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1410 Palavras
Marcela Narrando Eu tento. Juro que tento. Levo a colher até a boca, mas o cheiro da comida parece forte demais. Meu estômago se revira imediatamente, e preciso respirar fundo antes de conseguir engolir. Duas colheres. É tudo o que consigo. Coloco a colher no prato e empurro a comida para longe. — Não consigo mais. Carrasco está do outro lado da cozinha, encostado perto da bancada, me observando em silêncio. Ele não diz nada por alguns segundos. Só olha para o prato. Depois para mim. E eu consigo perceber que alguma coisa mudou no rosto dele. Não é raiva. Não é aquela expressão fria que ele usa quando está me interrogando. É preocupação. Uma preocupação que ele tenta esconder tão m*l que chega a me incomodar. — Você comeu duas colheres. — Eu sei. — Isso não é comer. — Para mim, agora é. Ele aperta a mandíbula. — Você não comeu praticamente nada desde que chegou. Desvio o olhar. Não quero discutir. Não quero conversar com ele. Não quero estar naquela casa. Quero minha amiga. Quero meu celular. Quero minha vida de volta. Quero acordar e descobrir que tudo isso foi um pesadelo. Mas nada disso acontece. Só existe aquele silêncio pesado entre nós. Carrasco se aproxima. Eu imediatamente fico tensa. Ele percebe. Para antes de chegar perto demais. — Você está pálida. — Estou bem. — Não está. — Estou. Minha própria voz sai mais fraca do que eu gostaria. Ele olha para minhas mãos. Elas estão tremendo. Fecho os dedos rapidamente. — É só cansaço. — Marcela. É estranho ouvir meu nome na voz dele. Ainda mais daquele jeito. Baixo. Sério. Quase preocupado. — Eu preciso descansar. Ele permanece parado por alguns segundos. Então pega o prato. — Vai para o quarto. Eu me levanto devagar. No instante em que fico de pé, sinto o chão se mover. Minha visão escurece por um segundo. Seguro na cadeira. Carrasco dá um passo na minha direção. — Cuidado. — Eu consigo. — Eu não perguntei. Reviro os olhos, mas não tenho força nem para discutir. Ando até o quarto. Sinto os passos dele atrás de mim durante alguns metros. Quando chego à porta, me viro. — Você não precisa ficar me vigiando. — Eu sei. — Então por que está aqui? Ele me encara. Por um instante, parece que vai responder. Mas não responde. Apenas abre espaço para eu entrar. — Dorme. Entro. Fecho a porta. E fico alguns segundos encostada nela. Meu coração está acelerado. Minha cabeça pesa. Meu corpo inteiro parece sem energia. Olho para a cama. É tudo o que consigo pensar. Caminho até ela e me deito. Puxo o cobertor. Fico olhando para o teto. Penso em Gleice. Será que ela conseguiu sair? Será que está bem? Será que procurou alguém? Será que está tentando me encontrar? A preocupação me aperta o peito. Fecho os olhos. Tento respirar. Mas o cansaço vence antes que eu consiga pensar em qualquer outra coisa. Apago. --- Não sei quanto tempo passa. Quando acordo, está escuro. Completamente escuro. Abro os olhos de repente. Por alguns segundos, não sei onde estou. Meu coração dispara. Levo a mão ao peito. Está batendo rápido demais. Muito rápido. — Não... Minha respiração começa a falhar. Tento puxar o ar. Não consigo. Respiro novamente. Mais rápido. Mais curto. Meu peito aperta. — Não, não, não... Sento na cama. Minha cabeça gira. Olho ao redor procurando alguma coisa que nem sei o que é. Então lembro. O remédio. Meu remédio. Minha mão procura automaticamente a bolsa. Nada. Eu não estou com ela. Minha bolsa ficou em algum lugar. Talvez na sala. Talvez com os homens dele. Eu não sei. — Meu Deus... Tento respirar fundo. Não consigo. Meu corpo parece não obedecer. O ar entra pela metade e desaparece. Minha garganta fecha. Sinto meu rosto esquentar. Passo a mão pelo pescoço. — Eu não consigo... A crise vem como uma onda. Eu já conheço aquilo. Já vivi aquilo outras vezes. Sei que é uma crise de ansiedade. Sei que vai passar. Mas saber não faz o meu corpo acreditar. Nunca fez. Quando acontece, parece que vou