Fecho a porta.
O silêncio da casa é diferente do silêncio do morro.
Mais fechado.
Mais particular.
Mais perigoso, talvez.
Porque aqui não existem dezenas de pessoas circulando.
Aqui, ela está comigo.
E ela sabe disso.
— O quarto é no corredor à esquerda.
Ela olha.
— Eu posso ficar lá?
— Pode.
— E posso fechar a porta?
— Pode.
Ela parece surpresa novamente.
— E ninguém vai entrar?
— Ninguém.
— Nem você?
Olho para ela.
— Nem eu.
Ela respira fundo.
— Obrigada.
A palavra sai tão baixa que quase não escuto.
Faço apenas um gesto com a cabeça.
Ela começa a andar.
Antes que chegue ao corredor, eu falo:
— Marcela.
Ela para.
— O quê?
— Se precisar de alguma coisa, chama.
Ela fica me olhando.
— Você realmente acha que eu vou pedir alguma coisa para você?
— Não.
— Então por que falou?
— Porque é melhor você saber.
Ela não responde.
Entra no quarto.
A porta se fecha.
Fico sozinho na sala.
Olho para a porta por alguns segundos.
Depois vou até o sofá e me sento.
Passo as mãos pelo rosto.
Minha casa está diferente.
Não sei explicar.
Talvez seja apenas a presença dela.
Talvez seja o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguém dentro daquele espaço que não pertence à minha rotina.
Eu sempre gostei de silêncio.
Agora o silêncio parece estranho.
Meu celular vibra.
Olho.
É uma mensagem do Da Vasco.
“Ainda procurando. Temos uma pista do caminho que Gleice tomou.”
Respondo:
“Descobre onde ela foi.”
Ele visualiza.
Alguns segundos depois:
“Pode deixar.”
Guardo o celular.
Olho novamente para o corredor.
Marcela está atrás daquela porta.
A jornalista que entrou no Cantagalo seguindo pistas que podem ter sido plantadas.
A testemunha que ouviu uma conversa que não deveria.
A mulher que agora está dentro da minha casa.
Eu deveria pensar nela apenas como um problema.
É isso que ela é.
Um problema.
Uma peça que apareceu no momento errado.
No lugar errado.
E que eu preciso manter sob controle até entender o jogo.
Só que, quando lembro do rosto dela chorando no chão, aquela sensação volta.
A mesma coisa que me fez parar.
A mesma coisa que me fez pensar duas vezes.
Eu fecho os olhos.
— Não.
Falo sozinho.
Não vou começar com isso.
Não vou sentir pena.
Não vou criar vínculo.
Não vou transformar uma prisioneira em responsabilidade emocional.
Ela está aqui porque precisa estar.
E vai embora quando eu descobrir a verdade.
É simples.
Tem que ser.
Levanto e vou até a cozinha.
Abro a geladeira.
Pego uma garrafa de água.
Bebo alguns goles.
Quando fecho a porta, escuto um barulho no corredor.
Olho para lá.
Marcela aparece na porta.
Ela está segurando os próprios braços.
— O que foi?
Ela hesita.
— Nada.
Franzo a testa.
— Então por que saiu do quarto?
— Eu só queria água.
Aponto para a garrafa sobre a bancada.
— Tem ali.
Ela pega.
Bebe alguns goles pequenos.
Depois devolve.
— Só isso?
— Só.
Observo o rosto dela.
Está pálida.
Mais do que antes.
— Você comeu alguma coisa hoje?
Ela desvia o olhar.
— Não estou com fome.
— Não foi isso que perguntei.
Ela fica em silêncio.
— Marcela.
— Eu não quero comer.
Cruzo os braços.
— Você precisa comer.
— Não consigo.
— Consegue.
— Não.
Ela fala baixo, mas não parece disposta a discutir.
Pego um prato.
— Senta.
Ela olha para mim.
— Eu não quero.
— Não estou perguntando se quer.
— E eu estou dizendo que não quero.
O tom dela muda.
Ainda existe medo, mas agora tem irritação também.
Talvez seja bom.
Pelo menos está reagindo.
Coloco o prato sobre a mesa.
— Você pode me odiar o quanto quiser. Mas vai comer.
Ela olha para o prato e depois para mim.
— Não quero comer nada que venha de você.
A frase me atinge de um jeito estranho.
Não demonstro.
— Então pensa que veio da cozinha.
Ela quase revira os olhos.
— Dá na mesma.
— Não.
Ela fica parada.
— Vai para o quarto.
Ela volta.
Eu fico na cozinha.
Olho para o prato.
Ela realmente não vai comer.
