A VERDADE COMEÇANDO A APARECER

1626 Palavras
Capítulo 13 Narrativa do autor Deu a hora do almoço. Ricardo mandou pedir comida para ele e Pedro: churrasco e cerveja. Ficaram ali depois do almoço, esperando para ver se Luís chegava. Estavam à beira da piscina, tomando cerveja, quando Luís, assessor direto do pai de Ricardo, entrou pelo portão lateral, deixando o carro do lado de fora. Estava visivelmente nervoso. Sentou-se em uma espreguiçadeira sem cumprimentar ninguém e esfregou as mãos no rosto, inquieto. Ricardo saiu da piscina, se secou com a toalha que estava pendurada, pegou uma cerveja e esticou uma para Luís e outra para Pedro, perguntando: — Fez boa viagem? Vigiou pra ver se ninguém te seguiu? — Sim, prestei atenção. Não tinha ninguém me seguindo — respondeu Luís. Em seguida, ele disse: — Então vamos ao que interessa. Preciso voltar hoje ainda pro Rio. Ricardo entrou na casa e trouxe todas as documentações que estavam no escritório: as que conseguiu ler e entender e as que ainda não tinha conseguido decifrar. — Eu quero que você me conte tudo e não me esconda nada — disse Ricardo. — E já vou te dizer o porquê. Antes de qualquer coisa, meu pai e minha mãe foram assassinados. Era pra eu estar também naquele avião, no aeroporto. Eu desisti e voltei pra casa. Duas horas depois que cheguei, a notícia estourou nas redes nacionais de TV: o avião do meu pai havia caído nas montanhas. Agora me diz, desde o início, tudo o que você sabe. Não me esconde nada, porque se eu perceber que você tá escondendo alguma coisa, não vai ficar bom pra você. Acho que nem daqui você sai vivo. Luís deu um pulo da cadeira, assustado. — Que é isso, patrão? O senhor tá igual ao seu pai… qualquer coisa já queria matar? Ricardo deu um sorriso amargo. — Meu pai era tão r**m assim? — Sim. Quando era preciso, sim. Tudo bem… vamos ao que interessa. — No início, eu, seu pai e o Heleno éramos amigos de faculdade. Seu pai não concluiu, mas eu e o Heleno concluímos. Me formei em Administração de Empresas, e o Heleno também. — O Heleno morava no morro com a esposa e uma filha de um ano quando seu pai se casou. Ele não gostou, porque seu pai saiu do morro e deixou ele como subchefe. Numa invasão, a esposa do Heleno morreu. Seu pai, como amigo do Mizinho, deixou ele no lugar do heleno, como está até hoje. — Algo aconteceu no meio do caminho, porque seu pai começou a perceber grandes desfalques no caixa dois do morro. Você sabe que sempre existe um caixa dois, e esse caixa dois era do morro, não das empresas. As empresas do seu pai e do Heleno não faziam parte disso, nem eram ligadas. A empresa que fazia a lavagem era a empresa de aviação do seu pai. — O Heleno tinha 10% de participação em toda a lavagem. Não sabemos como ele conseguiu entrar no sistema e começar a tirar dinheiro do caixa dois, através de um hacker. Seu pai descobriu, mas quando descobriu, você já estava envolvido com a Helena. — Sua mãe não gostava dela, porque sabia o porquê de ela estar noiva de você, por insistência do pai. Vocês começaram a namorar, ou melhor, ela começou a dar em cima de você. Eu tô errado? Ricardo permaneceu em silêncio. — A partir daí, começamos a perceber que a empresa do Heleno estava indo de m*l a pior. Seu pai, o senhor Garcia, começou a ir menos ao morro, e a contabilidade ficou por conta do Mizinho, que era braço direito do pai da Helena. — Daí começou a desconfiança. Tudo que eu fazia, eu tinha que dar satisfação pra ele, porque ele é o subchefe do morro. Eles estão tentando não te colocar como chefe do Juramento, porque tem muita coisa em jogo. Muito dinheiro. O Juramento faz dinheiro demais. Por isso eles não querem você no morro e não querem que você saiba o que tá acontecendo. Ricardo franziu a testa e perguntou: — Essa advogada, Melissa… quem é ela? — Ela é filha de uma grande advogada do comando, que faleceu há alguns meses, de causas naturais. Um m*l súbito no volante do carro. Morreu em plena Avenida Brasil. Um caminhão bateu na traseira, mas dizem que ela já estava debruçada no volante, ou seja, já estava morta. Fizeram autópsia e descobriram que foi infarto. Até hoje eu desconfio disso, porque ela era muito nova, não tinha doença nenhuma, nem pressão alta. — Ela tinha uma filha que morava fora do Brasil, também advogada e magistrada nos Estados Unidos. Transferiu tudo pro Rio e agora é advogada do comando. Só eu e seu pai sabíamos disso. Por isso seu pai deixou