Pré-visualização gratuita Prólogo
Cassidy
O som ensurdecedor das britadeiras rompendo o asfalto e o concreto não é alto o bastante para abafar os assobios de dois operários de capacete. Já passou quase uma hora do fim do intervalo de almoço e, ainda assim, esses dois continuam brincando como moleques.
Desligados do mundo.
— Vocês não têm um andaime para fixar ou um cano para instalar? — pergunto, balançando a cabeça com ceticismo.
— Eu sei exatamente onde quero enfiar meu cachimbo — responde um deles, agarrando a própria virilha em minha direção, com um sorriso que merece um murro.
Reviro os olhos. Nenhum dos dois faz ideia do que está por vir.
— Vocês falam com as suas mães com essa boca imunda? — A voz grave de Rinaldo — Rossi — O trator corta o ar como uma marreta. Meu capataz não precisa levantar a mão para impor respeito, mas mesmo assim distribui um tapa certeiro na nuca dos dois.
— Mostrem algum respeito pela Srta. Leone — completa ele, com seu tom de ameaça velada.
Os homens se olham, perplexos, antes de voltarem os olhos para mim, arregalados, prontos para uma segunda olhada. É evidente que não fazem ideia de que sou a gerente do escritório. Não me veem com frequência fora do trailer abafado que serve de base para o canteiro. Claro, a calça jeans moldada a cada centímetro das minhas curvas e a blusa colada ao corpo não ajudam a manter discrição.
— Droga, Cassidy, eu não sabia que você era tão musculosa — comenta o mais jovem, levando o punho à boca e fazendo um gesto exagerado como se eu fosse fogo puro.
Uma risadinha escapa de mim, acompanhada de um sorriso de canto. É lisonjeiro, ainda que cansativo.
— Rapazes, voltem ao trabalho. Eu estava falando sério sobre a segurança daquele andaime. Houve problemas desde que vocês decidiram transformar o serviço em concurso de barra fixa. Temos que instalar a maior parte dos trilhos do gasoduto ainda hoje. Mais atrasos e meu pai... bom, ele não gosta de atrasos. — Mordo a língua antes de concluir a frase. Não é prudente fazer piadas sobre incêndios ou “acidentes” perto de quem não entende o humor peculiar da minha Família.
Já temos encrenca demais.
— Mãos à obra, rapazes! — Rossi dá leves empurrões neles, mandando-os de volta para o trabalho, e me lança um aceno breve com o capacete.
Com eles afastados, respiro fundo o cheiro denso do local: cimento quebrado, vapores tóxicos subindo do esgoto nova-iorquino, misturados ao aroma tentador da carroça assando carne. Um retrato perfeito do caos urbano.
Ainda assim, um dos assobiadores se arrisca em uma última piscadela ao olhar por cima do ombro. Sinal claro de que talvez eu devesse reconsiderar meu guarda-roupa e voltar a vestir roupas largas que escondam meu corpo de 48-38-44. Não sou cega ao efeito que minhas curvas têm — nos homens, nas mulheres, tanto faz. Não é de hoje que carros param, buzinas tocam e olhares seguem o balanço dos meus quadris como se estivessem hipnotizados.
Mas a admiração para por aí.
A maioria dos homens se intimida logo depois, seja pela aparência, seja pela reputação. Como gerente de escritório da Construtora Leone Brothers, meu nome pesa mais do que minhas medidas. Meu “escritório” é um trailer de 3x4, abarrotado de armários de arquivo, com um banheiro minúsculo e uma mesa sempre coberta de faturas e papelada. Há fornecedores para contatar, vendas para aprovar, empreiteiros para pressionar.
Só que tudo isso é deixado de lado quando três batidas fortes soam na porta, arrancando-me da rotina.
Niklaus Caruso tem uma energia que arrasta morte e destruição atrás de si. Chefe da Família criminosa Caruso, ele aparece no escritório todas as sextas-feiras, como um ritual.
Pontual como um cobrador do inferno.
