Capítulo 10 — O Rei Precisa do Subchefe

1416 Palavras
Lobão O recado do chefe não veio em forma de convite. Veio como ordem disfarçada de aviso o tipo de aviso que, no morro, já carrega o preço embutido. O rádio chiou no meu bolso enquanto eu descia um corredor estreito. — Lobão. Sobe. Agora. Só isso. Sem “por favor”, sem contexto. Quando o rei chama assim, é porque alguém mexeu numa peça que ele considera dele. Eu parei um segundo, encostando a mão na parede áspera, sentindo o concreto frio como se ele pudesse segurar o que eu não deixo aparecer no rosto. Meus homens estavam atentos, mas fingindo normalidade, porque aqui a normalidade é máscara, e máscara salva. A Camilla tinha tentado fugir e falhado. Isso por si só já era um incêndio. Mas o cheiro de fumaça que eu sentia no ar não vinha só dela. Vinha do entorno. Do povo farejando. Do rival rondando. Da polícia talvez ouvindo. E, pior: vinha de dentro. Subi as escadas sem pressa. Pressa é fraqueza. Pressa é mostrar que a mão treme. A casa do chefe era mais limpa que o resto — não por luxo, mas por símbolo. Ali, cada objeto existia pra lembrar quem manda. A sala tinha sofá largo, mesa pesada e dois homens de pé ao lado da janela: Diniz e mais um que eu não gostava de ver por perto, porque homem que vive em silêncio geralmente tá contando as mortes antes de acontecer. O chefe estava sentado, o anel brilhando na mão como se fosse coroa. Ele não levantou quando eu entrei. Rei não levanta. — Tu tá me criando problema, Lobão. — ele começou, direto, sem aquecimento. Eu fiquei de pé. Não sentei. Não por desafio. Por posição. Quem senta sem ser convidado parece confortável demais. E conforto demais vira alvo. — Eu tô resolvendo um problema — respondi, calmo. Diniz soltou um riso curto, provocador. — Resolvendo? A menina virou assunto no morro inteiro. Tem gente filmando beco, Lobão. Tem gente perguntando nome. Isso não é resolver. Isso é chamar atenção. Eu encarei Diniz como quem escolhe onde cortar. — Quem filmou tá sendo seguido. E quem perguntou vai aprender a ficar com a boca fechada. O chefe bateu o anel de leve na mesa, um som pequeno que calou o resto. Ele me olhou com aquele olhar de homem que não gosta de ser contrariado, mas precisa de quem faz o trabalho sujo. — Tu sabe o que tão dizendo? — ele perguntou. — Que eu tô fraco. Que eu deixei tu virar dono do teu próprio jogo. Que tem mulher trancada… e que isso tá mexendo contigo. A última frase veio carregada de veneno. Não porque ele acreditasse. Porque ele queria ver minha reação. Eu não dei. — Tão dizendo porque tem boca demais viva — eu falei. — E porque tem dedo de rival empurrando história pra virar manchete. O homem silencioso, o que eu não gostava, finalmente falou: — Ou porque essa menina não é só menina. Eu virei o rosto devagar. — Explica. Ele puxou o celular do bolso e mostrou a tela. Um vídeo curto, tremido, gravado na entrada de um beco. Três caras, rindo, falando alto. E uma frase que me acertou como bala: “É a Camilla. A irmã do cara que tá devendo. Tá na mão do Lobão.” O vídeo tinha legenda, comentário, risada. Tinha alcance. Tinha gente compartilhando. Eu senti o gelo subir por dentro, mas meu rosto não mudou. O chefe se inclinou pra frente, como quem se diverte quando alguém escorrega. — Agora me diz, Lobão… — ele falou devagar. — Tu acha que isso é só fofoca? Isso é moeda. Isso é política. A palavra “política” no morro tem outro sentido. Não é eleição. É poder. É troca. É chantagem. É guerra sem tiro… até o tiro. — Quem tá puxando isso? — eu perguntei. Diniz respondeu no lugar do chefe, sedento: — Rival. Gente do outro lado tá querendo te testar. Quer saber se tu entrega a menina… ou se tu compra briga por causa de mulher. Eu olhei pra ele com frieza. — Não é “por causa de mulher”. É por causa de