Capítulo 03 — Porta Trancada, Pulso Vivo

1329 Palavras
Camilla A porta fechou com um som que não era só metal batendo. Era um ponto final. Eu fiquei encarando o lugar onde ela tinha se encontrado com a parede, como se, olhando forte o bastante, eu pudesse desfazer o que aconteceu. Como se a força do meu ódio fosse uma chave. Nada. O quarto era pequeno. Pequeno do tipo que te obriga a existir dentro de si mesma. Colchão no chão, um lençol fino, uma cadeira velha, um balde no canto, paredes cinzas que pareciam ter engolido todas as cores do mundo. Tinha um cheiro de cimento úmido misturado com algo antigo — suor, mofo, medo grudado. Eu não chorei. Ainda não. O choro é um luxo. E eu não sabia quantas horas eu ia precisar do meu corpo inteiro, do meu cérebro inteiro, da minha coragem inteira. Respirei fundo. O ar entrou pesado, raspando minha garganta. Quando soltei, o som saiu tremido, como se meu peito estivesse tentando fugir sozinho. “Fica viva.” A voz do cara de capuz ainda ecoava. E, por algum motivo, aquilo me irritou mais do que a ameaça. Como se eu não soubesse o básico. Como se minha vida agora dependesse da boa vontade de um homem que eu nem vi de verdade. Eu dei dois passos até a porta e bati com a palma aberta, forte. — Ei! — eu gritei. — Ei, abre essa porta! Nenhuma resposta. Eu bati de novo, mais forte, sentindo a dor subir pelo pulso. — Eu não sou bicho pra vocês prenderem assim! Tá ouvindo?! Nada. O silêncio do lado de fora era o tipo de silêncio que te humilha. Ele dizia: você não tem plateia. Você pode gritar até perder a voz, ninguém vai correr pra te salvar. Ninguém quer olhar. Eu respirei de novo e encostei a testa na porta, os olhos fechados. Só um segundo, só pra organizar a mente, só pra não deixar o pânico virar dono. Pânico é um bicho esperto. Ele não chega de uma vez. Ele vai abrindo porta por dentro, devagar. Ele começa no estômago, sobe pro peito, aperta a garganta e quando você vê… você tá obedecendo sem pensar. Eu não ia obedecer. Me afastei e comecei a andar pelo quarto, medindo o espaço com o corpo, como se o espaço fosse uma coisa viva que eu precisava entender. Três passos pra um lado. Dois passos pro outro. Uma parede. Outra parede. Eu passei a mão pela superfície áspera do cimento. Não tinha janela. Não tinha fresta. Nem aquele buraco mínimo de respiro. Só uma lâmpada fraca no teto, luz amarela e cansada, como se até a eletricidade ali estivesse de castigo. Eu sentei na cadeira por um instante, mas a madeira rangendo me deu raiva. Levantei de novo. Eu não queria me acostumar. Não queria dar ao meu corpo a ideia de que aquilo podia virar rotina. Peguei o lençol e puxei. O colchão era fino, daqueles que te lembram que conforto também é escolha de quem manda. Tinha uma mancha escura num canto, eu não quis saber do que era. Engoli em seco e senti o coração bater tão alto que parecia barulho no quarto. Eu me perguntei se alguém do lado de fora escutava. Se alguém achava engraçado. Minhas mãos tremiam. Não de frio, de adrenalina. A imagem do meu irmão veio na minha cabeça com uma força absurda. O rosto dele. O jeito dele sorrir tentando convencer. “Tá tudo sob controle, Camilla.” Controle uma ova. Eu senti vontade de matar ele com as minhas próprias mãos. E, por trás dessa vontade, veio o medo real: e se ele não estivesse mais vivo? E se ele já tivesse pago a dívida com o corpo e eu estivesse ali por nada? E se eu fosse só… o resto? Eu apertei os olhos, expulsando o pensamento como quem cospe veneno. Não. Não. Eu não podia enlouquecer no primeiro dia. Eu precisava de método. Eu precisava de estratégia. Sentei no colchão, desta vez porque minhas pernas