Capítulo 1

2155 Palavras
Vincenzo Os cabelos ondulados escorrem pelas costas da jovem como tinta preta escorrendo de um pincel descuidado. A maneira como seu vestido se molda a cada centímetro de seu corpo é como uma mancha de óleo, espalhando-se pela minha imaginação, sujando-a com fantasias de arrancá-la dali. Mas Niklaus a segura como se devesse tê-la acorrentada a uma coleira. Seu olhar predatório percorre o ambiente, deixando-a tensa, pronta para fugir na primeira oportunidade. No canto da suíte da cobertura, um pequeno bar aguarda. Noites como esta exigem álcool. O leilão é uma tradição consagrada de La Família — uma tradição que eu desprezo. Mas como chefe da Família Lombardi, minha presença não é opcional. Pouco importa se a maior parte dos meus negócios está limpa aos olhos da lei. Depois que você se torna um homem feito, ninguém sai vivo. As mesas vazias ao redor do bar parecem um convite silencioso. O barman, entediado, compartilha do meu desdém. Do outro lado do balcão, a cicatriz de Carlo Ferraribrilha sob a luz amarelada — um lembrete de que nem todos são bem-vindos a se aproximar. Nunca fui um alvo dos Açougueiro de Howard Beach, o que me dá liberdade para cumprimentá-lo com um sorriso. — Você é a última pessoa que eu esperava ver num leilão, Less — comento, estendendo a mão. Ele a aperta com firmeza enquanto peço minha bebida. — Apenas representando a Família. Meu pai confirmou presença antes de ser sequestrado pela enfermeira — diz ele, rindo baixo antes de virar um gole. — Cara de sorte — retruco, acompanhando seu movimento, enquanto Antônio Vassa avança para o centro da suíte, braços abertos, pronto para dar início ao espetáculo. Antônio é um dos raros homens que transitam entre a Bratva e La Família como se andassem no parque. Sua influência é uma moeda que poucos podem comprar. — Obrigado a todos por terem vindo esta noite. Temos um último item no leilão. Por favor, aproxime-se, senhorita — anuncia, acenando para a jovem ao lado de Niklaus. Os murmúrios se intensificam conforme ela se posiciona sob os holofotes. Niklaus, inquieto, lança olhares cortantes para os presentes, como se cada lance fosse uma ofensa pessoal. — O Caruso tá aprontando alguma coisa — comenta Carlo, esvaziando o copo. — Ele sempre faz bagunça quando quer ser dono de algo. Divirtam-se, vou cair fora. Levanto dois dedos em despedida enquanto ele e Lorenzo deixam a suíte. Antônio prossegue com o leilão. — Para esta mulher cheia de vida e virtude, com raízes em uma Família de construtores de sucesso, abrimos os lances em cinco mil dólares — anuncia com o entusiasmo ensaiado de quem já viu demais. Os primeiros lances surgem, tímidos, quase cautelosos. A mulher, por sua vez, está visivelmente miserável. Niklaus observa cada oferta com a fúria contida de um cão prestes a morder. — Vinte — declaro, minha voz ecoando pelo salão, arrancando olhares e silêncios. Niklaus se vira, olhos faiscando. — Trinta e cinco — rebate, cuspindo as palavras. Ele quer muito essa garota. E eu quero saber o porquê. Ela não tem o perfil das bonecas submissas que costumam ser oferecidas aqui. Algo não bate. E eu adoraria transformar o Caruso em motivo de piada esta noite. — Cinquenta — ofereço, degustando o sabor amargo da minha bebida enquanto sorrio. Minha calma incomoda. Sempre incomodou. É assim que negócios se vencem: com sangue frio. Niklaus se aproxima de Antônio, sussurra algo. Eu permaneço no bar, imóvel, deixando-o se corroer. — Cinquenta e cinco — rosna ele, dedos contraindo e relaxando em punhos m*l contidos. Ele está no limite. Posso ver. E pretendo empurrá-lo. — Cem — declaro, afastando-me do bar com indiferença calculada. Antônio ergue as sobrancelhas, impressionado. Niklaus, por sua vez, está prestes a explodir. — p***a. Cento e quarenta e nove — ele grita, voz rasgada pela frustração. — Dois — respondo seco, arrancando risos e suspiros da plateia. Os olhos da jovem, grandes e atentos, grudam nos meus. Imagino como eles se fecharão quando eu a fizer dizer meu nome. E não será em público. — Duzentos mil dólares de uma vez só — anuncia