— Boa tarde, Cassidy — cumprimenta ele com um sorriso largo, que não suaviza em nada os olhos castanho-escuros e fundos. Seus cabelos ralos e oleosos estão penteados para trás, colados ao couro cabeludo sob a iluminação fraca do trailer. Quando ele dá um passo pesado para dentro, sinto o ar se tornar mais denso.
Ele se move para fechar a porta, mas minha voz o detém.
— Deixe-a aberta. Você não vai ficar aqui por muito tempo. Tenho algo para você.
A gaveta trancada da minha escrivaninha guarda mais do que simples documentos. Toda quinta-feira à noite, meu pai deposita ali um envelope especial, grosso, volumoso — que Niklaus vem buscar religiosamente às sextas.
Nunca abri. Não preciso. O conteúdo pouco importa. É apenas mais um preço a ser pago para manter certas… Aliança s.
— Não vou tomar seu tempo, querida — diz ele, estendendo a mão com a paciência de quem sabe que leva sempre o que veio buscar.
E assim, mais um ciclo da Leone Brothers se completa.
— Sabe, Cassidy, eu posso ser uma Aliança excelente para você e sua Família. Não precisa ser assim — diz Niklaus, a voz arrastada de quem está acostumado a impor acordos.
Fingindo concentração nas faturas espalhadas sobre a mesa, recuso-lhe até o benefício de um olhar. Não quero conversar. Não quero lhe dar espaço. Mas Niklaus Caruso não é o tipo de homem que aceita ser ignorado.
Ele se inclina, imponente, e solta com desdém: — Esses envelopes não precisam ser um evento semanal, se você estiver disposta a me dar algo mais valioso: o seu tempo.
O cheiro forte do charuto mistura-se ao da colônia barata, criando uma nuvem sufocante ao meu redor. Sua língua passeia devagar pelos dentes manchados de nicotina, enquanto suas unhas sujas repousam sobre a madeira da mesa, perto demais das minhas mãos. Meu estômago se revira.
As palavras escapam num instinto de autopreservação. Preciso tirá-lo daqui. — Estamos muito ocupados, Sr. Caruso. Desculpe, mas...
Ele não me deixa terminar. Seu dedo grosso e pegajoso ergue meu queixo. Meu corpo reage antes da mente processar: recuo tão rápido que quase derrubo a cadeira. Minhas mãos se erguem como escudo, gesto que ele imita, zombeteiro.
— Ei, calma, Cassidy. Só estou tentando te convidar pra jantar. Namorar comigo, ficar comigo... isso tornaria essas tardes de sexta-feira excitantes.
Reviro os olhos. — Pagar você com meu tempo ou com dinheiro ainda me parece um péssimo negócio. Mas obrigada pela oferta. Se não houver mais nada, eu realmente preciso voltar ao trabalho.
Vejo quando a rejeição o atravessa como um alarme disparando. Seu olhar vagueia pelo escritório, provavelmente à procura de algo para quebrar. Um grunhido surdo de frustração é tudo que ele consegue soltar antes de sair, com passos pesados que ecoam como um alívio no meu peito.
No silêncio que se segue, retomo meu foco nos documentos. A única maneira de sobreviver ao dia é mantendo a cabeça baixa e as emoções bem trancadas.
Às 18h, uma fila de homens se forma à minha frente, esperando os envelopes de pagamento. Distribuo um a um, até que o último deixa a mesa. Respiro fundo, pronta para ir embora — até que Renzo e Cristina Leone aparecem na porta.
Quando meus pais surgem no fim do expediente, é sempre sinal de problema.
Cristina carrega minha velha mochila, a mesma que Frankie me deu há anos, quando achei que seria sua companheira de academia. Nunca a usei para malhar, mas vê-la aqui, agora, me provoca um calafrio. Eles estão tramando algo.
— Seja lá o que for, a resposta é não — digo, com um sorriso sarcástico, tentando afastar a seriedade no rosto do meu pai.
