14

1797 Palavras
Carrasco Narrando Ver ela daquele jeito me deixa desesperado. Não tem outra palavra. Desesperado. A mina não consegue respirar de jeito nenhum. Eu já vi gente baleada, já vi homem sangrando até perder a consciência, já vi situação em que qualquer pessoa normal entraria em pânico. Já estive no meio de coisa muito pior do que aquilo. Mas aquilo me pega de um jeito diferente. Marcela está na minha frente, vermelha, tremendo, puxando o ar como se estivesse tentando arrancá-lo do próprio peito. E não vem. Ela tenta. Puxa. Para. Tenta de novo. E eu fico com a sensação de que, a qualquer segundo, ela pode apagar nos meus braços. Bagulho doido. Eu não sei lidar com aquilo. Não sei o que fazer além de tentar manter ela respirando. Então tomo a única decisão que consigo tomar. Levar para o posto. E é o que faço. Dirijo rápido, mas sem tirar os olhos dela por muito tempo. De vez em quando, olho para o banco ao lado. Ela está encostada, os olhos fechados, respirando com dificuldade. — Aguenta mais um pouco. Ela não responde. — Marcela. Os olhos dela se abrem devagar. — Estou tentando. Aquelas duas palavras ficam martelando na minha cabeça. Estou tentando. Como se ela estivesse lutando contra o próprio corpo. Como se eu pudesse fazer alguma coisa além de acelerar. Quando chegamos, eu praticamente entro com ela nos braços. A equipe atende rápido. Colocam Marcela em uma sala, fazem algumas perguntas e começam a verificar os sinais dela. Uma médica pergunta se ela tem histórico de crises de ansiedade. Marcela confirma. — Você usa alguma medicação? Ela fala o nome dos remédios que usa habitualmente e explica que controla as crises com acompanhamento médico e medicação. A médica pergunta se ela tomou alguma coisa naquela noite. Marcela confirma com a cabeça. Eu fico encostado na parede, ouvindo tudo. Sem saber onde colocar as mãos. Sem saber o que fazer. Depois de alguns procedimentos, a médica administra diazepam pela veia e outras medicações conforme avalia o quadro. Aos poucos, Marcela vai relaxando. A respiração deixa de estar tão descompassada. O rosto começa a perder aquele vermelho. Os dedos param de tremer tanto. E eu finalmente consigo respirar também. Só então percebo que eu estava prendendo o ar. Que merda. A sensação de ver aquela mulher tentando puxar o ar e ele simplesmente não vir é horrível. Horrível pra c*****o. Eu não desejo aquilo nem para alguém que considero inimigo. Fico olhando para ela enquanto a médica acompanha a recuperação. Marcela parece exausta. Os olhos pesados. O corpo mole. Mas consciente. Depois de um tempo, a médica sai para conversar comigo rapidamente, explica que ela precisa ficar em observação e que, quando estiver estável, deve descansar e seguir as orientações médicas. Eu apenas concordo. Não tenho muita coisa para dizer. Volto para perto dela. E fico ali. Em silêncio. É quando uma ideia atravessa minha cabeça. Manda essa mina embora. Acaba com isso. Eu posso mandar ela embora. Posso arcar com qualquer responsabilidade que esteja prestes a acontecer. Posso colocar meus homens para descobrir quem está tentando me atingir. Posso resolver o problema de outro jeito. Mas não posso simplesmente poupar uma pessoa e colocar toda a minha comunidade em risco. Muito menos minha gestão. Se alguém está plantando provas contra mim, passando informações e usando essa história para colocar o Cantagalo no meio de uma investigação, não é apenas a minha vida que está em jogo. Tem gente que depende das decisões que tomo. Tem gente que mora ali. Tem gente que não tem nada a ver com meus problemas. Se eu errar, não sou só eu que pago. Essa é a diferença. Eu não tenho o direito de agir apenas pelo que estou sentindo. E o que estou sentindo agora me irrita. Porque eu quero que ela fique bem. Essa é a verdade. E eu não deveria querer. Me aproximo da cama. Ela abre os olhos. Fica alguns segundos me encarando. — Estou melhor. — Eu sei. — Pode sair de perto de mim. Eu permaneço parado. — Só quero ajudar. Ela solta uma risada fraca. Sem humor nenhum. — Não. Franzo a testa. — Não o quê? — Você não quer ajudar. Fico quieto. — Você quer acabar com a minha vida. A frase me atinge. Não porque eu não esteja acostumado a ouvir coisas duras. Estou. Mas porque ela fala olhando diretamente para mim. Sem medo. Ou talvez com medo e mesmo assim falando. — Marcela... — Não. Ela ergue a mão. — Deixa eu falar. Eu fico em silêncio. Ela respira fundo. Ainda está fraca, mas agora consegue falar. — Você sabe o que você fez comigo? Não respondo. — Você me arrancou da minha vida. A voz dela começa a tremer. — Eu saí de casa para trabalhar. Para fazer uma matéria. Para investigar uma pessoa desaparecida. Eu tinha uma amiga comigo. Eu tinha uma vida. Ela engole em seco. — E agora eu estou aqui. Os olhos dela ficam cheios de lágrimas. — Presa. Meu maxilar trava. — Eu não sei onde a Gleice está. Não sei se ela está bem. Não sei se ela procurou ajuda. Não sei se alguém encontrou ela. Não sei se ela está com medo. Não sei absolutamente nada. Ela passa a