um recado pra você ligar pra ela. Ricardo perguntou: — Então você era o braço direito do meu pai na empresa. Você vigiava tudo. Mas creio que muitos infiltrados ali dentro não deixavam você perceber muita coisa, porque sabiam que você contaria pro meu pai. Tô errado? — Não, não tá. Eu não podia dizer totalmente quem eu era. Eles só me tratavam como um funcionário puxa-saco, mas eu não ligava, porque eu sabia minha função. — Existe uma estante de livros que tem todos os livros-caixa do Juramento. Sei que você achou essa estante, porque depois que você saiu eu estive no escritório e vi algumas coisas mexidas. Percebi que você tinha tirado dali o testamento, no caso o segundo testamento, que vai ser lido pelo comando e pela advogada. — Sugiro que você marque uma reunião no comando. Todos só serão avisados faltando um dia. O Heleno vai ficar sabendo dois dias antes, pra poder vir lá de fora, e a filha dele também. Ricardo olhou sério para Pedro e perguntou: — O que a Helena sabe que eu não sei? Luís respondeu: — Ela não sabe muita coisa. Só que tem um porém: você vai ter que casar com ela pra assumir o comando do morro. Ricardo se levantou, passou a mão no rosto nervoso, jogou o cabelo para trás e falou: — Mas eu sou obrigado a casar com ela? Tem alguma cláusula nesse testamento ou em algum documento do morro? — É aí que entra a sua advogada. Existe um testamento que só ela pode ler. No caso, seria a mãe dela, que faleceu. Mas eu acho que a mãe dela também foi assassinada, porque sabia demais sobre a lavagem de dinheiro e sobre o testamento. — É por isso que o pai da Helena queria que vocês se casassem antes mesmo de o Garcia morrer. Ele não poderia impedir depois. Mas o que eu pude perceber é que você nunca amou essa jovem, e ela também não gosta de você. Ela é ambiciosa. — No escritório do pai dela existe um rapaz chamado Lucas. Eu sei porque tenho uma informante lá dentro. Ele sai com ela, mas também não gosta dela. Ele está interessado na fortuna dela… e na fortuna que ela vai ter com você. Por isso ele vive incentivando esse casamento. — Agora você já sabe o que tá acontecendo. Tem mais revelações, mas essas eu fui proibido de te contar. Ricardo perguntou: — E esse tal de Mizinho? Quem é ele? Posso confiar nele, se foi colocado ali pelo Heleno? — Se eu fosse você, aposentava o cara. Ele já tem quase cinquenta anos e sonha em viajar com a esposa, a filha e as duas netas. A filha dele era esposa do gerente do morro que morreu na invasão. Ela nunca mais quis ninguém. Você pode aposentar ele e colocar outro subdono do morro. Ricardo olhou para Pedro e disse: — Entra nessa comigo, irmão? Pedro se levantou, esfregando uma mão na outra, feito criança. — Tamo junto. O que você quiser, eu faço. O que você mandar, tô nessa. Ricardo apertou a mão de Pedro. — Então vamos entrar nessa guerra. No exato momento em que ele terminou a frase, um carro buzinou no portão. Pedro correu para abrir. Do carro desceu uma mulher de cerca de vinte e três anos, com jeito de menina. — É aqui que mora o senhor Ricardo? — Sim. Ele tá lá dentro, te aguardando — respondeu Pedro. Ela entrou e foi direto para a piscina, onde Pedro havia indicado. Chegou, já foi tirando a pasta e colocando sobre a mesa. A pasta era um notebook. Na capa, estava escrito “Marisa”, o nome da mãe dela. — Isso aqui é onde estavam todos os arquivos da contabilidade do Morro do Juramento que seu pai comandava — disse ela. — Minha mãe descobriu que estava tendo um roubo muito grande no Juramento, um desfalque, quando o dinheiro era levado pra lavar. — No dia em que minha mãe ia contar isso ao seu pai, ela infartou no volante do carro. Mas, pelas câmeras que consegui — e ninguém mais tem —, vimos que antes de ir ao encontro do seu pai, ela se encontrou com o pai da sua noiva. Eles tomaram um suco e, depois disso, ela infartou. — Então sabemos que minha mãe foi assassinada. E, com a morte do seu pai e da sua mãe, entendo que eles também foram assassinados. Agora, por que mataram todos e deixaram você? Ricardo olhou para ela e respondeu: — Eles não me deixaram. Na hora de embarcar, eu desisti e voltei. Quando cheguei em casa, tomei um banho, comi alguma coisa e sentei pra ver TV. Foi aí que ouvi a notícia de que o avião do meu pai tinha caído nas montanhas. A advogada Melissa concluiu, em tom firme: — Então eles também foram assassinados.
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