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1378 Palavras
Fecho a porta. O silêncio da casa é diferente do silêncio do morro. Mais fechado. Mais particular. Mais perigoso, talvez. Porque aqui não existem dezenas de pessoas circulando. Aqui, ela está comigo. E ela sabe disso. — O quarto é no corredor à esquerda. Ela olha. — Eu posso ficar lá? — Pode. — E posso fechar a porta? — Pode. Ela parece surpresa novamente. — E ninguém vai entrar? — Ninguém. — Nem você? Olho para ela. — Nem eu. Ela respira fundo. — Obrigada. A palavra sai tão baixa que quase não escuto. Faço apenas um gesto com a cabeça. Ela começa a andar. Antes que chegue ao corredor, eu falo: — Marcela. Ela para. — O quê? — Se precisar de alguma coisa, chama. Ela fica me olhando. — Você realmente acha que eu vou pedir alguma coisa para você? — Não. — Então por que falou? — Porque é melhor você saber. Ela não responde. Entra no quarto. A porta se fecha. Fico sozinho na sala. Olho para a porta por alguns segundos. Depois vou até o sofá e me sento. Passo as mãos pelo rosto. Minha casa está diferente. Não sei explicar. Talvez seja apenas a presença dela. Talvez seja o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguém dentro daquele espaço que não pertence à minha rotina. Eu sempre gostei de silêncio. Agora o silêncio parece estranho. Meu celular vibra. Olho. É uma mensagem do Da Vasco. “Ainda procurando. Temos uma pista do caminho que Gleice tomou.” Respondo: “Descobre onde ela foi.” Ele visualiza. Alguns segundos depois: “Pode deixar.” Guardo o celular. Olho novamente para o corredor. Marcela está atrás daquela porta. A jornalista que entrou no Cantagalo seguindo pistas que podem ter sido plantadas. A testemunha que ouviu uma conversa que não deveria. A mulher que agora está dentro da minha casa. Eu deveria pensar nela apenas como um problema. É isso que ela é. Um problema. Uma peça que apareceu no momento errado. No lugar errado. E que eu preciso manter sob controle até entender o jogo. Só que, quando lembro do rosto dela chorando no chão, aquela sensação volta. A mesma coisa que me fez parar. A mesma coisa que me fez pensar duas vezes. Eu fecho os olhos. — Não. Falo sozinho. Não vou começar com isso. Não vou sentir pena. Não vou criar vínculo. Não vou transformar uma prisioneira em responsabilidade emocional. Ela está aqui porque precisa estar. E vai embora quando eu descobrir a verdade. É simples. Tem que ser. Levanto e vou até a cozinha. Abro a geladeira. Pego uma garrafa de água. Bebo alguns goles. Quando fecho a porta, escuto um barulho no corredor. Olho para lá. Marcela aparece na porta. Ela está segurando os próprios braços. — O que foi? Ela hesita. — Nada. Franzo a testa. — Então por que saiu do quarto? — Eu só queria água. Aponto para a garrafa sobre a bancada. — Tem ali. Ela pega. Bebe alguns goles pequenos. Depois devolve. — Só isso? — Só. Observo o rosto dela. Está pálida. Mais do que antes. — Você comeu alguma coisa hoje? Ela desvia o olhar. — Não estou com fome. — Não foi isso que perguntei. Ela fica em silêncio. — Marcela. — Eu não quero comer. Cruzo os braços. — Você precisa comer. — Não consigo. — Consegue. — Não. Ela fala baixo, mas não parece disposta a discutir. Pego um prato. — Senta. Ela olha para mim. — Eu não quero. — Não estou perguntando se quer. — E eu estou dizendo que não quero. O tom dela muda. Ainda existe medo, mas agora tem irritação também. Talvez seja bom. Pelo menos está reagindo. Coloco o prato sobre a mesa. — Você pode me odiar o quanto quiser. Mas vai comer. Ela olha para o prato e depois para mim. — Não quero comer nada que venha de você. A frase me atinge de um jeito estranho. Não demonstro. — Então pensa que veio da cozinha. Ela quase revira os olhos. — Dá na mesma. — Não. Ela fica parada. — Vai para o quarto. Ela volta. Eu fico na