Antônio , encarando Niklaus, cuja mão treme enquanto digita furiosamente no celular. O silêncio que se segue é mais alto que qualquer grito. Antônio saboreia o momento antes de concluir: — Duzentos mil dólares em dobro. Risadas abafadas ecoam. Niklaus não tem resposta. Nem dinheiro. — Vendida — Antônio sentencia, oferecendo-me a mão da mulher. — Ela é toda sua, Don Lombardi. Niklaus avança, raivoso. Agarro a mão da jovem e a puxo para mim, interpondo meu corpo entre ela e o mafioso enfurecido. — Don Ferrari disse que você fica furioso quando quer ser dono de algo, Caruso. Mas ela não é um bem. — Cassidy — Niklaus se volta para ela. — Há regras. Você pode recusar. Seus pais, os negócios... — Niklaus — corto, minha voz firme —, não tente mudar a opinião da mulher. — De qualquer forma, não dá para mudar — ela diz, finalmente. — Eu sou a Cassidy O nome escapa de seus lábios com uma simplicidade que se crava em mim. Cassidy. — Aceito a proposta de Don Lombardi. A resignação na voz de Antônio é quase um espetáculo à parte. — Todas as vendas foram concluídas, Sr. Caruso. Faço a transferência com a praticidade de quem já lavou muito dinheiro nesta cidade. O sorriso de Antônio se ilumina ao ver a confirmação. — Muito obrigado pela preferência, Sr. Lombardi. Quem diria que você apareceria esta noite. Niklaus, não cause incômodo, a menos que queira aprender a voar do topo deste prédio. Niklaus, vermelho até a raiz dos cabelos, observa impotente enquanto eu e Cassidy deixamos a suíte. Bruno, o guarda, me entrega uma bolsa — presumivelmente dela — e chama o elevador. No espaço confinado, cada segundo é uma provocação. Observo-a com a atenção de um homem que já decidiu seu próximo pecado. Quadris largos, b***a impecável, s***s fartos, um rosto que deveria ser ilegal. — Quem é você? — pergunto, sem disfarçar a fome nos olhos. — Cassidy Leone. E você? — retruca com um misto de curiosidade e irritação. — Don Vincenzo Lombardi — respondo, com um sorriso malicioso. Ela revira os olhos. E nesse instante, tenho certeza de que vou me apaixonar por essa mulher. —— Ótimo, mais um homem feito — digo com um meio sorriso. Seus olhos amendoados deslizam até o chão antes que ela morda o lábio inferior, voltando a me encarar. A suavidade na expressão dela me surpreende quando pergunta: — Você pode garantir que o dinheiro vai para os meus pais? — Calma, garota — respondo, deslizando um dedo sob seu queixo para erguer seu rosto. — Você não vai para a câmara de gás. Vai passar o fim de semana comigo nos Hamptons. Trago você de volta para casa no domingo à noite, e a sua parte do lucro do leilão estará na conta que você abrir até segunda-feira de manhã. — Eu não abri nenhuma conta para isso — diz ela. O elevador se abre no saguão do hotel, onde o manobrista já deixou meu carro esperando na calçada. Ela apoia a mão sob meu braço enquanto a guio para fora, sentindo a tensão dela contra meu corpo. — Não é assim que essas coisas costumam acontecer — comento ao abrir a porta para ela, ajudando-a a entrar no banco de trás. O vestido sobe e um flash de mim empurrando a peça até a cintura dela cruza minha mente como um trem desgovernado. Meu corpo se contrai, tomado por uma atração avassaladora e inesperada por essa estranha. Eu não gosto disso. — Vamos ficar na estrada por umas duas horas — digo, sentando ao volante. — Quer comer algo ou fazer alguma parada? — Estou bem. Acho que meu estômago não aguenta mais nada agora. Obrigada, Sr. Lombardi. Pode não parecer, mas eu preferiria muito mais entregar minha virgindade para alguém como o senhor do que para Niklaus Caruso. — Você não precisa me dar nada, Cassidy. Me chame de Vincenzo ou Vince, por favor. Pra ser sincero, eu nem achava que você fosse virgem. Só presumi que o Niklaus estava te prendendo por algum motivo, e tenho muito orgulho de irritá-lo. Ela ri, um som leve que quebra um pouco da tensão. — Você e eu também. A única diferença é que tenho certeza de que Niklaus não te assusta quando está bêbado. Achei que ele ia me matar hoje mais cedo. — Ah? Por quê? Ele parecia tão orgulhoso de ter você