O lado sombrio do prazer

1530 Palavras
A noite caiu densa sobre a mansão, como se o céu tivesse decidido guardar segredos. As luzes estavam baixas, o silêncio carregado de expectativa. Marlon observava Ellie à distância, sem dizer uma palavra. Ela pintava de costas para ele. Os ombros nus à mostra, cobertos apenas pela camisola fina de cetim, os cabelos presos de qualquer jeito. O movimento do pincel era delicado, quase frágil — um contraste c***l com o turbilhão que ele carregava por dentro. — Vem aqui, meu amor — a voz dele saiu baixa, firme, carregada de intenção. Ellie pousou o pincel, limpou os dedos no avental e caminhou até ele sem hesitar. Estava apaixonada. Inteira. Não havia mais fuga dentro dela, nem resistência consciente. Ela o queria — sem compreender totalmente o preço. Marlon a tocou com calma, como quem toma posse de algo precioso. Cada gesto era lento, calculado, dominador. O olhar dele estava diferente naquela noite. Mais escuro. Mais fundo. — Hoje… — murmurou — eu quero te mostrar como realmente gosto de você. Ellie sentiu o arrepio percorrer o corpo. Não era medo. Era algo confuso, intenso, impossível de nomear. Ainda assim, assentiu. O que se seguiu não foi apenas prazer. Foi entrega. Controle. Limites borrados. Marlon conduzia tudo com precisão quase c***l, alternando cuidado e força, silêncio e domínio. Ellie se deixou levar — sentindo o corpo responder, mas a mente tentando acompanhar. Houve momentos em que o prazer e a dor se confundiram. Em que o cansaço pedia pausa, mas a intensidade a mantinha presa ali, naquele espaço onde ela não precisava decidir nada. Onde tudo era feito por ela — e sobre ela. Quando tudo terminou, Ellie estava exausta. O corpo sensível, a respiração irregular, a mente turva. Marlon a envolveu nos braços com uma delicadeza quase contraditória. — Você é incrível… — sussurrou. — Minha boneca linda. Ela sorriu fraco, tentando entender o que sentia. — Então… é assim que você gosta? Ele a observou por um instante, medindo-a. — É. Mas não sempre — disse. — Só algumas vezes. Nos outros dias, eu sigo o seu ritmo. Prometo. Ela tentou rir, mas as pernas falharam quando tentou se levantar. Marlon a segurou imediatamente, sem permitir que ela caísse. — Eu cuido de você — afirmou, sem margem para discussão. Na água morna da banheira, ele a lavou com cuidado, como se quisesse apagar qualquer excesso. Depois, a levou de volta para a cama, cobriu-a e garantiu que comesse. Por fora, tudo parecia perfeito. Um casal tranquilo. Protegido. Íntimo. Por dentro, Ellie sentia um nó se formar. Foi bom… Mas doeu. E o que mais a assustava não era isso — era saber que, mesmo assim, ela faria de novo. --- Na manhã seguinte, a mansão parecia grande demais. Silenciosa demais. Marlon já havia saído. Ellie sentou-se na beira da cama, abraçando o cobertor, sentindo o corpo ainda sensível e a mente inquieta. Precisava falar. Precisava ser ouvida. Encontrou Jéssica no jardim, cuidando das plantas. — A gente pode conversar? — perguntou, quase num sussurro. Jéssica a levou até o único ponto da propriedade sem câmeras. Um pequeno refúgio escondido. Ali, Ellie desabou. Falou do amor. Do medo. Do passado que tentou enterrar. Da obsessão que sabia existir, mesmo fingindo não ver. Da arte que só existia porque ele permitia. Da liberdade que parecia real — mas tinha limites invisíveis. — Eu tô feliz… — confessou, chorando. — Mas eu tenho medo. Jéssica ouviu tudo em silêncio. Quando falou, sua voz foi firme e sincera. — Amor não pode machucar assim — disse. — E se tá passando do seu limite, você precisa dizer. Porque se não disser, isso cresce. E você some. Ellie enxugou as lágrimas. — Eu não quero perdê-lo… — E você não vai — respondeu Jéssica, segurando sua mão. — Mas também não pode se perder. Ellie se agarrou a ela, como quem encontra chão depois de muito tempo flutuando. Ali, longe das câmeras, dos códigos e do controle, alguém finalmente a via. E isso, naquele lugar, era quase um milagre. Mais tarde, Ellie voltou para dentro da casa acompanhada de Jéssica. Nenhuma das duas falou nada. O silêncio era pesado, quase respeitoso — como se palavras pudessem quebrar algo frágil demais. Ellie seguiu direto para o estúdio. Precisava respirar. Precisava se esconder dentro das cores, nem que fosse por alguns minutos. Sentou-se devagar no banquinho de madeira, o corpo ainda sensível, e apoiou a