— Niklaus me ligou — começa Renzo, com aquela voz pesada de quem já perdeu antes mesmo de pedir.
Minha paciência evapora. — Eu dei o envelope pra ele. O que mais queriam? Que eu transasse com ele em cima da mesa?
— Cuidado com o tom, Cassidy — repreende minha mãe, sempre disfarçando desespero em tom maternal.
Renzo suspira. — Cassidy, querida, encontramos um jeito de sair debaixo do Caruso. Mas envolve você.
O peso daquelas palavras paira entre nós. Não é preciso ser um gênio para entender onde isso vai dar.
— Prefiro ser stripper num porão do Bronx do que pagar dívida com meu corpo — disparo.
— Cassidy... — A decepção em Renzo poderia afundar um navio. — Você é linda. Homens dariam o último centavo pra estar com você. E é isso que eu estou contando.
A incredulidade me atravessa. — O quê?
— Um evento, hoje à noite. Um leilão — completa minha mãe. — Niklaus sugeriu. O vencedor do leilão passará o fim de semana com você. O dinheiro do seu lance abateria a dívida. Niklaus prometeu destruir as provas contra nós se isso acontecer.
Sinto náuseas. — E tudo que tenho que fazer é ceder o meu tempo — murmuro, sem ousar falar o que realmente está em jogo.
Eles não respondem. Não precisam. A mochila, discretamente trazida por minha mãe, diz tudo. Dentro, está o vestido justo que meu pai um dia jurou que eu nunca usaria, sapatos de salto que m*l saíram da caixa, e peças suficientes para um fim de semana do qual eu preferia não fazer parte.
— Tem um carro esperando por você, Cassidy — diz meu pai, desviando o olhar, envergonhado.
Antes de sair, preciso ter certeza. — Se eu fizer isso, e Niklaus der o lance mais alto... o que acontece?
— Ele só quer o fim de semana. Depois disso, acaba. — As palavras da minha mãe são como gelo descendo pela espinha.
Se um fim de semana com Niklaus Caruso é o preço da liberdade da minha Família , então que seja. Não sou a primeira filha a sacrificar seu futuro por um bem maior.
No minuto em que entro no carro, Niklaus me espera, com aquele sorriso nojento. — Isso é uma tentativa de sequestro, Caruso? E o leilão?
Ele ri, relaxado. — Relaxa, Cassidy. O leilão vai acontecer. Mas quando eu der o lance vencedor, todos vão ver que você já era minha desde o começo. Vai ser um prazer exibir você. E quando perceber o poder que eu tenho, vai implorar pra ser minha.
O delírio em suas palavras é tão forte que quase se materializa no ar. Mas eu me calo. Não vou lhe dar o gosto de uma reação.
Chegamos ao Belvedere Plaza. O luxo é sufocante. Ele me guia até a cobertura, onde ninguém ousa barrar sua passagem. Um guarda abre a suíte para mim.
— Vinte minutos, mocinha. Não coma nada. Nervosismo costuma dar enjoo — avisa, antes de trancar a porta.
Tomo banho, visto o vestido que cola ao meu corpo como um segredo m*l guardado. Quando o segurança Bruno me vê pronta, seu olhar é tudo que eu esperava: invasivo, curioso, silencioso.
A festa já acontece no salão ao lado. Homens poderosos circulam, bebendo, avaCassidyndo. Meu coração martela.
E então ele aparece.
— Você fica melhor sem essas roupas de trabalho e ainda mais no meu braço — diz Niklaus, me puxando para o centro da sala com aquele sorriso de tubarão.
Mas é o riso atrás de mim que congela meu sangue.
Ao virar o rosto, encontro um par de olhos azuis que me fitam com um interesse cortante. O homem tatuado, vestido com um terno impecável, se aproxima e estende a mão para Niklaus.
— Deixa pra lá, Lombardi — rosna Niklaus, mas a tensão no ar já mudou.
E, de repente, pela primeira vez naquela noite, sinto que as cartas podem não estar tão marcadas quanto imaginei.