ao lado na suíte. Não deixo passar o modo como ela desvia da questão da virgindade, mas não vou forçar. — Como um pônei de exposição premiado — ela zomba, olhando pela janela. — Mas, sério, eu não namoraria com ele por vontade própria. Então ele ofereceu essa oportunidade para meus pais como forma de ganhar dinheiro rápido. Ele disse que queria apenas meu tempo. Esperem só até meu pai descobrir que ele me ofereceu para um gângster só para eu acabar sendo roubada por outro. — Roubada de Niklaus Caruso. Gosto do som disso — murmuro quase num sussurro. Cassidy lança um olhar furtivo na minha direção antes de voltar a observar os postes de luz que passam velozes na estrada. A música ambiente invade o silêncio entre nós enquanto uma enxurrada de perguntas me domina a mente. Quero saber o que Niklaus realmente quer com Cassidy, além da beleza óbvia. Ela merece a atenção de muitos homens, mas Niklaus não está atrás apenas disso — ele quer algo dela ou de sua família. Estou determinado a descobrir qual é a conexão que prende esses dois. Quando chegamos à minha casa de praia em Hampton Bays, o cansaço dela é evidente nas pálpebras pesadas. A propriedade é modesta diante das mansões dos vizinhos, mas carrega a história da família há muito tempo, muito antes da minha em La Família. Hoje, o nome Lombardi é menos ligado à máfia e mais à minha empresa, a Lombardi Security. A pequena placa octogonal com o nome da Família reluz sob a luz do poste enquanto caminhamos pelo caminho de pedra até a porta da frente. As pedras de ardósia combinam com o revestimento cinza-escuro da casa, enquanto os frisos brancos emolduram janelas e portas, que se abrem para um deck bege claro envolvendo o imóvel. A garagem anexa guarda dois dos meus carros favoritos, que prefiro manter longe do caos da cidade. Talvez eu consiga levá-la para dar uma volta de capota abaixada enquanto estivermos aqui. Cassidy respira fundo e diz: — Você deve estar perto da praia. — Sim, o quintal tem uma passarela que corta o mato. Não é fácil de achar, mas eu gosto da privacidade. — Privacidade para o seu prêmio — ela ri baixinho para si mesma. Quando se volta para mim e coloca a mão sobre a minha, algo bruto e primitivo se acende em mim. Quero reivindicá-la, capturá-la, torná-la minha. Sua voz fica baixa e rouca quando ela sussurra: — Quero te agradecer, Vince. Antes que eu possa responder, ela me puxa para perto e me beija. É a última coisa que eu esperava dela, mas não estou pronto para ceder a esses desejos. — Há algo errado? — pergunta, afastando-se ligeiramente. — Fiz errado? — Não — digo, estendendo a mão para acariciar seu rosto. — Meus gostos são peculiares. Tirar a virgindade de alguém pode ser um desserviço para nós dois. — O que isso significa? — seus olhos imploram para que eu retire a rejeição. — Você não vai querer mais nada depois de lidar comigo. E eu vou ficar consumido pela ideia de te transformar na companheira perfeita. Relacionamentos condenam homens como eu. Não tenho tempo para obsessões. O rubor em suas bochechas torna a rejeição mais fácil, mas não é mentira. Ela se aproxima, ficando na ponta dos pés para me beijar novamente. A maciez dos lábios dela contra os meus abre uma porta para emoções que quero manter trancadas. — E se você estivesse me fazendo um favor? — ela desafia. — Um favor maior do que essa enorme quantia que gastou para tirar minha virgindade? — Ver a cabeça do Niklaus explodir de frustração, e saber que ele não tem poder suficiente que finge, valeu cada centavo. E, Cassidy, eu não paguei pela sua virgindade. Eu paguei pelo seu tempo. A determinação que brilha em seus olhos me diz que ela não vai desistir fácil. Em vez de recuar, ela pressiona o corpo contra o meu, provocando em mim a reação que, provavelmente, ela quer despertar. — Homens como você não são feitos para conquistar, Vincenzo? Você não quer provar, tocar algo que Niklaus está desesperado para possuir? Não vou pedir mais nada. Tire minha virgindade, Vincenzo. Tire, para que Niklaus não queira mais nada comigo.
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