Pré-visualização gratuita Capítulo 01 — A Noite Errada
Camilla
A dívida caiu no meu colo como uma pedra arremessada do alto do morro: sem aviso, sem dó, sem chance de desviar. Eu ainda estava com o gosto do dia na boca, café fraco, cansaço velho, aquela irritação miúda de quem vive contando moeda, quando senti o ar mudar.
No morro, a gente aprende cedo a perceber essas coisas. Não é superstição. É instinto. É sobrevivência. A rua continua a mesma — o som do funk estourando longe, o cheiro de comida misturado com poeira quente, criança rindo em algum canto mas alguma coisa fica… mais quieta. Não silêncio de paz. Silêncio de caça.
Eu tinha acabado de dobrar a viela perto da birosca do seu Neco quando vi dois homens parados na sombra de um muro. Um de boné, outro de moletom escuro, capuz baixo, o rosto quase sumido. Não tinham pressa, não tinham cara de quem estava voltando pra casa. Tinham postura de quem estava esperando.
Meu coração deu uma batida errada, como se tropeçasse dentro do peito.
“Camilla.”
A voz veio limpa, baixa, como se ele tivesse certeza que eu ia parar. E eu parei, por um segundo, porque meu corpo é i****a e às vezes obedece antes do meu orgulho.
— Quem é você? — minha voz saiu firme, mas a mão suou na alça da bolsa.
O do boné se aproximou um passo. Não era um menino. Era homem feito, ombro largo, expressão fechada. O tipo que não precisa gritar pra impor.
— Não vamo fazer cena. É só conversar.
“Só conversar” nunca significou só conversar. Não ali. Não assim.
Eu recuei meio passo, procurando com o olhar qualquer rosto conhecido, qualquer janela, qualquer barulho que chamasse atenção. A rua parecia ter engolido gente. Era como se o morro, de repente, tivesse decidido olhar pro outro lado.
— Se vocês querem conversar, falem aqui. — Eu ergui o queixo. — Eu não vou pra lugar nenhum com desconhecido.
O do capuz se mexeu, e eu senti a presença dele antes de ver o rosto. Quando ele levantou um pouco a cabeça, não mostrou o suficiente pra eu identificar, mas mostrou os olhos: escuros, frios, atentos demais. Um olhar que não passava por mim — me atravessava.
— Vai, sim. — ele disse, sem elevar a voz.
A frase foi simples, seca. Não era ameaça feita pra assustar. Era ordem feita pra cumprir.
Meu estômago revirou.
— Eu não devo nada. — eu menti com a melhor cara do mundo. — E se for sobre dinheiro, eu…
O do boné soltou uma risada curta, sem humor.
— Não é você que deve. É teu irmão.
O nome do meu irmão bateu em mim como tapa.
Eu senti a raiva subir tão rápida que quase engasguei. Aquele infeliz… eu sabia. Eu sabia. Tinha coisa errada nos olhos dele há semanas, naquele jeito de sumir e voltar com “tá tudo sob controle”. Nada nunca fica sob controle no morro. Só muda de dono.
— Meu irmão não me representa. — eu cuspi as palavras. — Se ele fez merda, ele que resolva.
O do capuz inclinou a cabeça, como se estivesse assistindo a um filme.
— Ele resolveu… jogando teu nome na mesa.
As minhas pernas ficaram geladas, mesmo com o calor. Por um segundo, o mundo ficou distante, como se eu estivesse vendo tudo debaixo d’água.
— Isso é mentira.
— Ele disse que você era garantia. — o do boné respondeu. — Disse que você não ia correr. Que você ia entender.
Entender. Entender o quê? Que eu era moeda? Que eu podia ser entregue como se fosse um saco de cimento?
O meu peito queimou de indignação, de medo e de um ódio tão puro que quase parecia coragem.
— Eu vou gritar. — eu avisei, sabendo que podia ser a pior decisão e mesmo assim dizendo, porque eu não tinha outro jeito de não me sentir pequena.
O homem de capuz deu mais um passo, diminuindo a distância entre nós abruptamente, como se o ar tivesse se comprimido. Ele não fez menção de sacar uma arma ou faca; não houve "teatro" na sua aproximação. Apenas se colocou perto o bastante para que eu distinguisse o seu cheiro: uma mistura de fumaça, metal, e um perfume sutil, quase irônico, dada a brutalidade da situação.
— Grita e tu vai botar alguém que tu gosta no meio. — ele falou, baixo, quase calmo. — Aqui ninguém é invisível, Camilla. Nem tua mãe. Nem tua vizinha. Nem aquela tua amiga que pega ônibus cedo.
Meu sangue virou gelo.
O morro inteiro sempre soube de mim. Eu só fingia que não. E naquele instante eu entendi o poder real: não era a arma. Era a informação.
Eu apertei os dentes.
— Quem mandou vocês?
O do boné olhou pro do capuz, como se pedisse permissão. O do capuz respondeu com um único movimento de cabeça.
— Lobão.
O nome veio como um trovão abafado.
Subchefe.
Eu não conhecia ele de perto, ninguém conhece de perto quem vive no alto sem querer mas conhecia o peso do nome. Lobão era o tipo de homem que não precisava ser o dono pra fazer o morro obedecer. Diziam que ele era a mão direita. A mão suja. A mão que resolve.
Eu engoli em seco e senti, pela primeira vez, um medo que não era só de apanhar ou morrer. Era medo de desaparecer. De virar história sussurrada.
— Eu não vou.
O do boné suspirou, impaciente, como se eu fosse criança teimosa.
— Vai.
E aí aconteceu rápido.
O do boné segurou meu braço, firme, sem me machucar o suficiente pra deixar marca, mas forte o suficiente pra me lembrar que meu corpo, naquele momento, não era meu. Eu tentei puxar, tentei acertar um chute, mas o do capuz apareceu do outro lado e bloqueou, encaixando a mão na minha cintura como se eu fosse um pacote. Não foi um “sequestro de filme”. Foi pior. Foi eficiente.
Eu senti minha bolsa escorregar do ombro. Tentei agarrar. Eles não deixaram.
— Solta! — eu rosnei, mas a voz saiu engasgada pelo pânico.
— Quietinha, Camilla. — o do capuz repetiu, e a calma dele me deu vontade de bater.
Me empurraram pra frente, pela viela estreita. Eu tentei mirar o joelho do do boné, ele desviou como se já esperasse. Eu tentei chamar alguém, mas a garganta travou quando pensei na lista de gente que ele mencionou. A covardia não veio porque eu era fraca. Veio porque eu era mulher.
Uma moto estava parada num ponto cego, como se sempre tivesse estado ali. O do boné subiu primeiro, o do capuz me puxou pra garupa com um movimento seco. Eu me debati, senti a mão dele apertar meu antebraço, não pra me ferir, pra me fixar.
— Se cair, morre. — ele avisou, como se estivesse falando do tempo.
Eu odiei ele naquele instante com tudo que eu tinha.
O motor rugiu e o morro virou um borrão. A cada curva eu tentava gravar o caminho: uma escada, um poste quebrado, um grafite, um cachorro magro. Mas a velocidade comia meus pontos de referência. E a sensação mais c***l era essa: o mundo familiar se transformando em labirinto.
Quando a moto parou, eu já estava com o corpo inteiro tremendo de adrenalina, de raiva, de humilhação.
Me tiraram da moto e me conduziram por um corredor estreito, escuro, cheiro de mofo e cimento. Uma porta de metal apareceu.
O do capuz abriu.
Lá dentro, um quarto simples, sem janela aparente. Colchão no chão. Uma cadeira. Um balde num canto. Nada de luxo, nada de “romance”. Só concreto e destino.
Ele me empurrou pra dentro, e eu quase caí, mas não caí. Eu me segurei de pé, porque eu me recuso a ser vista como fraca por homem nenhum.
A porta fechou atrás de mim com um som que parecia definitivo.
Do outro lado, a voz do do capuz veio como lâmina:
— Fica aí, Camilla. Lobão vai vir te ver.
E, quando os passos se afastaram, eu finalmente deixei o medo aparecer não como choro, mas como fogo queimando por dentro.
Porque se Lobão achava que eu ia virar garantia quieta… ele tinha escolhido a mulher errada.