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1084 Palavras
Carrasco Narrando Saio da sala primeiro. Não olho para trás. Se olhar, sei que vou encontrar Marcela parada no mesmo lugar, provavelmente me encarando com aquela mistura de medo e ódio que ela parece ter decidido carregar desde que entrou no Cantagalo. E eu não preciso disso agora. Tenho coisa demais na cabeça. Desço pelo corredor enquanto escuto os passos dela alguns metros atrás. Ela não fala. Eu também não. Dois homens nos acompanham de longe, mas faço um sinal para que parem. — Daqui, não. Eles entendem. Não quero uma fila de homens atrás de nós. Se Marcela vai ficar na minha casa, pelo menos não vou fazer parecer que estou levando uma prisioneira para uma cela. Ela já sabe que está presa. Não preciso esfregar isso na cara dela a cada segundo. Chego à área externa e paro. Marcela também para. Olho para ela. Os olhos ainda estão vermelhos. Ela tenta limpar o rosto discretamente, como se tivesse vergonha de eu perceber que estava chorando. Não digo nada. Ela cruza os braços. — Você disse que eu vou para sua casa. — Disse. — E se eu não quiser? — Você vai mesmo assim. Ela solta o ar com irritação. — Claro. — Não começa. — Eu nem falei nada. — Seu rosto falou. Ela me encara. Por um segundo, quase vejo a vontade de me responder. Mas ela segura. Talvez esteja cansada. Talvez esteja com medo. Talvez simplesmente tenha percebido que discutir comigo não vai fazer a situação mudar. — Eu quero saber uma coisa. — Fala. — Minha amiga conseguiu sair? Observo o rosto dela. Não sei se devo contar. Da Vasco ainda está procurando. Ele me disse que encontraram uma pista, mas não sabemos onde Gleice está. — Não sei. Ela fecha os olhos por um instante. — Você sabe que ela conseguiu fugir. — Eu disse que não sei onde ela está. — Mas ela saiu? Não respondo. Marcela me encara. — Você sabe. — Marcela... — Ela conseguiu sair, não conseguiu? Respiro fundo. — Aparentemente, sim. Os ombros dela relaxam um pouco. É mínimo. Quase imperceptível. Mas eu vejo. Ela respira melhor. — Graças a Deus. Desvio o olhar. — Vamos. Ela começa a andar. Dessa vez, não preciso mandar. Seguimos por algumas ruas até o carro. Quando chego perto, abro a porta do passageiro. Marcela para. Olha para o carro. Depois para mim. — Eu vou com você? — Vai. — E se eu tentar fugir? — Você não vai chegar muito longe. Ela fica em silêncio. — Isso deveria me tranquilizar? — Não. Ela entra. Fecho a porta. Dou a volta e entro do outro lado. Por alguns segundos, nenhum de nós fala. Ligo o carro. O motor desperta. Saio devagar. Marcela olha pela janela. Ela observa tudo. As ruas. As pessoas. Os becos ficando para trás. Não sei se está tentando memorizar o caminho. Provavelmente está. — Não adianta. Ela vira o rosto. — O quê? — Tentar decorar o caminho. — Eu não estava. — Estava. Ela volta a olhar para a janela. — Você acha que eu sou i****a? — Não. — Então por que fala comigo assim? Olho rapidamente para ela. — Porque você tenta fazer as coisas sem pensar no que pode acontecer depois. Ela ri sem humor. — Engraçado ouvir isso de você. — Por quê? — Você sequestrou uma jornalista. Fico em silêncio. Ela continua: — Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar sobre decisões ruins, mas... — Mas? — Acho que nós dois estamos fazendo escolhas questionáveis hoje. Quase sorrio. Quase. — Talvez. Ela me olha. Parece surpresa por eu ter concordado. Volta a olhar para a janela. O silêncio retorna. A comunidade passa do lado de fora. E eu tento me concentrar no caminho. Não consigo. Minha cabeça insiste em voltar para o momento em que ela caiu. O empurrão. O choro. A maneira como ela se encolheu. Eu aperto o volante. Não gosto de lembrar. Não porque tenha medo de ter machucado ela. Eu sei que não foi isso. Mas porque aquela reação dela despertou alguma coisa em mim que eu não queria sentir. Culpa. Não. Não chega a ser culpa. Talvez incômodo. Talvez arrependimento. Não sei. E não quero descobrir. — Por que você fez aquilo? — ela pergunta de repente. Meu olhar continua no caminho. — Aquilo o quê? — Me empurrar. Silêncio. — Eu estava te batendo. — Eu sei. — Então... — Eu perdi a cabeça. Ela me olha. — Você admite? — Não tenho motivo para mentir. Ela baixa os olhos. — Você me assusta. A frase é baixa. Quase um sussurro. Eu não respondo. Porque qualquer resposta que eu dê vai ser inútil. Ela tem motivos para sentir medo. Eu sou um homem que ela acabou de conhecer. Um homem que a mantém contra a vontade dela. Um homem que acabou de empurrá-la. Não existe explicação capaz de apagar isso. Depois de alguns minutos, ela pergunta: — Quanto tempo eu vou ficar na sua casa? — Até eu descobrir quem está por trás disso. — E se você nunca descobrir? — Vou descobrir. — E se não descobrir? Olho para ela. — Não penso nessa possibilidade. Ela suspira. — Você sempre fala assim? — Assim como? — Como se tivesse certeza de tudo. — Não tenho certeza de tudo. — Parece. — Eu só não gosto de demonstrar dúvida. Ela fica quieta. Talvez pela primeira vez consiga entender alguma coisa sobre mim. Não que isso faça diferença. Chegamos a uma parte mais tranquila. A casa fica em uma área mais reservada do território. Não é luxuosa. Não preciso de luxo. É grande o suficiente para eu ter espaço, mas simples o bastante para não chamar atenção. Quando estaciono, Marcela olha pela janela. — É aqui? — É. Desligo o motor. Ela não se mexe. — O quê? — Nada. — Então desce. Ela abre a porta. Sai. Eu também. Fecho o carro. Marcela observa a casa. Ela parece surpresa. Talvez esperasse alguma coisa completamente diferente. Abro o portão. — Entra. Ela hesita. — Você não vai fazer nada comigo? Paro. Olho para ela. — Não. Ela parece não acreditar. — Eu estou falando sério. — Eu também. — Então por que eu deveria confiar em você? — Não deveria. Ela me encara. — Ótimo. — Você não precisa confiar em mim. Abro a porta. — Só precisa entender as regras. Ela entra. Eu entro logo depois.
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