Capítulo 15
Narrativa do autor
Melissa foi embora apreensiva com o desfecho da conversa. Ela pensou: isso vai mexer com muita gente. Tudo que está escrito nesse computador que a minha mãe deixou é uma bomba-relógio, e muitos não queriam que isso viesse à tona. Mas, infelizmente, para que o Ricardo comande tudo sozinho, sem precisar casar com ninguém — principalmente essa tal Helena —, isso precisa aparecer.
Pelo que viu, Helena era ambiciosa e arrogante. Não servia para ser patroa do morro. Talvez nem o próprio Ricardo servisse para ser chefe, mas, com o irmão ao lado, ele conseguiria. sim, Ela também sabia da existência do irmão de Ricardo, o Pedro.
Melissa chegou ao seu destino. O chefe da facção era o seu pai, e ela era uma filha que ele escondia de todos, porque tinha medo de que alguém tentasse matá-la. A mãe dela era advogada da facção. Nunca se casaram e ele nunca assumiu publicamente que a menina era sua filha. Os dois guardavam essa história em segredo. Melissa soube de tudo antes da mãe falecer; foi a própria mãe quem contou.
Melissa sentou-se na sala, exausta da viagem. O chefe chegou logo depois, sentou-se ao seu lado e perguntou:
— Deu tudo certo?
— Eu acho que sim, pai. Deixei eles desconfiados. Algo ficou no ar. O Pedro é mais esperto, presta atenção em cada detalhe e já junta logo os fatos. Vamos ter que ligar pra Margarida para conversar com ela, porque ela tem uns rompantes, gosta de falar alto, gritar com as pessoas… diferente da sua filha, que é um amor de pessoa, e muito bonita, diga-se de passagem.
— Agora, pai, como vamos falar da Maísa para o Ricardo e o Pedro?
— Não sei, filha. A única coisa que sei é que estava acontecendo um roubo nas finanças do morro. O Garcia sempre foi correto com os repasses pro comando.
— O senhor não acha estranho o avião do Garcia explodir no dia em que a família ia viajar?
— Acho sim, filha, mas isso vamos apurar. Quero os dois aqui na reunião. Falando nisso, vou avisar a ele da reunião na terça, aqui no Turano. Quero entender muitas coisas.
— O senhor conhece a mãe do Pedro e do Ricardo? Por que o interesse no Pedro? Perguntou o chefe.
Ela ficou vermelha e não respondeu.
Melissa estava muito empolgada com seu primeiro caso no Brasil. Agora, ela ia começar a anotar os nomes dos envolvidos. A reunião seria uma bomba atrás da outra.
O dia foi marcado pelo chefe da facção: seria na terça-feira, às oito da noite. Ele mesmo ligou para Heleno, marcando, e ainda disse:
— Trás sua filha.
Ligou para Misinho e deixou Maísa para o Pedro trazer. Luís também estaria nessa reunião.
Melissa estava louca para ver Pedro mais uma vez. Seu telefone vibrou; era uma mensagem. Quando ela virou a tela, seu coração até errou as batidas.
Mensagem on
Boa noite, princesa! Chegou bem aí na sua casa?
Sim, cheguei bem. Tomei um banho, liguei para o tal Heleno.
Na terça-feira eles estarão na reunião. Trás sua mãe também, ok? A fiel do Garcia também vai vir. Vamos esperar no que vai dar.
No dia seguinte, Melissa saiu cedo para resolver sobre o testamento. A documentação assinada, revogando o acordo, foi reconhecida firma, e o vínculo de Ricardo com Helena já não existia mais. Agora as coisas correriam nos trâmites da Justiça. Nada de ilegal iria acontecer, apenas a investigação da retirada de uma grande quantia de dinheiro dos cofres do caixa dois, ou seja, a retirada do dinheiro sujo que não podia ser colocado no computador da empresa de aviação, que agora era de Ricardo Duarte Garcia, o RD.
Na hora do almoço, Melissa foi a um restaurante. Quando ela sentou, pediu um suco de laranja. O garçom veio trazer — um rapaz que não parecia ser garçom. Ela olhou para ele e lembrou de alguma coisa. Pegou o celular e acessou as câmeras que haviam mandado para ela. No vídeo, estava esse mesmo rapaz entregando um suco nas mãos de sua mãe.