começaram a falhar. Eu odiei isso. Odiei que meu corpo fosse fraco mesmo quando minha cabeça gritava com força. Encostei as costas na parede e abracei os joelhos. O cimento era gelado, e o contraste com o calor lá fora me fez arrepiar. Meu corpo estava preso e, ao mesmo tempo, parecia que eu tinha sido jogada num buraco que não pertencia a lugar nenhum. Eu tentei lembrar do caminho. A moto. As curvas. O poste quebrado. O cachorro magro. A escada. Mas tudo se misturava. Era como tentar guardar água nas mãos. Fechei os olhos e ouvi. Só isso: ouvi. Longe, muito longe, um rádio chiou. Vozes abafadas. Passos. Um som de metal batendo metal — arma sendo mexida, eu reconheço. Alguém tossiu. A casa tinha vida, mas ela estava do lado de fora da minha porta. Eu era o segredo. E segredo não tem direito. Minha respiração ficou curta. O pânico tentou abrir outra porta por dentro. “E se eles fizerem comigo… aquilo?” A pergunta veio suja, involuntária, e me deu nojo de mim mesma por pensar. Mas eu pensei porque eu sou mulher e eu sei o mundo em que vivo. Eu sei o que homem armado acha que pode fazer quando a mulher não tem ninguém olhando. Minha pele arrepiou inteira. Eu levantei num salto, como se pudesse fugir do pensamento. Andei pelo quarto, passando a mão nos braços, como se eu pudesse apagar a sensação de ameaça sem toque. Então parei de repente, respirando forte, e falei baixinho, pra mim mesma — porque às vezes a gente precisa ouvir a própria voz pra não desmanchar: — Eu não vou quebrar. A frase soou pequena no começo. Pequena demais pra tamanho do medo. Eu repeti, mais firme: — Eu não vou quebrar. Bati a mão no peito uma vez, como se lembrasse meu coração de quem manda ali dentro. — Eu posso sentir medo. Eu posso tremer. Mas eu não vou quebrar. Eu fui até o balde no canto. Tinha uma garrafa de água pela metade ao lado, e isso me deu um alívio ridículo, como se água fosse sinal de humanidade. Eu bebi um gole, e a água desceu gelada, cortando a garganta, me trazendo pro presente. A porta, então, rangeu do lado de fora. Meu corpo congelou inteiro. Eu dei dois passos para trás, instintivamente, procurando qualquer coisa que pudesse virar arma, a cadeira, talvez. Minhas mãos se fecharam, prontas pra brigar. Meu coração disparou de um jeito que doeu. A portinhola pequena, bem no meio da porta, abriu com um clique. Eu vi só um pedaço de rosto, só um olho, e a voz veio baixa, sem humor: — Tá viva? Minha raiva explodiu antes do medo. — Me tira daqui! — eu rosnei, avançando até a porta. — Eu não fiz nada! Quem deve é meu irmão! Vocês são uns covardes! Do outro lado, silêncio. Eu imaginei um sorriso torto, uma expressão indiferente. A voz respondeu: — Reclama com ele. Aqui é regra. — Regra de quê?! Regra de bandido?! A portinhola fechou com violência. Clique. Eu fiquei encarando o metal, ofegante, sentindo as lágrimas finalmente ameaçarem. Não de tristeza. De impotência. De fúria. Eu passei a mão no rosto, empurrando a emoção pra dentro como quem empurra fogo pra um canto, sabendo que ele ainda tá lá, queimando, só esperando escapar. Me sentei de novo. Respirei fundo. E fiz a única coisa que eu podia fazer: transformei minha raiva em plano. Eu registraria cada som, cada horário, a frequência com que a portinhola abria, cada passo no corredor e toda mudança na estação de rádio. Se me consideravam "segura", eu me tornaria uma ameaça. E quando Lobão viesse me encarar, porque ele viria, eu sentia o peso do nome dele, ele entenderia algo simples: Eu podia estar confinada, sim. Mas minha determinação ainda estava intacta. Eu não era uma moeda fácil de se gastar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR