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954 Palavras
A manhã chega antes de eu estar pronto para ela. Passei praticamente a madrugada inteira sentado naquele corredor, levantando de vez em quando para olhar pela porta da sala onde Marcela estava. Não entrei. Depois daquilo que ela me disse, achei melhor não entrar. Talvez fosse a primeira vez que eu entendia que a minha presença podia ser mais sufocante do que útil. Quando finalmente chega a hora de ela receber alta, a médica conversa com nós dois. Marcela está sentada na cama, ainda com uma aparência cansada. O remédio deixou os movimentos dela mais lentos, os olhos pesados. A médica explica que ela pode continuar sonolenta durante algumas horas. — É normal por causa da medicação que recebeu. Ela precisa descansar bastante hoje. Marcela apenas concorda. — Continue tomando as medicações que já usa normalmente. Não esqueça nenhuma dose. E, se tiver outra crise forte como essa, principalmente se voltar a ter dificuldade para respirar, vocês devem retornar imediatamente. Ela olha para mim quando fala isso. Eu apenas concordo. — Entendido. Marcela não fala nada. Nem comigo. Nem praticamente com ninguém. Pega as coisas dela e espera. Quando saímos do posto, eu abro a porta do carro para ela. Ela entra sem olhar para mim. Eu dou a volta e entro no banco do motorista. Ligo o carro. Silêncio. Durante todo o caminho, ela não dirige uma palavra para mim. Nem uma. Não pergunta onde estamos. Não pergunta quanto falta. Não pergunta sobre Gleice. Não pergunta absolutamente nada. Fica olhando pela janela. Eu tento algumas vezes olhar para ela pelo retrovisor. Ela percebe. Vira o rosto ainda mais para o vidro. Aquilo me incomoda. E eu não gosto de admitir isso nem para mim mesmo. Ser ignorado por qualquer pessoa não faria diferença. Mas ser ignorado por ela faz. Ser olhado por ela como se eu fosse um ser desprezível faz. Talvez eu seja mesmo. Talvez seja exatamente isso que mais me incomoda. Porque eu posso passar a vida inteira dizendo que não ligo para o que pensam de mim. Mas aquela mulher olha para mim como se eu fosse a pior coisa que já entrou na vida dela. E eu não consigo simplesmente ignorar. O caminho inteiro é assim. Silêncio. Quando chegamos ao alto do morro, paro o carro em frente à minha casa. Marcela abre a porta antes mesmo que eu consiga sair. Ela desce. Pega a bolsa. Entra. Eu vou atrás. Ela atravessa a sala sem olhar para os lados e segue direto para o quarto. Antes de entrar, para por um instante. Eu penso que ela vai falar alguma coisa. Não fala. Entra. Fecha a porta. Ouço a chave girar. Fico parado no meio da sala. Olho para aquela porta. Depois para o sofá. Passo a mão pelo rosto. — Porra... Sento. Encosto os cotovelos nos joelhos. Minha cabeça está fudida. Não consigo parar de pensar no que aconteceu. Na crise. No jeito que ela tentava respirar. No medo estampado no rosto dela. Nas coisas que disse. Quero minha liberdade. Quero voltar a ser a pessoa que eu era antes de conhecer você. Eu deveria estar pensando em outra coisa. Na traição. No movimento. Na segurança do morro. Em quem está tentando me atingir. Mas não. Estou sentado pensando no que uma mulher que eu conheço há pouco tempo pensa de mim. Isso não deveria me incomodar. Mas incomoda. Muito. Meu celular toca. Olho para a tela. Da Vasco. Atendo. — Fala. A voz dele vem séria do outro lado. — Descobri uma parada. Endireito o corpo. — Fala. — Essas minas estão correndo risco de vida. Meu cenho se fecha. — Como assim? — Fui atrás da empresa que colocou as duas nesse caso. Fico em silêncio. — Elas disseram que receberam o trabalho de uma empresa de jornalismo, certo? — Sim. — Então. Fui atrás do CNPJ. — E? — A empresa foi aberta há uma semana. Fico alguns segundos sem entender. — Uma semana? — Uma semana. Passo a mão na barba. — c*****o. — E tem mais. — Fala. — O endereço cadastrado não bate direito com a estrutura da empresa. O registro existe, mas praticamente não tem histórico. Não tem atuação anterior que justifique o tamanho do trabalho que entregaram para elas. Meu estômago aperta. — Então é fachada. — É o que parece. Levanto do sofá. Começo a andar pela sala. — Trabalho de quem está tentando me f***r. — Exatamente. Fico em silêncio. Da Vasco continua: — E as duas nem sabem. — Como você tem certeza? — Porque fui atrás das mensagens, das informações que elas receberam e das pistas que trouxeram. Paro. — Continua. — Tudo que elas descobriram até agora veio dessa empresa. Sinto a raiva começar a subir. — Tudo? — Praticamente tudo. Ele respira do outro lado. — Alguém estava alimentando as duas com informação. — Para quê? — Para fazer elas chegarem até aqui. Meu olhar vai automaticamente para o corredor. Para a porta fechada do quarto de Marcela. — Queriam que elas descobrissem alguma coisa. — Isso. — E depois? — Depois elas publicariam. Eu aperto o celular. — E a gente seria exposto. — Você seria exposto. O Cantagalo seria colocado no meio. E quem estiver por trás disso poderia aparecer como alguém que só está denunciando um esquema criminoso. Eu fico parado. A peça começa a encaixar. — Bode expiatório. — Exatamente. Da Vasco fica alguns segundos em silêncio. — Só que tem uma coisa pior. — O quê? — Elas não sabiam da armadilha. Minha mão aperta o celular. — Eu sei. — Não, Carrasco. Você não entendeu. A voz dele fica mais séria. — Elas realmente não sabiam. Eu não respondo.
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