O sol daquela manhã era enganoso — quente e brilhante, como se quisesse me convencer de que estávamos seguros. Mas eu sabia que segurança era um luxo que não existia para mim. O cargueiro avançava preguiçoso, motores abafados como um suspiro contido. O cheiro de sal, ferrugem e óleo se misturava no ar. Eu estava no convés, sentindo a brisa acariciar meu rosto enquanto segurava meu bebê junto ao peito. Seu corpinho pequeno e quente era a única âncora real que eu tinha. E então, como sempre acontecia quando o silêncio se prolongava, meu pensamento foi parar em Dante. Era difícil — impossível, talvez — processar tudo. Alguns dias atrás, ele estava morto para mim. Morto no corpo, morto na memória, morto no coração. Eu havia enterrado aquele homem com as minhas próprias mãos, não no chão, ma