Pego o celular.
Tenho outras coisas para resolver.
Não posso ficar preocupado com uma mulher que decidiu fazer greve de fome porque está irritada comigo.
Não é problema meu.
Não deveria ser.
---
Passam algumas horas.
A casa permanece silenciosa.
Marcela não sai do quarto.
Eu continuo tentando resolver o que está acontecendo do lado de fora.
Converso com alguns homens.
Recebo informações.
Dou ordens.
Tento entender as movimentações.
Mas, vez ou outra, meus olhos acabam indo para o corredor.
Não sei por quê.
Talvez porque a casa esteja silenciosa demais.
Talvez porque eu tenha me acostumado a ouvir alguma coisa vindo daquele quarto.
Nada.
Pego o celular novamente.
Já passou bastante tempo.
Levanto.
Vou até a porta.
Bato duas vezes.
— Marcela.
Nenhuma resposta.
Bato novamente.
— Marcela.
Silêncio.
Abro a porta.
Ela está deitada.
De costas.
— Você está dormindo?
Nada.
Dou alguns passos para dentro.
— Marcela.
Ela se mexe lentamente.
— O quê?
A voz está fraca.
Paro.
— Você está bem?
— Estou.
Não parece.
— Levanta.
— Não quero.
Aproximo-me.
Ela tenta se sentar, mas para no meio do movimento.
Leva uma mão à testa.
— Está tudo girando...
Meu corpo fica rígido.
— Como assim?
— Minha cabeça...
Ela fecha os olhos.
— Eu acho que estou tonta.
— Você comeu?
Ela não responde.
A resposta está na cara dela.
— Você não comeu nada.
— Não estou com fome.
— Desde quando?
Ela tenta lembrar.
— Eu não sei.
Minha mandíbula trava.
Eu sabia que ela estava recusando comida.
Mas não imaginei que fosse chegar a esse ponto.
— Você vai comer.
Ela abre os olhos.
— Não consigo.
— Consegue.
— Não...
Ela tenta levantar.
As pernas falham.
Eu seguro seu braço antes que ela caia.
Ela se assusta.
— Me solta.
— Para de teimar.
— Eu estou bem.
— Você quase caiu.
Ela tenta se afastar.
— Eu disse que estou bem.
— E eu disse que não está.
Ela fica quieta.
Ainda segurando meu braço, sinto como ela está fraca.
Isso me incomoda.
Muito.
Não deveria.
Mas incomoda.
Puxo uma cadeira.
— Senta.
Ela obedece dessa vez.
Vou até a cozinha.
Pego o prato que deixei horas atrás.
Está intocado.
Olho para aquilo e sinto uma irritação diferente.
Não é raiva dela.
É outra coisa.
Uma preocupação que não pedi para sentir.
Volto.
Coloco o prato na frente dela.
— Come.
Ela olha para a comida.
— Não consigo.
— Então come pouco.
— Eu estou enjoada.
Respiro fundo.
— Você precisa colocar alguma coisa no estômago.
Ela balança a cabeça.
— Não quero.
Olho para ela.
O rosto pálido.
Os olhos cansados.
As mãos tremendo discretamente.
E, pela primeira vez desde que ela entrou naquela casa, eu não consigo enxergar apenas a jornalista.
Não consigo enxergar a testemunha.
Não consigo enxergar a possível peça de uma armação.
Vejo apenas uma mulher que está passando m*l na minha frente.
E isso mexe comigo mais do que deveria.
— Você vai comer nem que seja aos poucos.
Ela levanta os olhos.
— Por quê?
Não tenho uma resposta boa.
Porque é minha responsabilidade?
Porque está dentro da minha casa?
Porque eu não quero vê-la daquele jeito?
Porque a lembrança dela chorando ainda está presa na minha cabeça?
Nenhuma dessas respostas sai.
— Porque eu mandei.
Ela abaixa os olhos.
— Claro.
Pego um copo de água.
Coloco ao lado dela.
— Primeiro isso.
Ela bebe.
Devagar.
Depois olha para o prato.
Pega o garfo.
A mão treme.
Eu percebo.
Ela tenta esconder.
Não consegue.
— Devagar — digo.
Ela me olha.
— Você está preocupado?
Fico em silêncio.
Ela espera.
— Não.
Ela dá um sorriso fraco.
— Mentiroso.
Meu olhar endurece.
— Come.
Ela leva uma pequena quantidade à boca.
Mastiga devagar.
E eu permaneço ali.
Sem entender por que, entre todos os problemas que tenho para resolver, o estado daquela mulher passou a ser mais uma coisa ocupando espaço na minha cabeça.