DANTE MANCUSO Os dias no cargueiro passaram como se o tempo tivesse se esquecido de nós. Preguiçosos, arrastados, envoltos por uma névoa de sal e rotina. De dia, o mar parecia um espelho líquido, sem pressa, sem urgência. À noite, as ondas mostravam os dentes, ameaçando engolir o casco enferrujado que nos levava para as Bahamas como um segredo empurrado pelas correntes. Estávamos isolados do mundo. Sem internet, sem rádio. Sem guerras, sem ordens, sem listas de mortos e vivos. Apenas nós três. Catarina, o bebê... e eu. Era curioso — mesmo ali, em um cenário quase pós-apocalíptico, o choro de um recém-nascido ditava o ritmo da embarcação. Não o apito do capitão. Não o barulho do motor a diesel. Era aquele ser minúsculo que nos fazia acordar, levantar, correr, cantar. Ele mamava quase d

