Capítulo 14
Narrativa do autor
No momento em que a advogada constatou que os pais de Ricardo também haviam sido assassinados, os olhos dele se marejaram. A tristeza foi intensa. Pedro se levantou do lugar, foi até o amigo, abraçou-o e disse:
— Fica assim não. Vamos nos vingar de todos eles.
Luís então falou:
— O que vocês têm que fazer, primeiramente, é anular a cláusula que diz que o Ricardo só assume o comando se casar com a Helena. Porque, se o Ricardo tivesse morrido, a Helena seria a única herdeira. O Heleno passaria a ser o chefe, mas nomearia o Mizinho. Se ele tivesse um filho homem, nomearia o filho. Mas quando entregasse o morro ao Mizinho, não teria nem um tostão no caixa pra comprar uma bombinha de birôsca.
Ricardo então entendeu que o tempo todo Helena e o pai dela estavam armando contra a família dele. Seus olhos escureceram, do mesmo jeito que os do pai ficavam quando estava com raiva. Olhou para Luís e disse:
— Você tá comigo ou tá fora. Porque agora eu vou. Ou você pula fora ou fica junto.
Luís olhou para Ricardo e respondeu:
— Tô contigo. Como eu disse pro seu pai, eu jamais iria te abandonar se acontecesse alguma coisa com ele. E eu tô aqui como um soldado fiel.
Ricardo encarou ele e respondeu:
— Tomara que sim, porque o que vai acontecer com eles não vai ser nada bom.
Pedro então olhou para Ricardo e disse:
— Fala que vai ser sem massagem, vai descer de arrasta. Fala uma gíria aí. Não vem nessa de almofadinha, não, que vão rir de você lá no morro.
A advogada esperou que eles conversassem e disse:
— Eu tenho um documento assinado pelo seu pai, pela minha mãe e pelo Luís, que anula essa cláusula de você ter que casar com a moça pra assumir o seu lugar de herdeiro no Juramento. Mas, se você não quiser o Juramento, vai ter que continuar lavando o dinheiro na sua empresa e nomear alguém como dono do morro, que seria quem já está lá. Eles estão esperando agora essa decisão sua.
— Foi bom você ter me chamado, porque eu tenho várias coisas pra te passar. Você foi treinado em luta e tiro ao alvo?
Ricardo respondeu:
— Sempre fui um bom lutador. Tenho diplomas de boxe, taekwondo, luto judô e fiz até faixa marrom de capoeira. Atirar com armas longas e curtas eu sei, só não sei lidar com ponto 50, que nunca chegou onde meu pai tinha um galpão. Agora eu entendi por que aquele galpão de tiro ao alvo clandestino que meu pai tinha no sul do Rio de Janeiro. Ali eu aprendi a atirar com todas as armas, e eu não sabia o porquê. Eu nem gostava quando meu pai parou de me levar. Foi no ano passado, por causa das minhas provas, e eu não podia me distrair com outras coisas. Então ele parou de me levar.
A advogada ficou olhando para ele e disse:
— Nossa, muito bem. Então ele te ensinou. Agora falta você aprender a lidar com as pessoas no morro, porque nem todos que riem pra você gostam de você. Tome cuidado com o que você fala e perto de quem você fala.
— Outra coisa: existem mulheres ali que estão sempre de olho no que vão ganhar e não se importam em te entregar pra polícia, ou para seus inimigos, pra facção rival ou pra qualquer um, por dinheiro. Qualquer mil reais elas são compradas. Elas são chamadas de prostitutas, marmitas… esses são os apelidos. Você tem que saber distinguir quem é quem. O Pedro conhece. Ele é cria de favela.
— Tem mais coisas que vocês dois precisam saber, mas não vai ser agora que serão contadas.
— Outra coisa: existe uma fiel no morro, que era a esposa do seu pai na comunidade. Todos a respeitam e a chamam de patroa. Ela continua ali como patroa porque, até agora, ninguém chegou pra reclamar o lugar dela e nem chegou um dono do morro casado com outra mulher pra ser chamada de patroa. Então ela manda e desmanda, faz o que quer no morro.