mão pelo rosto. — E tudo porque eu entrei naquele lugar tentando fazer o meu trabalho. — Você entrou no lugar errado na hora errada. Ela me encara. — Isso não torna o que você fez certo. Não respondo. — Você me pegou. A voz dela fica mais baixa. — Me ameaçou. Pausa. — Me manteve presa. Outra pausa. — Me fez ter medo de você. Eu desvio o olhar por um instante. — E hoje você me empurrou. A frase pesa mais do que as outras. Eu lembro. Lembro exatamente do momento. Da raiva. Do movimento. Dela caindo. Do jeito que se encolheu contra a parede. Eu já pensei nisso mais vezes do que deveria. — Eu perdi a cabeça. — E eu paguei por isso. Silêncio. — Você sabe qual é a pior parte? Volto a olhar para ela. — Eu não consigo nem odiar você direito. Meu peito aperta. Ela continua: — Porque eu tenho medo de você. Aquilo entra mais fundo do que eu gostaria. — E medo não é ódio. Ela enxuga uma lágrima. — Medo é acordar no meio da noite e não saber se vou sair daqui viva. Não digo nada. — É olhar para a porta e pensar se você vai entrar. — Eu não vou fazer isso. — Você já fez coisas que disse que não faria. A resposta vem rápida. E eu não tenho como rebater. Ela respira fundo. — Você é o tipo de pessoa que destrói tudo ao redor. Fico parado. — E me destruiu hoje. Minha mandíbula trava. — E, pelo visto, vai me destruir aos poucos todos os dias enquanto eu permanecer aqui. Aquelas palavras ficam suspensas na sala. Pesadas. Eu sinto alguma coisa dentro de mim se contrair. Mas não deixo aparecer. — Vou relevar porque você não sabe o que está falando. Ela imediatamente responde: — Eu sei exatamente o que estou falando. Eu olho para ela. — Não sabe. — Sei, sim. Ela se ajeita na cama. — Você acha que porque manda em todo mundo pode decidir o que cada pessoa sente. Pode decidir quem fica. Quem vai embora. Quem fala. Quem cala. Silêncio. — Mas você não manda na minha cabeça. Ela aponta para o próprio peito. — Não manda no meu medo. Depois aponta para a própria cabeça. — Não manda no que eu vou lembrar quando isso acabar. Acabar. A palavra me incomoda. — Eu não sei o que vai acontecer daqui para frente. — Eu sei. Ela me encara. — Eu só quero voltar para casa. Minha resposta não vem. — Quero voltar para a minha mãe. Ela baixa os olhos. — Quero encontrar minha amiga. A voz falha. — Quero voltar a trabalhar. Ela respira fundo. — Quero dormir sem acordar achando que alguém vai entrar pela porta. Meu peito aperta novamente. — Quero voltar a ser a pessoa que eu era antes de conhecer você. Essa última frase fica. Mais do que deveria. Porque eu sei que ela está certa em uma coisa. Depois que alguém passa por uma situação como aquela, alguma coisa muda. Talvez eu tenha mudado alguma coisa dentro dela que não consigo desfazer. E não existe dinheiro. Não existe poder. Não existe ameaça. Não existe ordem que faça isso desaparecer. Ela fecha os olhos. — Eu não quero sua pena. Eu fico olhando para ela. — Nem sua proteção. Ela abre os olhos novamente. — Quero minha liberdade. Não sei o que responder. Então simplesmente fico em silêncio. Porque, pela primeira vez desde que essa história começou, não tenho uma resposta que faça sentido. Ela vira o rosto para o outro lado. Eu permaneço parado por mais alguns segundos. Depois saio da sala. Fecho a porta atrás de mim. E fico no corredor. Parado. O barulho do posto continua ao redor. Gente andando. Portas abrindo. Profissionais conversando. Tudo segue normalmente. Menos minha cabeça. Porque as palavras dela continuam voltando. Você me destruiu hoje. Passo a mão pelo rosto. Eu já ouvi muita coisa na vida. Já fui chamado de tudo. Cruel. Frio. Monstro. Desgraçado. Já ouvi homem me ameaçar. Já ouvi gente implorar. Nada disso ficou comigo. Mas aquela mulher consegue entrar na minha cabeça sem precisar levantar a voz. Porque talvez eu saiba exatamente por que aquelas palavras doem. Ela não está falando do homem que os outros conhecem. Está falando do homem que ela conheceu. E talvez essa seja a pior parte. Eu não posso dizer que ela está completamente errada. Olho para a porta da sala onde ela está. A vontade de entrar existe. Mas não entro. Pela primeira vez, entendo que talvez ajudar também seja saber quando ficar longe. Encosto a cabeça na parede. Fecho os olhos. E penso na mesma coisa que pensei dentro do carro. Talvez eu devesse mandar Marcela embora. Talvez fosse mais fácil. Para ela. Para mim. Para todo mundo. Mas não posso. Ainda não. Porque existe alguém tentando transformar meu território em prova contra mim. Existe alguém dentro da minha própria estrutura entregando informações. E, no meio de tudo isso, Marcela apareceu no lugar errado carregando perguntas demais. Se eu simplesmente abrir a porta e deixar ela ir, posso estar entregando exatamente o que essa pessoa quer. Então permaneço ali. Do lado de fora. Com uma certeza que me incomoda pra c*****o: Eu preciso descobrir a verdade. Mas, pela primeira vez, também começo a pensar no preço que Marcela está pagando enquanto eu descubro.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR