Capítulo 02 — O Subchefe Não Pede

1135 Palavras
Lobão O morro tem um jeito próprio de respirar à noite. Ele não dorme, ele vigia. Cada som tem peso: moto subindo devagar demais, passo apressado demais, silêncio comprido demais. Eu aprendi a ler isso cedo, como se fosse uma língua que só quem sobrevive entende. E naquela noite, o morro respirava curto. Eu estava na laje coberta da casa-base, onde a luz não estoura e a sombra é sempre mais útil que o clarão. A cidade lá embaixo brilhava como se fosse outro planeta um lugar onde as pessoas fingem que a gente não existe até precisar falar de medo. O rádio chiou no meu ouvido. — Tá no seguro, chefe. — a voz veio com a pressa de quem quer ser elogiado. — Pegamos a menina. Eu não respondi na hora. Não por suspense. Por controle. Controle é o que separa um homem que manda de um homem que só grita. — Deu trabalho? — perguntei. — Ela é brava… mas veio. — ele riu, um riso torto. — Tá lá no quarto. O riso dele me incomodou. Não porque eu me importasse com o conforto dela. Eu me importava com outra coisa: o tipo de erro que um riso desses anuncia. Desci a escada com passos lentos, sem pressa de parecer perigoso. Eu não precisava parecer. Eu era. A casa estava cheia do barulho típico de base: gente indo e vindo, cheiro de cigarro, metal, café requentado, conversa baixa com palavra cortada no meio. Quando cheguei na sala onde os meninos estavam, o clima mudou como se alguém tivesse fechado uma porta invisível. Eles levantaram. Alguns desviaram o olhar. Outros encararam, tentando adivinhar meu humor. Eu olhei pro que tinha rido no rádio. Ele estava encostado numa parede, peito estufado, feliz por ter “cumprido missão”. O tipo que acha que lealdade é moeda pra comprar liberdade. — Qual foi a ideia? — perguntei, neutro. — Qual ideia, Lobão? Eu me aproximei o suficiente pra ele sentir que eu tinha escolhido ele como assunto da noite. — A ideia de rir. — eu disse. — A ideia de se sentir dono de alguma coisa. O sorriso dele morreu. O morro ensina rápido quando a gente quer. — Foi só… — ele tentou. — Foi só nada. — cortei, baixo. Eu fiz um gesto curto com a mão. Dois homens se aproximaram e tiraram o rádio dele, a arma dele. Não porque ele fosse me atacar. Porque eu queria ele pequeno, nem que fosse por um minuto. — Escuta com atenção. — eu falei, olhando ao redor, pegando todos eles. — Essa menina não é prêmio. Não é diversão. Não é troféu pra postar no ego de ninguém. Um dos mais novos engoliu em seco. Outro apertou o maxilar. Eu continuei, cada palavra encaixada como bala em pente: — Ela é seguro. É garantia. É uma peça no tabuleiro. E a peça não se usa. Peça se guarda. O cara do riso tentou se recuperar, como se a vergonha fosse insuportável. — Mas, chefe, ela é só… Meu punho bateu na mesa ao lado dele. Não foi forte o suficiente pra quebrar. Foi forte o suficiente para interromper o sangue dele antes de virar coragem. — Só é o que te falta pra morrer. — eu disse, com calma. O silêncio ficou pesado. O tipo de silêncio que faz o homem entender que respirar é concessão. Eu me inclinei, perto do rosto dele, e falei como se fosse conselho: — Se alguém encostar nela sem ordem… eu arranco do morro a chance de vocês existirem. E eu não tô falando de expulsar. Tô falando de apagar. Não precisei ser gráfico. Eles preencheram com a imaginação e a imaginação sempre assusta mais. Me afastei e encarei todos. — Regra do seguro: ninguém entra sozinho. Ninguém conversa demais. Ninguém provoca. Ninguém ameaça à toa. E principalmente: ninguém toca. A última frase saiu com o peso de um decreto. Eu vi alguns assentiram rápido demais, medo. Outros assentiram devagar entendimento. E teve um ou outro que fingiu que não se importava. Esses são os que eu observo com mais carinho… porque são os que fazem besteira quando acham que eu virei paisagem. Virei pro cara do riso. — Você vai ficar dois dias no posto do alto. Sem descanso. Sem fumar. Sem gracinha. Pra aprender que cativeiro não é motel e que mulher de dívida não é moeda de prazer. É moeda de negociação. Ele tentou dizer “sim, chefe” com dignidade. Não conseguiu. Eu saí dali sem olhar pra trás. O morro inteiro funciona com mensagens simples: quem tá comigo vive, quem me desafia cai. Só que naquela noite, o desafio não era arma apontada. Era tentação. Porque manter uma mulher presa é fácil. Difícil é manter o meu povo sob controle quando eles sentem cheiro de vulnerabilidade. E Camilla era uma vulnerabilidade com nome próprio. Passei pelo corredor estreito onde ficava o quarto. A porta de metal tinha uma fechadura nova. Eu mandei trocar. Não por medo dela. Por medo dos outros. Encostei a mão no metal frio, sentindo a vibração da casa por trás: passos, murmúrios, rádio ao longe. Lá dentro, nenhum som claro. Mas eu sabia que ela estava acordada. Mulher brava não dorme fácil quando a vida virou jaula. Eu reconhecia esse tipo de raiva porque eu já vivi dentro dela. O homem que eu era hoje nasceu de um lugar parecido: um dia você tá só tentando sobreviver… no outro, tá decidindo quem sobrevive. A diferença é que ela ainda achava que escolha era um direito. Eu me aproximei da fechadura e falei baixo, sem abrir, como se minhas palavras pudessem atravessar o metal: — Camilla… teu irmão te vendeu. Mas aqui dentro, quem decide teu valor sou eu. Não era ameaça. Era realidade. E realidade é o que mais quebra gente. Me afastei e voltei pro corredor, sentindo o morro girar ao meu redor como uma máquina viva. Eu precisava resolver a dívida. Precisava descobrir quem estava por trás. Precisava impedir que o chefe achasse que eu estava ficando mole. Só que, no fundo, havia uma coisa que eu não disse pra ninguém — nem pro rádio, nem pros homens, nem pra mim mesmo: Camilla não era só seguro. Camilla era risco. E risco… é o tipo de coisa que ou você elimina rápido, ou você acaba guardando perto demais do peito. Quando cheguei na sala de operações, peguei o rádio e falei, seco: — Quero o irmão dela aqui. Hoje. Inteiro. E quero saber quem mandou ele jogar o nome dela na mesa. A voz do outro lado respondeu “sim”. Eu desliguei. Naquela noite, o morro não ia respirar curto por muito tempo. Eu ia apertar o ar até alguém confessar.
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