Camilla As paredes têm memória. Não dessas memórias bonitas de casa de vó, cheiro de café e risada. Memória de concreto é outra coisa: ela guarda grito, guarda segredo, guarda ameaça. E eu descobri isso da pior forma, colando o ouvido no cimento, tentando roubar do mundo qualquer migalha que me devolvesse um pouco de controle. Eu ainda sentia o pulso arder onde a fita tinha apertado. A marca estava ali, vermelha, teimosa, como um lembrete: você não manda. Só que eu também tinha outra marca, invisível, dentro do peito: eu não vou ficar cega. A porta tinha ficado fechada o dia inteiro. Só abria a portinhola pra água, comida, e pra me lembrar que eu era viva por concessão. E o silêncio… o silêncio era quase pior do que a ameaça, porque nele a cabeça inventa monstros. Até que, no fim da