controle. O chefe sorriu de canto, como se eu tivesse dito a palavra certa. — Isso. Controle. — ele repetiu. — Então tu vai entender meu ponto. Ele levantou a mão, e o homem silencioso jogou mais informação na mesa: — Tem recado chegando pela polícia também. Não oficial. Mas recado. O tipo de recado que vem por baixo, por gente que conversa com gente. Eu senti o estômago apertar, não por medo da polícia, mas por ódio do jogo. Quando a polícia começa a mandar recado “por baixo”, é porque alguém quer usar o caos pra negociar. O chefe me encarou. — Camilla virou ponte. — ele disse. — Ponte pra rival. Ponte pra polícia. Ponte pra quem quiser. E ponte… pode ser usada dos dois lados. Diniz abriu os braços, como se tivesse a solução mais óbvia do mundo. — Entrega ela e corta o assunto. Faz sumir. Pronto. Eu não respondi de imediato. Fiquei olhando pro chefe, deixando o silêncio trabalhar por mim. No morro, quem preenche silêncio geralmente se denuncia. — Se eu fizer ela sumir — eu disse, por fim — eu viro o assunto. Não ela. E eu dou ao rival a prova que ele quer: que eu me apavoro com barulho. Diniz bufou. — Tu tá protegendo demais, Lobão. O chefe ergueu o dedo e Diniz calou. — Ele não tá protegendo. — o chefe falou. — Ele tá segurando. E isso pode ser útil… se for do jeito certo. Meu maxilar travou por dentro. Ali estava a verdade: o chefe não queria resolver o problema. Queria usar o problema. — O que você quer, então? — eu perguntei, direto. O chefe levantou, finalmente. Quando ele levantou, a sala pareceu encolher em volta dele. Rei não precisa gritar — ele só ocupa. — Eu quero resultado. — ele disse. — Quero saber quem colocou teu nome nesse vídeo. Quero saber quem tá bancando esses curiosos. Quero saber se isso vem do rival… ou de dentro. A palavra “dentro” ficou pesada. A sala inteira entendeu. Ele se aproximou, parando a poucos passos de mim. — E quero que tu entenda uma coisa, Lobão: se essa menina é seguro, ela é meu seguro também. Se for pra negociar, eu negocio. Se for pra cortar, eu corto. Se for pra expor alguém, eu exponho. Diniz sorriu, satisfeito. Eu não. Porque ali, naquele instante, eu vi o tabuleiro inteiro se desenhar. Camilla tinha deixado de ser só uma garantia de dívida. Ela tinha virado isca política. Uma ferramenta pra medir meu pulso, minha lealdade, minha frieza. Um jeito do rival me cutucar. Um jeito do chefe me puxar de volta pra coleira. E eu odeio coleira. Eu encarei o chefe com calma — a calma que nasce quando você decide que não vai perder nem que tenha que quebrar o mundo em partes. — Eu vou te dar resultado — eu disse. — Mas a menina fica comigo. Ninguém toca. Ninguém usa por diversão. Ninguém mexe sem eu saber. O chefe arqueou a sobrancelha. — Tu tá pedindo ou afirmando? Eu não pisquei. — Eu tô garantindo que a moeda não vai cair no chão antes da troca. Ele me observou por um tempo longo. Tempo de rei decidindo se mantém o subchefe… ou se começa a cavar substituto. Por fim, ele sorriu — um sorriso frio. — Vai. Faz teu trabalho. — ele disse. — E Lobão… Eu parei na porta. — Se essa menina te fizer esquecer quem tu é… eu mesmo te lembro. Eu saí sem olhar pra trás, sentindo o morro inteiro respirando no meu cangote. No corredor, eu puxei o rádio e falei baixo: — Quero quem filmou com a boca no chão — vivo. Quero saber quem pagou, quem mandou, quem vazou. E quero o irmão dela amarrado na minha frente antes do sol nascer. Desliguei. Camilla era risco. Sim. Mas agora eu tinha certeza do que era pior do que risco: ser usado. E eu não virei Lobão pra ser ferramenta de rei nenhum. Eu ia usar a moeda do meu jeito. E quem tentou transformar a menina em política… ia aprender que no morro, política também sangra — mesmo quando ninguém derrama sangue.
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