Capítulo 12
Narrativa do autor
O dia m*l amanheceu e Ricardo já pulou da cama. Fez sua higiene pessoal, tomou um banho, desceu as escadas e ligou para um restaurante, pedindo um café da manhã completo, delivery para dois. Em seguida, foi até o carro e pegou todas as pastas que havia trazido do escritório, inclusive o livro que parecia um testamento, por causa do número da tal Melissa, uma doutora advogada.
Quando Pedro acordou, já se fazia tarde. Ricardo já tinha separado alguns livros e lido pelo menos dois. Percebeu que existia um segundo livro de todos os que estavam ali. Talvez tivesse ficado no escritório, ou seja, o livro-caixa dois. Cada número era marcado com uma seta. Tudo indicava que havia sido descoberto um roubo. Mesmo havendo lavagem de dinheiro, o escritório que fazia a movimentação era o do pai da Helena e do Garcia. Então, eles tinham um negócio juntos — foi o que Ricardo deduziu.
Pedro tomou o café que Ricardo havia deixado na mesa e foi para o escritório ajudar nas investigações. Havia muitos telefones, e eles foram anotando todos em um caderno à parte. Então veio a pior descoberta: Isabela era do Morro do Juramento. Casou-se com seu pai no mesmo ano em que ele nasceu. Já ficou estranho, mas não era sobre isso que ele queria saber, porque o nome da mãe dele estava no meio daqueles livros.
Ricardo começou a se aprofundar e ali foi descoberto que seu pai tinha uma ligação forte com o Morro do Juramento. Apareceu um telefone. “Misinho” era o nome escrito em cima do número. Na mesma hora, ele ligou.
O cara atendeu:
— Quer falar com quem, amigo?
Ricardo respondeu à altura:
— Queria falar com o Garcia. Seria possível?
Do outro lado da linha, a pessoa deu um sorriso amargo:
— Você estava em qual planeta, amigo?
Ricardo respondeu com outra pergunta:
— Por que você tá me perguntando isso? Você não soube?
— Não… o chefe morreu no acidente, com a fiel dele.
O telefone estava no viva-voz, e Pedro ouviu a conversa. Arregalou os olhos quando ouviu a palavra “fiel”.
Ricardo continuou mentindo:
— A fiel dele é a Isabela?
Do outro lado da linha, a pessoa resmungou:
— Sim.
— Ah, tá, entendi. Não, é porque eu tenho um negócio com ele. Ele ficou de fazer umas paradas pra mim e até hoje não recebi resposta. Ele viria pra cá, pro meu país, e não apareceu.
— Então, cara — respondeu o tal Misinho —, o avião que ele tava indo pra aí caiu na montanha. Ele morreu tem quinze dias.
Ricardo perguntou, ainda fingindo:
— E quem tá tomando conta da empresa, amigo?
— Rapaz, pelo que eu sei é o filho dele.
— Será que eu posso ligar pra ele?
— Não, não liga não. Porque ele ainda não sabe que ele é o herdeiro do Juramento. Estamos esperando o Luís contar. Até agora, o Luís não falou nada. Mas vamos esperar a vontade do Luís. Chegou uma mensagem pra mim dizendo que na segunda ele vai contar, porque o moleque tem que receber a herança dele.
Ricardo começou a ficar pálido. Pedro correu até a cozinha, trouxe um copo d’água gelada e fez sinal para que ele bebesse. Depois, fez sinal para ele escutar bem e ligou o gravador do celular, mas já tinham passado várias tretas.
Ricardo tornou a perguntar:
— Então quer dizer que o filho dele é o herdeiro do Morro do Juramento?
— É, cara. Você não sabia que ele tinha um filho?
— Não — respondeu Ricardo. — Pra mim, ele tinha uma filha.
— Não, ele tem um filho. Quem tem uma filha é o Heleno, que é o sub do morro. Mas eu fiquei no lugar dele. Fui nomeado por ele pra tomar conta, porque daqui do morro eu não saio.
— Entendi… então quer dizer que o Heleno é o subdono do morro.
— Isso.
— Tudo bem. Quando vocês resolverem aí, liga pra esse número.
Ricardo desligou o telefone, pálido. Olhou para Pedro e disse:
— Você ouviu o que eu ouvi, cara? Meu pai era chefe de morro. Meu pai era o dono do Juramento. Então acabei de crer que a morte dele foi um assassinato. Agora, quem matou o meu pai? Vou me aprofundar mais nesses documentos e apressar a vinda do Luís pra que ele explique o que tá acontecendo. Liga pra ele, manda ele vir sem avisar ninguém. Só nós três aqui.
— E eu vou ligar pra advogada, a tal da Melissa, e passar a localização pra ela. Quero conversar sobre isso. Quero saber por que meu pai tinha tantos livros escondidos, tipo caixa dois, e parecia estar escondendo algumas coisas de alguém. Eu não sei o que meu pai descobriu, mas eu vou saber.
Liga pra todo mundo e manda vir pra cá. Enquanto isso, vamos separando a documentação e vendo o que tá acontecendo, pelo menos pra gente entender.
Pedro ligou para Luís, que atendeu prontamente. Ele só disse:
— Sou eu, Pedro. Tô com o Ricardo. Ele pediu pra você seguir essa localização hoje ainda, sem avisar ninguém. Ele descobriu algumas coisas e quer saber de você. Sua vida pode estar correndo perigo, então não avisa a ninguém.
E desligou o telefone rapidamente, sem deixar Luís responder.
Em seguida, ligou para a advogada Melissa. Ela atendeu:
— Alô.
A voz dela fez Pedro se arrepiar todo.
— Doutora Melissa?
— Ela mesma. Em que posso ajudar?
— Aqui é o Pedro. O Ricardo, filho do seu Garcia, pediu pra você vir até a localização que ele vai mandar. Ele descobriu algumas coisas e quer saber de você. Por favor, não avisa ninguém, porque sua vida pode estar correndo risco também. Você sabe do que a gente tá falando. Estaremos esperando você até amanhã, mas se puder vir hoje, será um prazer.
— Ok.
Pedro desligou, olhando para Ricardo com os olhos assustados.
— Caraca… a voz dela não é de coroa, não. A voz dela é de menina, o que tá havendo, cara? Tá havendo alguma coisa. O Luís já tá vindo pra cá e ela talvez venha hoje. Mas vamos esperar.
Ricardo continuou mexendo nos documentos e descobrindo mais coisas. A pasta que estava lacrada, com o nome da advogada, ele não mexeu. Mas havia um livro-caixa dois escrito com uma letra que não era a do pai de Ricardo. Ali eles entenderam que aquela letra era do subdono do morro: Heleno, pai de Helena.
Ricardo então começou a entender o porquê da insistência de Heleno em casar sua filha com ele. Talvez ele soubesse, ou não, alguma coisa de podre escondida embaixo disso tudo.
— Nós vamos descobrir, amigo — disse Ricardo.