Ela o reconheceu. Pegou o suco, deixou sobre a mesa e fingiu estar lendo. Mandou uma mensagem para Pedro, dizendo:
Vou te mandar uma localização. Você manda a polícia vir até aqui agora. Estou com o assassino da minha mãe à minha frente. Ele me trouxe um suco de laranja igual ao que trouxe para minha mãe. Tenho provas aqui, porque estou com o vídeo que me mandaram. É para chamar agora.
Pedro recebeu a mensagem e respondeu:
— Então quer dizer que esse é o garçom…
Na mesma hora, ligou para a polícia, fazendo a denúncia anônima, e disse que era para eles irem naquele momento, porque o suposto assassino estava no restaurante, fazendo a mesma coisa: entregando um copo de suco para a filha da vítima.
Não demorou quarenta minutos. Melissa continuou fingindo que estava lendo, com o suco em cima da mesa e um sanduíche à frente, porque tinha pressa. A todo minuto que ela olhava, o garçom estava de longe a observando.
Foi quando a polícia adentrou o estabelecimento. Lá fora, já estava tudo cercado. Ele disfarçou e saiu andando devagar pela tangente. Quando chegou à saída dos fundos, a polícia já estava lá.
— Aonde você vai? — perguntou um policial.
— Vou jogar o lixo fora.
O delegado falou:
— Ninguém sai daqui até segunda ordem.
Foi quando Melissa chegou perto do garçom, dizendo:
— Tudo bem? O que aconteceu? Eu sou advogada.
Melissa logo se identificou, com o copo de suco na mão.
— Eu não bebi o suco. O senhor pode trocar esse suco? Ele esquentou.
Ele ia jogar o suco fora, mas ela fez melhor:
— Dá uma provada nesse suco. Vê como ele está amargo.
O garçom ficou assustado. Disse que não podia beber.
— É para você beber — insistiu ela.
— Eu não vou beber esse suco.
O delegado perguntou:
— Por que você não vai beber o suco?
— Porque não gosto de suco de laranja.
— Não é pra você gostar. É só pra provar. Se não estiver amargo, tudo bem, eu estou errada.
Ele ficou nervoso.
— Eu não vou beber.
Ela pegou o suco e falou para o delegado:
— Obriga ele a beber pelo menos um gole.
O delegado ordenou:
— Beba esse suco.
Ele entrou em desespero:
— Não posso! Esse suco está envenenado!
O delegado deu voz de prisão, tirou ele dali, jogou dentro de um camburão e o levou para a delegacia.
Melissa foi atrás, no carro dela. Lá começou o interrogatório. Ela, como advogada, fez parte do interrogatório. Foi quando o garçom falou:
— Um homem chegou aqui, mostrou a sua foto e disse que, no dia em que você viesse aqui, era pra eu botar essa substância em qualquer coisa que você pedisse. Eu botei no sanduíche e botei no suco. Não sei por qual motivo você não tomou.
Ela perguntou:
— Você já deu esse remédio para alguém?
— Sim, para uma senhora, há uns seis meses atrás. Recebi muito bem por isso, quase duzentos mil.
— Aquela senhora era minha mãe. E quem mandou você fazer isso comigo sabe que eu sou filha dela. Quem foi o cara?
— É só puxar nas câmeras que você vai ver. Ele não estava hoje, mas todos os dias vem aqui pra ver se a senhora aparece. Ele deve ter visto o tumulto e voltou.
O delegado puxou as câmeras. Era um homem alto, moreno, barba cerrada, vestido com jaqueta de motoqueiro, cabelo grisalho. Moral da história: era um coroa. E parecia estar a mando de alguém.
Agora era saber quem estava querendo matar a advogada Melissa, porque sabia que ela sabia demais.
Ela ligou para o pai e mandou a foto do homem. Ele olhou e disse:
— Esse cara é o chefe da facção rival.
— Mas o que isso tem a ver? Ele tentou te matar… Não estou entendendo. Então ele matou sua mãe e agora tentou matar você? Alguém está por trás disso.