Ricardo olhou sério para Pedro e disse:
— Caraca… meu pai tinha amante há quanto tempo?
A advogada Melissa abriu um arquivo no computador e respondeu:
— Há quinze anos. Ele tem essa mulher há quinze anos. A história dela é diferente. Ela chegou no morro com uma filha no colo, toda arrebentada. Seu pai a achou caída na entrada do morro, levou ela pro postinho, entregou a criança pra uma amiga cuidar e foi embora pra casa.
— No outro dia, quando ele voltou, mandaram chamar ele no postinho. A mulher contou que o marido tinha batido nela e colocado ela pra fora de casa porque tinha arrumado outra pra botar no lugar dela. Ele era de outro morro, e o morro era da facção rival. Ela resolveu falar logo a verdade, porque alguém podia contar pra ele.
— Garcia se encantou com aquela mulher. O nome dela é Margarida. E dali começaram a ter um caso. Antes era sem compromisso, mas ele começou a gostar de ficar com ela. Seu pai não gostava de andar com mulheres no morro por causa da sua mãe. Ele tem um passado ali no morro, mas isso vocês vão saber depois.
Pedro franziu a testa, olhou para ela e disse:
— Por que você fala “vocês”? Quem tem que saber é o Ricardo. Eu e o Luís não temos nada a ver com isso.
A advogada olhou para ele, puxou os óculos e respondeu:
— Depois você vai saber o porquê. Mas, por enquanto, deixa só o Ricardo saber o que ele vai ter que fazer.
— Marca a reunião, Ricardo. Você pode me dar o testamento pra eu estudar? Não vou deixar ninguém ver . Luís, você não volta hoje pro Rio. Estamos tratando de algo muito perigoso.
— A reunião vai ser na terça-feira, na sede do comando. O Luís sabe onde é. Ele leva vocês. E vocês não saiam daqui.
Pedro perguntou:
— Como vamos fazer? Minha mãe tá no morro.
— Sua mãe pode vir pra cá — respondeu Melissa. — Vou teqexplicar. Pega um Uber, avisa pra ela ficar esperando na saída do morro. Chama o Uber já pago, porque se você não fizer isso, eles não vão aceitar trazer ela até essa localização. Traga ela pra cá no dia da reunião. Ela pode ir também, entendeu?
— Outra coisa: a fiel do senhor Garcia vai estar lá. Esse testamento diz muitas coisas. Coisas da herança, do morro e do passado. São coisas que você tem que se preparar pra ouvir.
— Pedro, ajuda seu amigo. Não deixa ele fazer besteira. Por enquanto, fiquem em casa. Não saiam, não mandem localização pra ninguém e não conversem com estranhos no telefone. Se a Helena ligar, não atenda. Não deixe que ela descubra onde você está.
— Faça conforme eu te falei, que tudo vai dar certo. A reunião será na terça-feira. Eu ligo pra vocês pra dizer o horário. Daqui vocês vão direto pra lá.
— Se for possível, comprem roupas novas. Não fiquem com roupas velhas ou sujas. Mande sua mãe, Pedro, trazer roupas pra você.
Pedro olhou para Melissa, e algo nele mudou. Ela também percebeu, ficou vermelha, colocou o cabelo atrás da orelha, colocou os óculos escuros e se despediu, pegando o notebook, colocando-o dentro de uma bolsa junto com o testamento do morro e o testamento pessoal. Na capa estava escrito: O Herdeiro.
Pedro ficou olhando aquela mulher sair e disse para Ricardo:
— Por que será que ela falou que minha mãe pode ir? Minha mãe não faz parte disso.
— Mas eu não vou dizer nada pra minha mãe. Vou levar, porque se eu disser que ela vai, ela não vai querer ir. Vou ligar pra ela e mandar que venha pra cá. Pelo menos vai fazer comida decente pra nós.
E assim Pedro fez. Ligou para a mãe, pediu que ela arrumasse uma mala, levasse dois ternos, separasse as coisas dela e esperasse o Uber na saída do morro, às duas horas da tarde de domingo.