Ela revira os olhos.
Continuamos.
Até que escutamos vozes.
Paro imediatamente.
Gleice também.
As vozes vêm de uma área mais à frente.
Mas não conseguimos entender o que estão dizendo.
Faço sinal para ela ficar quieta.
Caminhamos devagar.
Existe uma construção parcialmente escondida por um muro.
Duas vozes masculinas vêm de dentro.
Uma delas é grave.
A outra, mais baixa.
Eu não consigo ver quem está falando.
Gleice segura meu braço.
— Marcela...
Coloco o dedo diante dos lábios.
Não sei por quê, mas alguma coisa naquela conversa me faz parar.
Talvez seja a sensação de que finalmente encontramos alguma coisa.
Talvez seja apenas a curiosidade.
Dou mais um passo.
E então escuto claramente:
— Não foi coincidência. Alguém entregou nossas informações.
Meu coração dispara.
Olho para Gleice.
Ela também ouviu.
Ficamos imóveis.
A voz grave responde:
— Eu sei.
Não conheço aquele homem.
Mas alguma coisa na maneira como ele fala faz meu corpo inteiro ficar em alerta.
Aperto o celular na mão.
E continuo ouvindo.