Quarenta e duas horas sem dormir. Apenas eu, Dylan e Tobias, estávamos aguentando no momento. David havia começado um cochilo inocente na outra poltrona da sala. Eu estava ao seu lado, ouvindo sua respiração calma, enquanto não desgrudava os olhos da grande tela conectada à um computador, que estava presa no meio de uma grande parede.
As setenta polegadas cobria o rastro de um País.
De acordo com as informações adquiridas do smartphone do homem que me fez companhia à algumas horas atrás, os americanos estavam numa base temporária na Rússia, e a última mensagem recebida tinha vindo de uma pequena cidade ao sul. Tentávamos nos comunicar com os conhecidos de Victor que comandavam por lá, mas enquanto o líder cuidava disso, nós trabalhávamos com o plano B da missão: Comunicação.
Assim como Kirby se expressou antes, Victor quis tentar um acordo com os americanos, uma união de forças, com só apenas um objetivo, salvar a Helena e seu filho ainda no ventre. Nada além disso, inicialmente.
Se nossa comunicação com a Facção americana for estabelecida, nós saberemos exatamente onde eles estarão, pois caso recusassem, teríamos que tentar um bate-papo cara à cara. O que não poderíamos fazer é desistir. Não tinha que haver derramamento de sangue.
— Talvez já estejam cientes que o celular dele foi roubado — comentei, encarando o aparelho que só fazia chamar há horas.
— É claro que sabem — Dylan, bebendo mais um gole de café, respondera.
— Eles devem estar pensando em alguma proposta. — Tobias esfrega os olhos. — Ou ainda analisando a própria situação. Eles podem já estarem à par de tudo, na verdade.
— E se eles pedirem pra você comparecer? — questionei à ele. O grisalho levanta o olhar dramaticamente.
— Qual sua preocupação?
— Eduard teria motivos para não garantir sua segurança? — dessa vez, até o Dylan o encarou, esperando junto à mim a sua resposta.
— Claro que não. — Dylan troca olhares comigo. Ele também lembra. — Podemos não nos darmos tão bem sempre, mas sabemos a hora de falar sério. E o mais importante no momento é a segurança de Helena e o filho dele.
— Saber disso nos deixam mais tranquilos, Tobias. — Ele dá de ombros.
A porta da sala é batida duas vezes, e então é aberta. A imagem de Steve me surpreende, fazendo meu coração saltar no peito. Seus olhos, após varrerem a sala rapidamente, cravam em mim por alguns segundos, antes de ditar algo.
— Posso falar com você, Katherina? — não era um pedido.
Me adiantei, quase pulando da cadeira. Saí da sala, deixando a porta fechada. Não sabia o que este homem queria comigo. Ele andou alguns passos no corredor, depois ficara me observando. Suas mãos abriam e fechavam várias vezes. Eles estava nervoso?
— Não preciso ser esperto pra saber que está do lado do meu irmão.
— Eu só consigo pensar na Helena e no filho dela o tempo todo, nada para mim é mais importante que a segurança de ambos, entenda, passei anos ao lado dela...
— Eu entendo. Eu disse isso por que sei que você é diferente de mim. Sempre foi. — Deu uma passo em minha direção. — Não vou tentar nada, Kate.
— Do que está falando? — ele respira fundo.
— Concordei em esperar até ela estar segura — seguro o ar no peito.
— Ótimo, isso é realmente ótimo – sorri para ele. — Por que mudou de ideia? — dou um passo até ele.
— Também tenho um pouco de humanidade em mim, Kate. — E ele dá mais um passo.
— Eu nunca disse que você não tinha. — Ele solta um riso nasalado. — Você só é mais durão do que eu, mas só um pouquinho!
— Só um pouquinho? — mais um passo, mas não sei se foi o meu corpo ou o dele que se movera. Assenti em resposta, e ele apenas pisca, depois de correr os olhos por todo o meu rosto. — Espero que tudo isso acabe de uma vez.
— Eu...
— Katherina — escuto atrás de mim. E pelo o grave da voz, já sabia de quem se tratava.
— Depois teremos tempo para conversar mais.
O moreno em minha frente declara, mas com os olhos em um ponto atrás de mim, com uma expressão séria, e então ele se vai. Me viro, e Dylan mantinha a porta aberta, com os olhos grudados em mim, como se procurasse algo.
— Eles retornaram a ligação — David avisa assim que entro de volta na sala. — Quem atende? — me viro para Tobias, ele apenas revira os olhos, clicando no verde.
O que me deixa curiosa. Ele sempre conversava com Eduard sem mais ninguém ouvindo, e agora, todos nós teríamos o direito de participar. A grande tela onde se situava a pequena a Rússia, começa a piscar, procurando estabelecer a conexão, e então nos fornecer um endereço em apenas alguns minutos.
— Com quem estou falando, Victor ou Tobias? — perguntou uma voz grave através do aparelho.
