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876 Palavras
Ingrid Narrando Eu aprendi cedo que ficar com um homem como Da Vasco nunca seria uma coisa simples. Não porque ele tivesse sido meu namorado. Ele nunca foi. Nós nunca tivemos um relacionamento. Nunca houve pedido, aliança, promessa ou qualquer coisa que pudesse fazer alguém olhar para nós dois e dizer que éramos um casal. A gente só ficava. Só que, para um homem como ele, esse “só” nunca significou muita coisa. Porque, na cabeça dele, se eu estava com ele, eu não deveria estar com mais ninguém. E talvez esse tenha sido o começo de tudo. Eu gostava do Da Vasco. Gostava mesmo. Gostava das nossas conversas, do jeito como ele me olhava, das vezes em que aparecia sem avisar, das noites em que ficávamos juntos e depois passávamos horas conversando sobre qualquer coisa. Ele conseguia me fazer rir. E, apesar de tudo que as pessoas diziam sobre ele, eu conhecia um lado que pouca gente conhecia. Mas eu também enxergava uma coisa que ele nunca precisava dizer. Ele não ia me assumir. Eu sabia. Podia esperar um mês. Um ano. Dez anos. Não mudaria. Ele gostava de me ter por perto, gostava de saber onde eu estava, com quem eu estava e o que eu fazia. Mas colocar meu nome ao lado do dele? Isso era outra história. E eu não queria passar a vida esperando por uma coisa que talvez nunca acontecesse. Então comecei a viver. Foi assim que conheci outro homem. Ele era daqui. Do Cantagalo. Mas não era do movimento. Não era bandido. Era apenas um cara que eu conhecia de vista, depois comecei a conversar e, quando percebi, estávamos ficando. Eu sabia que estava entrando em uma situação perigosa. Principalmente porque Da Vasco continuava aparecendo. Continuava me procurando. Continuava agindo como se eu pertencesse a ele. E eu nunca disse que pertencia. Esse era o problema. Eu não era dele. Nunca fui. Só que explicar isso para um homem como ele não era tão simples. Quando eu comecei a me envolver com outra pessoa, eu tomei cuidado. Muito cuidado. Porque sabia que, se Da Vasco descobrisse, não seria uma conversa tranquila. Então escondi. E por algum tempo funcionou. Até eu descobrir que estava grávida. Minha vida mudou naquele dia. Eu lembro de ficar sentada sozinha, olhando para o teste na minha mão, tentando entender como aquilo tinha acontecido. Depois veio a pior pergunta. Quem era o pai? Eu não tinha certeza. E essa é uma verdade que carrego até hoje. Eu não tenho cem por cento de certeza de que Isis é filha do Da Vasco. Pode ser. Provavelmente é o que ele acredita. Mas eu nunca fiz um exame para confirmar. E talvez nunca faça. Porque algumas verdades, quando descobertas, não consertam nada. Elas apenas destroem o que ainda está de pé. O homem com quem eu fiquei também sabia que a criança podia ser dele. E ele insistia nisso. Queria saber. Queria participar. Queria ficar perto. Só que ele também era daqui. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, essa história poderia chegar aos ouvidos de Da Vasco. O pior era que Da Vasco já tinha começado a desconfiar. Ele cismou que Isis era dele. E quanto mais eu tentava me afastar, mais ele queria saber. Mais aparecia. Mais perguntava. Mais observava. Eu comecei a sentir medo. Não porque achasse que ele fosse fazer alguma coisa comigo. Meu medo era maior. Eu tinha uma criança para proteger. E não sabia o que aconteceria se ele descobrisse que havia outro homem envolvido. Não sabia o que aconteceria se descobrisse que nem eu tinha certeza de quem era o pai. Então fiz a única coisa que consegui pensar naquele momento. Fui embora. Peguei minha filha e deixei o Cantagalo. Sem despedida. Sem explicação. Sem dar a ele a oportunidade de perguntar demais. Eu sabia que ele ficaria magoado. Sabia que ele me procuraria. Mas também sabia que, quanto menos contato tivéssemos, mais segura estaria aquela história. Foi c***l? Talvez. Foi justo com ele? Não sei. Mas naquele momento eu não estava pensando nele. Eu estava pensando na minha filha. Isis dorme no quarto ao lado enquanto eu preparo o café. Hoje ela já está maior. Já fala demais. Já faz perguntas demais. E, às vezes, quando ela pergunta sobre o pai, eu simplesmente mudo de assunto. Porque ainda não sei qual verdade contar. A verdade de que talvez o pai dela esteja morto para nós há anos? Ou a verdade de que talvez ele esteja vivo, sem saber onde a própria filha está? Respiro fundo e apoio as duas mãos na bancada. Eu não deixei Da Vasco manter contato com Isis porque sabia que qualquer aproximação poderia colocar tudo a perder. Quanto menos afinidade entre os dois, melhor. Quanto menos lembranças, menos perguntas. Quanto menos perguntas, menor a chance de alguém descobrir. Eu fiz isso para proteger minha filha. Pelo menos é isso que repito para mim mesma todas as noites. Mas existe uma pergunta que nunca consigo calar completamente. E se Isis for realmente filha dele? Nesse caso, eu não tirei apenas uma mulher da vida de um homem. Eu tirei uma filha do pai. E essa culpa... Essa eu nunca consegui deixar para trás.
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