morrer. Meu peito dói. Minhas mãos começam a formigar. Minha visão fica estranha. Tento levantar. Pior ideia possível. Assim que fico de pé, minhas pernas falham. Caio de joelhos ao lado da cama. Bato a mão no chão. — Socorro... Minha voz quase não sai. Tento novamente. — Socorro... Dessa vez sai mais alto. Mas a respiração piora. Começo a puxar o ar desesperadamente. Meu rosto queima. As lágrimas aparecem. — Eu não consigo respirar... A porta abre com força. Carrasco entra. — Marcela? Ele acende a luz. Quando me vê no chão, muda completamente. — O que aconteceu? Tento responder. Não consigo. Ele vem até mim rapidamente e se ajoelha. — Marcela, olha para mim. Eu balanço a cabeça. — Não... consigo... — Consegue respirar? Faço que não. Ele olha para mim por alguns segundos. A expressão dele perde aquela frieza habitual. — Calma. Quase rio de nervoso. Calma. Como se fosse simples. — Eu... não... Ele percebe minhas mãos tremendo. Meu rosto vermelho. Minha dificuldade para puxar o ar. — É uma crise? Faço que sim. Ele passa a mão pelos cabelos, claramente perdido por um segundo. — Você tem isso sempre? — Às vezes... Minha voz sai quebrada. — Remédio... — Que remédio? — Na... minha bolsa... Ele olha para a porta. — Onde está sua bolsa? Eu não consigo responder. Ele se levanta. — Fica aqui. — Não... Minha mão segura o braço dele. Não quero ficar sozinha. Nem por um segundo. Ele olha para minha mão agarrada à camisa dele. Depois olha para mim. — Eu não vou sair. Ajoelha novamente. — Olha para mim. Tento. — Isso. Só olha para mim. Ele fala devagar. — Não tenta puxar o ar de uma vez. Eu tremo. — Respira comigo. Ele inspira lentamente. Eu tento acompanhar. Falho. Começo a chorar. — De novo. Ele não perde a paciência. Inspira. Solta. — De novo. Eu tento. Dessa vez consigo um pouco. — Isso. A mão dele segura meu ombro. Firme. Sem me apertar. — Você não vai morrer. As lágrimas escorrem pelo meu rosto. — Eu sinto que vou. — Eu sei. A resposta me surpreende. — Mas não vai. Ele olha para mim como se estivesse tentando acreditar nas próprias palavras. — Eu vou te levar para um médico. — Não... — Você não consegue respirar direito. — Meu remédio... — A gente pega sua bolsa. Ele se levanta. Dessa vez, não me deixa escolher. Passa um braço pelas minhas costas e me ajuda a ficar de pé. Minhas pernas tremem. — Devagar. — Eu consigo andar. — Eu sei. Mas ele não me solta. Saímos do quarto. Ele chama um dos homens no corredor. — Pega a bolsa dela. Agora. O homem corre. Carrasco olha para mim. — Vamos para o posto. — Eu não quero... — Marcela. O tom dele é firme. — Você está passando m*l. Não tenho forças para discutir. Quando a bolsa chega, ele mesmo abre. Procura alguma coisa. — Qual é o remédio? Aponto com dificuldade. Ele encontra a caixa. Olha para mim. — É esse? Faço que sim. Mas antes que ele me dê, hesita. — Você sabe como tomar? — Sei. Ele me entrega. Minha mão treme tanto que quase deixo cair. Carrasco segura minha mão por baixo. — Calma. Engulo o comprimido com água. Mas a falta de ar continua. Ele olha para o relógio. Depois para mim. — Vamos. Ele me leva para fora. O ar da madrugada bate no meu rosto. Mesmo assim, parece que não consigo respirar. Carrasco me coloca no carro. Entra ao meu lado. O motor liga. E ele dirige rápido. Muito rápido. Eu fico encostada no banco, tentando acompanhar a própria respiração. Ele olha para mim várias vezes. — Aguenta. Fecho os olhos. — Estou tentando. — Eu sei. A voz dele está diferente. Tensa. Quase desesperada. E, pela primeira vez desde que cheguei naquela casa, eu percebo uma coisa que não consigo ignorar. Carrasco está realmente assustado. Não por ele. Por mim. Ele aperta o volante. — Só aguenta mais um pouco. Não respondo. Continuo tentando respirar. E, pela primeira vez, eu não sinto medo dele. Naquele momento, só consigo pensar que preciso chegar ao posto. E que ele está fazendo de tudo para me levar até lá.
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