cozinha. Olho para o prato. Ela realmente não vai comer. Pego o celular. Tenho outras coisas para resolver. Não posso ficar preocupado com uma mulher que decidiu fazer greve de fome porque está irritada comigo. Não é problema meu. Não deveria ser. --- Passam algumas horas. A casa permanece silenciosa. Marcela não sai do quarto. Eu continuo tentando resolver o que está acontecendo do lado de fora. Converso com alguns homens. Recebo informações. Dou ordens. Tento entender as movimentações. Mas, vez ou outra, meus olhos acabam indo para o corredor. Não sei por quê. Talvez porque a casa esteja silenciosa demais. Talvez porque eu tenha me acostumado a ouvir alguma coisa vindo daquele quarto. Nada. Pego o celular novamente. Já passou bastante tempo. Levanto. Vou até a porta. Bato duas vezes. — Marcela. Nenhuma resposta. Bato novamente. — Marcela. Silêncio. Abro a porta. Ela está deitada. De costas. — Você está dormindo? Nada. Dou alguns passos para dentro. — Marcela. Ela se mexe lentamente. — O quê? A voz está fraca. Paro. — Você está bem? — Estou. Não parece. — Levanta. — Não quero. Aproximo-me. Ela tenta se sentar, mas para no meio do movimento. Leva uma mão à testa. — Está tudo girando... Meu corpo fica rígido. — Como assim? — Minha cabeça... Ela fecha os olhos. — Eu acho que estou tonta. — Você comeu? Ela não responde. A resposta está na cara dela. — Você não comeu nada. — Não estou com fome. — Desde quando? Ela tenta lembrar. — Eu não sei. Minha mandíbula trava. Eu sabia que ela estava recusando comida. Mas não imaginei que fosse chegar a esse ponto. — Você vai comer. Ela abre os olhos. — Não consigo. — Consegue. — Não... Ela tenta levantar. As pernas falham. Eu seguro seu braço antes que ela caia. Ela se assusta. — Me solta. — Para de teimar. — Eu estou bem. — Você quase caiu. Ela tenta se afastar. — Eu disse que estou bem. — E eu disse que não está. Ela fica quieta. Ainda segurando meu braço, sinto como ela está fraca. Isso me incomoda. Muito. Não deveria. Mas incomoda. Puxo uma cadeira. — Senta. Ela obedece dessa vez. Vou até a cozinha. Pego o prato que deixei horas atrás. Está intocado. Olho para aquilo e sinto uma irritação diferente. Não é raiva dela. É outra coisa. Uma preocupação que não pedi para sentir. Volto. Coloco o prato na frente dela. — Come. Ela olha para a comida. — Não consigo. — Então come pouco. — Eu estou enjoada. Respiro fundo. — Você precisa colocar alguma coisa no estômago. Ela balança a cabeça. — Não quero. Olho para ela. O rosto pálido. Os olhos cansados. As mãos tremendo discretamente. E, pela primeira vez desde que ela entrou naquela casa, eu não consigo enxergar apenas a jornalista. Não consigo enxergar a testemunha. Não consigo enxergar a possível peça de uma armação. Vejo apenas uma mulher que está passando m*l na minha frente. E isso mexe comigo mais do que deveria. — Você vai comer nem que seja aos poucos. Ela levanta os olhos. — Por quê? Não tenho uma resposta boa. Porque é minha responsabilidade? Porque está dentro da minha casa? Porque eu não quero vê-la daquele jeito? Porque a lembrança dela chorando ainda está presa na minha cabeça? Nenhuma dessas respostas sai. — Porque eu mandei. Ela abaixa os olhos. — Claro. Pego um copo de água. Coloco ao lado dela. — Primeiro isso. Ela bebe. Devagar. Depois olha para o prato. Pega o garfo. A mão treme. Eu percebo. Ela tenta esconder. Não consegue. — Devagar — digo. Ela me olha. — Você está preocupado? Fico em silêncio. Ela espera. — Não. Ela dá um sorriso fraco. — Mentiroso. Meu olhar endurece. — Come. Ela leva uma pequena quantidade à boca. Mastiga devagar. E eu permaneço ali. Sem entender por que, entre todos os problemas que tenho para resolver, o estado daquela mulher passou a ser mais uma coisa ocupando espaço na minha cabeça.
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