tela no colo. Pegou os pincéis com mãos trêmulas. Tentou começar. Mas o traço não vinha firme. Os dedos deslizavam pela superfície branca sem convicção, como se o corpo estivesse ali, mas a mente ainda presa em outra noite. Colocou uma música baixa. Não para inspirar — para abafar o caos. O tempo passou arrastado. Ela não ouviu quando Marlon entrou. Ele se aproximou em silêncio, como sempre fazia quando queria observar antes de agir. Viu a postura dela encolhida, os ombros tensos, o corpo contido. Aquilo não era Ellie pintando. Era Ellie resistindo. Beijou-lhe o pescoço com cuidado. — Boa noite, meu amor… — murmurou. — Pintando sentada? Fez uma pausa. — O que foi? Ainda tá com dor? Ellie respirou fundo antes de responder. Forçou um sorriso que não chegou aos olhos. — Boa noite… Não é nada demais. Ele se afastou o suficiente para encará-la. — Nada demais? — repetiu, com a voz baixa. — Eu conheço você, Ellie. O que tá acontecendo? Ela hesitou. A voz saiu fraca. — É só… a perna. Um pouquinho dolorida. Eu quis sentar pra distrair a cabeça. Só isso. — Tem certeza? — insistiu. — Tenho. Tá tudo bem — mentiu, sem convicção. Marlon não respondeu. Apenas a observou por mais alguns segundos, como se estivesse arquivando cada detalhe. Depois virou-se e foi para o quarto. No banho, a mente dele fervia. Ela tá escondendo alguma coisa. Ela nunca esconde nada de mim. O punho acertou a parede do boxe com força brutal. O estalo seco ecoou. O sangue começou a escorrer pelos dedos, mas ele m*l percebeu. A dor física era irrelevante diante da sensação de perda de controle. Vestiu-se às pressas e desceu até o escritório secreto — o coração do império invisível da mansão. Sentou-se diante dos monitores. Reviu o dia inteiro. Ellie andando devagar demais. Sentando-se. O corpo contido. Viu Jéssica chegar. As duas indo para o quintal. O ponto cego. O único lugar sem áudio. Os maxilares dele se contraíram. Pegou o interfone. — Jéssica. No meu escritório. Agora. Ela entrou algum tempo depois, calma demais para quem sabia onde estava pisando. — O que houve, Marlon? — O que houve com a Ellie? — Nada que eu saiba. Ela tá bem. Ele estreitou os olhos. — Não seja cínica. Eu vi tudo. Ela tá diferente. Pintando sentada. Com dor nas pernas. Isso não é normal. Jéssica suspirou, cansada. — E o que você quer ouvir? Que ela tá dolorida por sua causa? Ele passou a mão pelos cabelos, irritado. — Eu sei que ontem foi intenso… mas eu não achei que estivesse machucando ela. — Não achou? — ela rebateu. — Quantas vezes, Marlon? Ele respondeu baixo: — Cinco. — Cinco?! — Jéssica riu sem humor. — Você não é um homem comum. Nunca foi. E ela não é como as outras mulheres da sua vida. — Eu me sinto completo com ela — disse, quase num desabafo. — Completo não dá direito a ultrapassar limites — respondeu firme. — A Brenda suportava isso porque precisava. Ellie não. Ela não precisa de intensidade. Ela precisa de segurança. Ela apontou para a mão ferida dele. — E isso aí? Vai continuar se machucando pra não encarar o que fez? Ele baixou a cabeça. — Você acha que eu estraguei tudo? — Eu acho que você esqueceu quem manda — disse Jéssica, fria. — E não é o seu desejo. É o limite dela. Você controla tudo na vida dessa menina. Você acha mesmo que ela teria coragem de dizer “para”? As palavras o atingiram como tiros. — Ela tem medo de você, Marlon. Mesmo te amando. Silêncio. Ele socou a parede outra vez. — Chega — ordenou Jéssica. — O que você tem que fazer é mudar. Se controlar. Ou vai acabar quebrando o que você mais quer proteger. — Eu não sei como… — Aprende. Duas vezes. Três no máximo. Se passar disso, que seja ela quem peça. Seja gentil. Seja humano. Porque se continuar assim… você vai perder ela por dentro. E quando isso acontece, não tem poder que conserte. Ela se virou para sair. — E não esquece — completou. — Amor não é posse. É cuidado. Jéssica saiu, mantendo o rosto neutro para as câmeras. Marlon voltou aos monitores. Ellie ainda estava no estúdio. Sentada. Tentando pintar. Pequena demais naquele espaço que ele havia criado para ela. Ele passou a mão pelos cabelos, os olhos pesados. — Me perdoa… — murmurou, sozinho. — Eu juro que nunca mais vou te machucar assim. Nem que eu tenha que quebrar tudo em mim pra isso. Mas, no fundo, ele sabia. Prometer era fácil. Difícil era abrir mão do controle.
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