— Tobias — o grisalho responde.
— Como vai, Tobias? Temos muito o que conversar. — Dylan cruza os braços. Ele reconheceu a voz?
— Não temos que explicar o porquê de querermos ajudar. Minha equipe e eu temos muito apreço por Helena, assim como o Victor, que se dispôs à auxiliar no resgate. — Tobias se adianta.
— Imaginei que você não ficaria de fora, Eduard também pensou o mesmo, e se você quer tanto emprestar suas forças, quem sou neste momento para negar? — Oh, então a voz era do avô de Dylan.
— Tudo é questão de informações e decisões, onde os mais capacitados se darão ao trabalho de fazê-lo. — Uma respiração dramática é escutada.
— Dylan? — a voz chamou, e meus olhos caem sobre o moreno em expectativa.
— Vovô — o jovem responde, de forma irônica, me fazendo rir.
— Sabe o quanto sempre prezamos a confiança, tanto quanto o próprio sangue... — Meu coração batia forte. O que ele queria dizer com isso? Achei que essa conversa seria o mais simples e direta possível.
— Sim. — Foi tudo o que respondeu.
— Quero resolver isso pessoalmente com você, e apenas com você — o quê? Apenas com o Dylan? Seria arriscado.
— Como será o encontro? — Meus olhos quase saltam do rosto em direção a Dylan.
Ele está maluco? Ele odeia a própria família, o sobrenome que carrega, e todo esse ódio é recíproco. Aos meus olhos, aceitar este pedido seria o mesmo que suicídio!
— É realmente necessário? Só estamos perdendo tempo, enquanto fica cada vez mais difícil de recu... — Tobias tenta, mas é cortado imediatamente.
— Você a quer bem tanto quanto o marido dela, que está nesse momento movendo céus terras à procura dela, inclusive ele insistiu que este acordo que podemos fazer desse certo. Eu só preciso de uma breve conversa com o meu neto. — Um calafrio me sobe a espinha. Ele usa essa palavra como se realmente significasse alguma coisa para ele. Maldito!
— É só dizer os detalhes do encontro. — Assim? Sem nem nos olhar na cara? Ele não tem receio do que possa acontecer?
— Entrarei em contato. — E a linha e cortada. Meus olhos correm pela a grande tela, onde mostrava o caminho da comunicação estabelecida incompleta, mas que dava para termos um ideia.
— Está maluco? — questiono ainda descrente. O moreno me encara.
— Não temos muitas opções, Katherina — sinto a mão de David em meu ombro.
— Eles só querem um voto de confiança. — Tobias declara, saindo da sala rapidamente, sendo seguido por Dylan.
— Mas é claro que não o deixaremos ir sozinho! — disse meu amigo.
David estava certo. Fomos imediante até a sala de Victor, junto de Tobias.
— Podemos montar um perímetro com o endereço que conseguimos. — Victor assente. — Temos um ponto de referência, podemos partir dele.
— Dylan é um americano e antigo m****o dessa facção, corremos mais riscos com ele possivelmente nos espionando. Montar esse circo todo não faz sentido. — Steve, que estava em pé ao lado do irmão, declara. Ok, é um bom argumento.
— Conheço ele, e confio nele — Tobias dá alguns passos à frente. —, ele nunca se agradou com a família, e ao longo dos anos tem mais que mostrado como é diferente deles. Não deixarei meu aluno para trás, eu o vejo tanto como amigo como alguém da minha própria família, assim como vejo David, Katherina, e os outros. Não o tratarei diferente, porque este “circo” que estamos armando eu faria o mesmo por qualquer um da minha equipe. — E todos que estavam em silêncio, continuaram. — O avô dele sempre defendeu os interesses da própria máfia alegando estar defendendo os interesses da família, os pais e o irmão de Dylan foram mortos por causa disso, e desde que descobriu toda a verdade por trás das mentiras ele tem se afastado mais do que pôde deles. Ele só está aceitando voltar até lá pela Helena e o filho dela. Seus interesses são apenas estes. Os quais estão o fazendo agir contra sua própria vontade.
Steve respirou fundo, indo até a janela. O líder batuca os dedos na mesa com uma expressão confusa. Outros presentes naquela conversa, que eram alguns conselheiros do líder no recinto, apenas trocam olhares uns com os outros. Tobias tinha uma moral e respeito que David e eu não tínhamos. E eu, por outro lado, não estava pensando direito.
Me sentia nervosa e aflita, com receio pelo o moreno que neste momento podia estar se preparando para uma guerra, ou para apenas dialogar como o avô. Ainda estávamos no aguardo para os detalhes de como tudo seria. Tentávamos nos sentir preparados da melhor forma possível, pensando em tudo o que podíamos fazer para garantir que aquele irritante e arrogante garoto voltasse intacto para nós. Para mim.